Eufemismos…

O português é uma língua complicada que tem curiosamente duas palavras para designar mais ou menos a mesma doença: resfriadoconstipação. Hoje em dia, pouca gente usa a palavra «resfriado», está fora de moda. No entanto, na realidade, a expressão popular aproxima-se muito mais daquilo que é a realidade.

Isto vem a propósito da preocupação do meu pai, actualmente com uma demência vascular, que o faz perder a atenção em tudo o que o rodeia (e como não presta atenção, não se lembra das coisas). Mas quando algo lhe chama a atenção, a sua memória é tão boa como a minha. Quando lhe disse no outro dia que estava «com uma constipação», ele lembrou-se depois de me perguntar no dia seguinte como eu estava — coisa raríssima, pois normalmente ele nunca se lembra de nada de um dia para o outro!

E isto porquê? Talvez porque lhe tenha descrito os sintomas da constipação: febre de 38ºC à noite, cansaço e mal estar generalizado, uma pontinha de pus na garganta, o nariz um pouco entupido, algumas dores musculares causadas pela febre, e mais nenhum sintoma.

Ele — como tanta gente nos últimos dias me tem dito! — imediatamente disse, «mas isso é uma gripe! Vê lá se te cuidas bem, porque pode depois dar em pneumonia!» E insistia que devia ir ao hospital tratar-me…

Referia-se a um velho ditado, muitas vezes repetido, provavelmente pela minha avó: «uma constipação mal tratada dá em gripe; uma gripe mal tratada dá em pneumonia; uma pneumonia mal tratada mata».

Bem. Entram aqui os exageros tipicamente portugueses, e as confusões que fazemos com as coisas mais simples. Mas também entra a constante sobre-avaliação que fazemos às características externas, ligando muito pouco às internas; povo que vive das aparências, é normal que assim seja.

O meu sogro sofre de epilepsia, que é uma doença grave e que só raramente é curável. Mas ele não liga nada à doença, pois é impossível. Foram precisos 12 anos para o conseguirmos arrastar para um neurologista (por sinal, o mesmo do meu pai). É que a única preocupação que ele tem é ter de ir urinar todas as horas, e isso é que lhe causa incómodo e desconforto. A epilepsia, essa, independentemente de ser uma doença grave, ele não liga absolutamente nada. Por isso está a fazer acupunctura para a questão da bexiga. É um placebo que não lhe faz mal nenhum, e a acupunctura, hoje em dia, é uma terapia autorizada pela Ordem dos Médicos (desde que praticada por um médico, ou seja, uma pessoa licenciada em medicina e membro da Ordem dos Médicos). Como o meu sogro acredita em bruxarias, astrologia, reiki, e coisas do género, achámos que a acupunctura poderia dar bom resultado. Pelo menos reduz-lhe a ansiedade, e assim também vai urinar menos vezes. Não o cura, mas ajuda-o a andar menos preocupado com o assunto.

Também o meu sogro, ao saber da minha «constipação», ficou preocupadíssimo, telefonou-me umas duas ou três vezes, também achou que eu tinha mas é uma gripe, e que devia tomar uma série de mézinhas e fazer outros tratamentos populares…

Ora donde vem esta incapacidade de compreender a gravidade relativa das doenças?

Estou rodeada de pessoas que têm — digo-o sem pretensões — uma educação superior. São licenciados, têm experiência de vida, lêem notícias, muitos têm mesmo um gosto pela cultura e pelas artes. Esperaria que também tivessem alguns conhecimentos básicos de medicina e da relativa importância das doenças. Mas não é o caso.

A minha cunhada, se espirra uma vez, tem logo uma constipação. Se se sente febril e cansada, é uma gripe. Passa, pois, o inverno todo «engripada» e considera-se muito infeliz. Mas não toma a vacina contra a gripe, porque «toda a gente sabe que depois de tomar a vacina é normal apanhar-se logo uma gripe». Mesmo o meu pai — com 86 anos — e que toma a vacina todos os anos, resmunga sempre porque é normal apanhar «uma gripe» logo a seguir a ter tomado a vacina.

Mas nenhuma destas pessoas apanhou, na realidade, uma gripe. Aliás, dentro do meu círculo de conhecidos, talvez uma centena ou duas de pessoas, não me lembro de ninguém que tenha realmente apanhado uma gripe na última década. Não quer dizer que a gripe esteja erradicada! Antes bem pelo contrário! Estimam-se que todos os anos, 3 a 5 milhões de pessoas contraiam a gripe, e dessas, 250.000 a 500.000 vão morrer. Não é a doença infecciosa mais mortal do mundo, mas não deixa de ser uma doença grave. E, mais importante que isso: há vacina, mas não há cura. Mas também é muito mais rara do que as pessoas pensam. Em Portugal, não devem ser mais do que 7000 pessoas que sejam infectadas este ano (e que dêem entrada nos serviços de urgência dos hospitais, pois, caso contrário, não serão contabilizados pelas estatísticas). Isto quer dizer que, mesmo acreditando que a maioria dos casos de gripe não são reportados, a verdade é que, entre os meus 100 a 200 conhecidos, a probabilidade de algum deles ser infectado com a gripe este ano é virtualmente nula. Teria de ter 1400 amigos para que houvesse uma probabilidade de pelo menos um deles ter apanhado a gripe e ter ido parado a um hospital!

Ora estas contas mostram bem como as pessoas andam completamente às avessas nesta questão. Não tenho praticamente nenhum amigo meu que, todos os anos, me diga que X ou Y (ou ele próprio) não tenha apanhado uma gripe. Ora isso é virtualmente impossível. Não é porque a gripe não seja de transmissão fácil; é, de facto, um dos vírus que se transmite com mais facilidade. Mas é porque a gripe é muito mais rara do que isso.

Então do que é que as pessoas se queixam? Na realidade, aquilo que pensam ser uma «gripe» não é nada mais, nada menos, do que uma constipação. Tecnicamente falando, a constipação é causada por um tipo diferente de vírus, semelhante ao da hepatite, e que tem o nome científico de rinovírus. Cerca de 20% da população mundial é infectada todos os anos com este vírus! Ora isto significa que um em cada cinco dos nossos amigos vai ter uma constipação todos os anos. É por isso que toda a gente, quando tem «sintomas gripais», anda por aí a lamentar-se que apanhou mais uma gripe, quando na realidade esses são sintomas de constipação, que é infinitamente mais provável.

Tal como o vírus da gripe, o vírus da constipação é também incurável. Mas, pior que isso, nem sequer há vacina. Aliás, estimam os cientistas que o vírus da constipação nunca possa ser «curado» — tem tantas mutações que seria virtualmente impossível usar um medicamento universal para poder «atacar» todas as variantes (ao contrário da gripe, que tem poucas variantes anuais). É o assassino perfeito em termos de guerra biológica!

E quais são as diferenças entre os sintomas da gripe e da constipação? É aqui que os leigos têm muita dificuldade em compreender a diferença, pois há sempre aquela ideia de que certos sintomas são «apenas da gripe» e não da constipação. A constipação começa geralmente com dores de garganta e dá febre até 38ºC. Atira-nos para a cama completamente devastados. Dá cansaço e mal estar. Pode dar dores de cabeça e algumas dores musculares. À medida que a doença vai evoluindo, no segundo dia o nariz começa a ficar entupido e a pingar, o muco está completamente líquido, e é normal começar a aparecer tosse. No terceiro dia, o muco fica mais grosso, amarelo ou castanho, e a febre passa. E ao fim de três dias tudo passa — independentemente das mézinhas e medicamentos caseiros que tomemos, pois o vírus é resistente a tudo — mas podemos ainda ficar um pouco zonzos, desidratados, e com um resto de tosse (no meu caso, tende a durar uma semana). A constipação é altamente contagiosa durante os primeiros três dias, pelo que se deve ficar em casa para evitar contagiar as outras pessoas, e descansar o máximo possível.

A gripe tem sintomas semelhantes… mas muito mais intensos. A febre sobe muito mais (acima dos 38ºC), e dura bastante mais tempo a altas temperaturas (2-3 dias), o que faz termos imensos arrepios. Dá dores musculares no corpo todo. Causa extrema fadiga: tudo requer um esforço tremendo, especialmente no primeiro dia, que dá uma exaustão intensa — não podemos mesmo fazer mais nada senão irmos para a cama. Normalmente dá também dores de cabeça e pode causar desordens nos intestinos, ou mesmo náuseas, e causar-nos dificuldades a adormecer. E, tal como a constipação, é possível dar dores de garganta e o nariz ficar a pingar — mas normalmente até é menos intenso do que na constipação — mas acontece logo tudo de repente num dia só. No entanto, há pessoas que apanham gripes sem ficarem com o nariz a pingar e sem dores de garganta (o que torna o diagnóstico mais complicado). Tal como a constipação, a gripe geralmente passa por si só ao fim de 3 dias (ou talvez 5 nos casos mais intensos), embora na semana que se siga também fiquemos com tosse. A sensação de fadiga pode durar bastante mais tempo — duas a três semanas. No caso da constipação, a fadiga é mais ligeira (é praticamente só no primeiro dia) e depois da fase contagiosa, normalmente não perdura. Uma diferença fundamental é que uma gripe «mal curada» pode permitir que «micróbios oportunistas» se aproveitem do estado de enfraquecimento do organismo, sendo o mais perigoso a pneumonia. Uma indicação possível de que tenhamos apanhado qualquer doença adicional é a tosse durar mais do que uma semana e subitamente voltar a febre.

Os sintomas entre a gripe e a constipação são muito parecidos! Ainda por cima, como a maior parte das pessoas é piegas, se logo no primeiro dia se sentirem exaustos e com febre (e com algumas dores musculares), vão logo achar que apanharam uma gripe. Na verdade, o diagnóstico mais simples de fazer para distinguir os dois casos é olhar para a temperatura. A constipação raramente passa dos 38ºC (e mesmo assim, será só por períodos curtos). A gripe sim, pode andar entre os 38,5 e os 39ºC (mais nas crianças).

Ao contrário do que as pessoas pensam, não se apanha nenhum destes dois vírus andando à chuva ou apanhando frio. É verdade — não tem nada a ver. O contágio é geralmente apenas por estarmos em contacto com outras pessoas. Ambos os vírus se transmitem com muita facilidade. O da gripe, por exemplo, pode transmitir-se simplesmente com um aperto de mão. Portanto a melhor forma de o prevenir é lavar as mãos frequentemente com sabão.

É aqui que entramos no terceiro tipo de doenças associadas à época fria, e que não tem nada a ver com os dois primeiros: aquilo a que antigamente chamávamos resfriado e que não é mais do que uma rinite.

A maior parte das rinites são alergias (são tão vulgares como a constipação, ou seja, 20% das pessoas que conhecemos vão este ano sofrer de rinite), mas há algumas que não são (são cerca de 6 a 7% dos casos). O que faz a rinite? Em português vulgar, ficamos com o nariz a pingar, a garganta a arder, tossimos, sentimo-nos mal, podemos ter uma pontinha de febre. Mas pode durar umas duas semanas ou mais, sempre com os mesmos sintomas, e daí o habitual comentário «esta maldita constipação nunca mais me passa!» ou mesmo «este ano, passei o inverno todo com constipações». Pois, mas a verdade é que nunca foram constipações. E a rinite também não «passa» com os medicamentos habituais para a constipação ou gripe; acabamos por estar a tomar coisas que não servem de nada. A única coisa que funciona para o tratamento da rinite, se for alérgica, são anti-histamínicos.

Ironicamente, em nenhum dos casos são apropriados antibióticos. Infelizmente os médicos portugueses têm a mania dos anibióticos, e as pessoas têm uma tendência a insistir que os querem tomar — ou, pior ainda, a guardarem os restos das caixas de antibióticos para a próxima vez que tiverem «uma gripe».

Há apenas uma razão plausível para tomar antibióticos, que é no caso de uma gripe cuja febre voltou a aparecer uma semana depois dos sintomas iniciais. Nesse caso pode ser possível que tenhamos contraído uma pneumonia ou uma infecção por estreptococos. Ambas são causadas por bactérias e não vírus, que aproveitaram o organismo estar debilitado para o infectarem. Apenas nestes casos vale a pena tomar antibióticos — mas deverá ser o médico a observar os sintomas para ver se vale a pena ou não. Por exemplo, após uma constipação estar «curada» (ou seja, ao fim de uma semana), podemos continuar com o nariz a pingar e a tossir durante muito mais tempo — porque temos uma rinite alérgica sem sabermos. Poderá alguém pensar, «ahá, se calhar isto está a acontecer porque apanhei uma bactéria qualquer, deixa-me lá mas é tomar antibióticos a ver se não apanho uma pneumonia!». O que seria um disparate, pois as alergias tratam-se com anti-histamínicos, e não com antibióticos. Mas o inverso também é verdade! Por isso é que nessas alturas vale a pena consultar o médico: até porque nem todos os antibióticos funcionam contra todas as bactérias (nos tempos que correm, as bactérias andam quase todas imunes aos antibióticos comuns…), e tem de se tomar o antibiótico adequado. E isso só um médico pode dizer!

Há uma forma de rinite que não é alérgica e que é muito menos frequente. Este é um dos casos em que a ciência não conhece a causa. Os sintomas são precisamente os mesmos da rinite alérgica: na presença de um agente externo no ambiente, o organismo reage com uma rinite. A diferença é que não envolve o sistema imunitário, por isso não é uma alergia. Nas rinites alérgicas, é o sistema imunitário que está a reagir em excesso perante esse tal agente externo — um caso frequente é a febre dos fenos, mas também pode ser alergia à poluição, a determinados ambientes fechados, ou até mesmo ao frio/mudanças de temperatura e ao vento (alergias motoras). Daí o tal dizer popular que não se deve andar ao frio e à chuva porque isso «causa» constipação. Na realidade, o que pode é «causar» rinite — mas só nas pessoas que sejam, efectivamente, alérgicas a isso.

Uma outra alternativa que também dá «nariz a pingar» é a sinusite. Isto acontece quando os orifícios de passagem entre o nariz e o crânio ficam bloqueados com muco (na sequência de uma constipação ou de uma rinite alérgica) e são infectados por vírus e bactérias, causando uma inflamação. A sinusite pode durar pelo menos umas quatro semanas, por vezes mais, e é também muito frequente: cerca de 10 a 12% das pessoas sofrem de sinusite todos os anos. Os sintomas são muito parecidos aos da rinite (nariz a correr, tosse, um pouco de febre, mal estar generalizado), mas distinguem-se por eventualmente darem dores de dentes e uma sensação de «pressão» (que pode ser dolorosa) no espaço entre os olhos.

Nem a rinite, nem a sinusite, são contagiosas! Mas como as pessoas confundem as rinites (os tais resfriados) com as «constipações», pensam que, se estiverem na presença de alguém que esteja sempre a tossir e a espirrar, que podem apanhar uma constipação ou uma gripe. Se essa pessoa tiver uma rinite ou uma sinusite, não há absolutamente nada que tenha que vos possa pegar!

Em resumo: neste inverno, de um grupo de dez nossos amigos, pelo menos dois deles vão ter uma constipação; dois terão uma rinite alérgica; um vai ter uma sinusite; e talvez mais um terá uma rinite não alérgica. Nenhum terá uma gripe (a probabilidade é demasiado baixa!). Ou seja, a maioria dos nossos amigos vai dizer que «esteve engripado», mas a verdade é que é altamente improvável que algum tenha tido uma gripe. A maioria terá simples rinites. Alguns vão dizer que tiveram «uma gripe mesmo muito grave porque estiveram um ou dois dias de cama com 38ºC e depois uma tosse que nunca mais acabava» — quando na verdade o que tiveram foi uma vulgar constipação.

Olhando para trás na minha vida, não me recordo muito bem se alguma vez tive mesmo uma gripe. Constipações, sim, é frequente tê-las. Quando era adolescente, sofria de rinite crónica (isto quer dizer que tinha os sintomas de rinite durante meses a fio, todos os anos), mas depois fiz um tratamento de des-sensibilização alérgica, e mudei de cidade, e tudo desapareceu (ao contrário do que muita gente julga, as alergias nem sempre são «eternas» — algumas desaparecem por si só, outras podem ser «curadas» com o tratamento adequado). E tive uma mononucleose, que começa por ter exactamente os mesmos sintomas de uma gripe (pelo que é quase impossível de diagnosticar logo no primeiro dia). Mas gripe, gripe, não me lembro se alguma vez a tive; por isso, se a tive, deve ter sido quando era muito nova, pois não tenho memória disso…

Mas isto não era suposto ser um texto sobre a gripe! Desculpem-me as divagações. Foi apenas um exemplo, um pouco longo talvez, sobre a forma como as pessoas normalmente confundem sintomas e pensam que têm doenças que afinal não têm, ou que são coisas completamente diferentes das que efectivamente têm, e como a «desinformação» é tão facilmente espalhada pelo nosso círculo de amigos, mesmo entre aqueles que têm normalmente uma educação superior, e que assumiríamos que soubessem do que estão a falar.

Na realidade, este era suposto ser um artigo sobre depressão.

Esta doença mental é um flagelo das sociedades ocidentais. Dependendo das estatísticas, e do jornal ou revista que se ler, já ouvi dizer que entre um terço a metade (!) da população já esteve clinicamente deprimida; a World Health Organisation apenas diz que 5% da população mundial é afectada. De qualquer das formas, é uma doença comum, significando isto que é bastante frequente. No entanto, como tem um estigma social associado, consoante o país, de 10% a 50% dos casos não são tratados; e existem igualmente imensos casos que são incorrectamente classificados de depressão (e tratados erradamente com medicamentos antidepressivos).

Tal como as confusões que as pessoas fazem entre resfriados, constipações, e gripes, o mesmo se aplica às depressões. Por exemplo, morre-nos um familiar próximo, e durante duas semanas andamos tristes, frustrados, com ansiedade, ou mesmo incapazes de fazer o que quer que seja, e dormimos mal, e, em consequência, andamos irritados com as pessoas. Podemos dizer mesmo que «estamos deprimidos» com a situação e incapazes de lidar com ela. Mas a verdade é que, na esmagadora maioria dos casos, isto não é uma depressão clínica. É apenas uma fase, perfeitamente natural, de reacção a uma situação extremamente negativa.

É, de facto, natural que reajamos desta forma a situações negativas, tal como reagimos bem a coisas positivas. Faz parte da nossa biologia, e também é igualmente natural que não gostemos de coisas negativas e que queiramos não nos sentir tristes, frustrados, ou «deprimidos» (no sentido mais coloquial da palavra!). Quando estamos profundamente tristes, é normal que não tenhamos muita energia, pouca paciência para aturar as pessoas ou as situações, e que não queiramos fazer nada. Tudo isso são respostas normais e naturais a uma situação extremamente negativa.

No entanto, a depressão clínica, mesmo a moderada, é um pouco mais do que isso.

E pode ter sintomas completamente diferentes daqueles que associamos à «depressão», pelo que é raro que o próprio se consiga auto-diagnosticar.

Talvez o problema principal é que não existe apenas um tipo de depressão. Aquele que é mais popular (ou mais frequente) é a depressão melancólica. Aqui encontram-se os casos mais conhecidos: sensação de profunda tristeza que permanece por mais de duas semanas seguidas, desinteresse profundo em tudo (mesmo nas coisas agradáveis) e falta de capacidade em obter prazer mesmo quando se está a fazer uma coisa agradável, insónia, perda de apetite, pensamentos de suicídio, etc. Estes são casos mais óbvios, até para o próprio, em que as coisas não estão a correr bem. E geralmente são diagnosticados com mais facilidade e podem ser tratados mais depressa.

Mas infelizmente há mais tipos de depressão (o sistema de classificação de distúrbios mentais americano considera cinco tipos distintos). Uma que é de diagnóstico particularmente difícil — porque não apresenta os mesmos sintomas que a depressão melancólica — é a depressão atípica. «Atípica» não porque seja rara (é mais comum do que se possa pensar!) mas porque tem sintomas que não são «tipicamente» associados à depressão.

Vamos começar pelos sintomas mais frequentes. Uma pessoa com uma depressão atípica pode não andar triste o dia todo. Embora seja normal não gostar de ir a festas, se for, poderá ser o centro da atenções, pela sua aparente euforia e capacidade de entreter e divertir as outras pessoas; precisamente, pois, o contrário do que estaríamos a pensar que acontecesse com pessoas deprimidas. Na realidade, quem sofre de depressão atípica anda desesperadamente à procura desses pequenos episódios que lhe trazem alguma alegria e conforto, e, quando esses momentos lhe são negados, a sua situação piora ainda mais. Contraste-se isto com a depressão melancólica, em que nem estas situações mais agradáveis lhes proporcionam qualquer prazer.

A «tristeza profunda» pode não ser um dos sintomas da depressão atípica (ao contrário da melancólica). Quer isto dizer que uma pessoa deprimida pode não andar o tempo todo a chorar e a meter-se na cama sem fazer absolutamente nada. Pelo contrário, pode levantar-se todos os dias à mesma hora e fazer a sua rotina habitual, e externamente ninguém achará que está algo de errado com ela.

É normal uma pessoa deprimida estar frustrada, ou perder o interesse em muitas coisas, mas isto não quer dizer que todas as pessoas frustradas ou sem interesses estejam deprimidas. Aliás, na maioria dos casos, uma pessoa deprimida pode estar frustrada sem o saber, ou, mesmo que o saiba, não o dará a entender a ninguém, pelo que esse aspecto não será de todo visível. Em contraste, uma pessoa «meramente» frustrada normalmente vai dizer isso a toda a gente!

Um sinal da depressão melancólica é a noção de que cada vez é preciso mais esforço para fazer certas actividades. A pessoa em si, se não estiver diagnosticada, e não souber que se trata de uma depressão, vai provavelmente atribuir isto a outros factores: por exemplo, com a idade, é natural que as coisas sejam mais difíceis de fazer, e que se tenha menos energia para o fazer. A pessoa assume que se trata apenas de um sintoma de que está a envelhecer, mais nada. Queixar-se-á que, na juventude, tinha capacidade para «aguentar muito mais», mas não dará grande importância a isso.

Esta questão do «mais esforço» também pode levar anos a ser visível. Normalmente é um sinal claro de depressão quando as pessoas mais próximas de nós reparam que levamos eternidades a fazer as coisas mais simples — por exemplo, atar os atacadores, ir à casa de banho, ou vestirmo-nos. O próprio pode nem sequer se aperceber de que leva mais tempo a fazer as coisas. E quando se lhe aponta de que está a levar muito tempo a fazer uma certa tarefa, o próprio achará que está a levar precisamente o mesmo tempo que sempre levou. Ou seja: há uma desconexão entre o tempo interior — aquele que pensamos que está a passar — e o exterior — aquele que as pessoas externas a nós medem no relógio. Mas isto leva muito tempo até ser perceptível! Por exemplo, imaginem que para limpar a bancada da cozinha levamos normalmente 10 minutos. Se levarmos 11 ou 12, ninguém notará a diferença. Mas quando levamos 20 minutos a fazer isso, pode ser que reparem, e que diguem alguma coisa como: «bolas, mas hoje levaste eternidades a limpar a bancada!» quando, na nossa mente, fizémos tudo o que sempre fazemos, à mesma velocidade — e respondemos, talvez um pouco confusos, a dizer que levámos o mesmo tempo de sempre. Mas o relógio não mente!

Associado a isto está igualmente a forma como falamos. Pode-nos custar a exprimirmo-nos da forma como desejamos — isto quer dizer que, na nossa cabeça, sabemos o que queremos dizer, mas depois as palavras não saiem exactamente como queremos. Isto ainda por cima pode ser muito frustrante, porque temos a noção de que não estamos a explicarmo-nos muito bem, ou estamos a usar as palavras erradas. Mas até se chegar a este estágio pode levar muitos anos. Começamos a notar que algo de estranho se passa quando as pessoas mais próximas de nós estão constantemente a interpretar-nos mal (o que é causa de frustração para ambas as partes, e muitas vezes fonte de discussão). Leva bastantes anos até chegarmos ao ponto em que percebemos que na realidade o problema está em nós, que não nos estamos a exprimir bem. Mas mais uma vez, a esmagadora maioria das pessoas do nosso círculo de amigos jamais vai notar a diferença. E se algum dia reparar em alguma coisa, assumirá que estamos «cansados» e que por isso não nos estamos a exprimir muito bem.

O cansaço é igualmente outro sintoma pouco perceptível. Há alguns tipos de depressão que fazem com que as pessoas efectivamente durmam muito mais tempo (é o caso da depressão atípica), e que, mesmo assim, não se sintam refrescadas com o sono. Noutros casos passa-se o contrário: na depressão melancólica, o que predomina é a insónia. Mas isto não é forçoso que seja igual para todos. Por exemplo, no meu caso, até durmo consideravelmente menos tempo do que antes de estar deprimida; como levo muito mais tempo a fazer as minhas inúmeras tarefas diárias, resta-me menos tempo para dormir — e mesmo assim não consigo fazer tudo (mas é difícil cortar ainda mais nas horas de sono, menos de 5 horas por dia começa a não chegar…). Eu, por exemplo, ando sempre tão cansada que consigo dormir a qualquer hora, em qualquer situação — excepto se tiver bebido café ou chá preto! — e nem sequer tenho rotina alguma: tanto adormeço às 4 da tarde como às 6 da manhã, é-me indiferente a hora; desde que possa dormir, tudo bem, e normalmente o meu sono é mesmo muito profundo (embora tenha sempre pesadelos! — sempre foi assim desde criança, os únicos sonhos que tenho são sempre pesadelos). O certo é que uma pessoa deprimida sente-se frequentemente cansada, e isto independentemente de quanto é que efectivamente dormiu (ou seja, quer tenha insónias, quer durma mais do que o normal, tende a estar sempre cansada).

Há um sintoma que é frequente, e este pelo menos é reconhecido com mais facilidade: é a perda de interesse na maioria das coisas que fazemos (é este sintoma, por exemplo, que pode conduzir ao suicídio, quando chegamos à conclusão que nada, absolutamente nada, tem interesse para nós). Fazêmo-las porque as temos que fazer — porque nos são impostas — mas não temos qualquer interesse nelas. Também podemos perder o interesse nas pessoas. Isto é o que predomina na depressão melancólica: não temos interesse em absolutamente nada. Mas uma variante deste sintoma é mais difícil de reconhecer: que é a noção que o universo conspira contra nós para nos colocar pela frente uma sucessão de coisas e pessoas que não suportamos fazer ou aturar, mas que temos de suportar à mesma, na esperança ténue de termos alguns momentos em que possamos fazer coisas agradáveis. Uma pessoa deprimida desta forma (depressão atípica) tem uma vida que é uma sucessão de momentos constantemente desagradáveis, sempre ansiando por um dia poder fazer algo de agradável, mas nunca tendo oportunidade para o fazer. Isto, obviamente, agrava a depressão (especialmente quando é verdade, e não meramente ilusão da pessoa deprimida!). No meu caso, por exemplo, tenho interesse em milhões de coisas e centenas de pessoas. Mas infelizmente estou constantemente a ser privada da possibilidade de desenvolver os meus interesses e de estar com as pessoas de que gosto. Isso obviamente aprofunda a depressão.

Nos ensinamentos budistas, datando de há 2600 anos atrás, já se identificava isto como uma das causas de sofrimento: o sofrimento de ter se suportar situações e pessoas de que não gostamos, e o sofrimento de ter de estar afastado de situações e pessoas de que gostamos. O budismo não vê isto concretamente como uma causa universal de depressão, mas meramente como uma causa universal de sofrimento: todas as pessoas, deprimidas ou não, anseiam por estar em situações de que gostam e com pessoas de que gostam, e detestam (ou evitam) estar em situações desagradáveis com pessoas que desgostam. Qual é a solução dos budistas? Perceber de que a situação, em si, não é nem agradável nem desagradável — é a nossa mente que as classifica como tal. E o mesmo se passa com as pessoas: elas, por si só, não são nem agradáveis nem desagradáveis, é apenas a percepção que temos delas que nos faz classificá-las dessa forma.

Uma prova simples de que isto é verdade é que as situações não são uniformemente desagradáveis. Por exemplo, uma cena de pancadaria num estádio de futebol pode ser desagradável para muita gente, que quer é ver o jogo em paz, mas para os hooligans, é justamente a pancadaria que os atrai ao jogo. A tortura, o desconforto físico, a humilhação pública, a manipulação e o controlo por parte de terceiros, são, para a maioria das pessoas, situações a evitar, mas para alguém que tenha um fetiche BDSM, é justamente isto que lhes dá mais prazer. Da mesma forma, podemos considerar que Adolfo Hitler era a pessoa mais horrível do mundo, mas de certeza que não era assim que a mãe dele o via; da mesma forma, Hitler podia odiar os judeus, mas adorava animais e criancinhas. Enquanto que muitas pessoas podem ser perfeitamente indiferentes à religião e/ou etnia dos outros, mas não suportarem animais malcheirosos e criancinhas irritantes. Portanto, na realidade, esta situação não se resolve afastando das situações desagradáveis e andando à procura das agradáveis, mas sim compreendendo que é a nossa mente, e apenas a nossa mente, que as classifica como tal.

Mas fazer isto não é fácil. Se fosse, toda a gente o faria. Mesmo para um praticante budista conseguir fazê-lo, precisa de décadas de treino — também não basta sentar-se no chão, pronunciar «Om!» durante uns minutos, e puf, o mundo torna-se numa coisa maravilhosa. Não é assim como as coisas funcionam; como tudo na vida, requer muito esforço e muito treino.

Uma pessoa deprimida já está num ponto em que lhe é extremamente difícil fazer muito esforço, quanto mais para coisas tão complicadas como estas. Por isso, apesar de todos nós  nos sentirmos desconfortáveis em situações ou com pessoas que não gostamos, e ansiamos por situações agradáveis e em estarmos com pessoas de que gostamos, uma pessoa deprimida só vê situações e pessoas desagradáveis à sua volta, e o pouco que ainda lhe é agradável cada vez se torna mais difícil de obter, e só à custa de uma quantidade de esforço muito maior.

É certo que isto é agravado pelas circunstâncias externas. Mais uma vez, dou o meu exemplo. Tudo o que tenho a fazer durante a semana requer imenso esforço para mim; logo, são coisas que considero desagradáveis (se não precisasse de tanto esforço — como acontecia antes de estar deprimida — faria essas coisas todas com indiferença total). As pessoas «normais», contudo, pelo menos sabem que ao fim de semana (ou à noite) têm depois oportunidade para fazer coisas agradáveis, ou estarem com amigos e família de quem gostam, e isso equilibra a semana desagradável que tiveram. Mas no meu caso os fins de semana são ainda piores — ainda tenho de enfrentar situações mais desagradáveis que durante a semana, e estar com pessoas que são ainda mais desagradáveis que aquelas (poucas) que convivo no dia-a-dia, e ainda tenho menos tempo para descansar, pelo contrário: as actividades que tenho ao fim de semana ainda requerem mais esforço e tenho menos tempo para as fazer. Por isso quando chego à 2ª feira já estou completamente arrasada. Nem sequer tenho dinheiro para férias, e mesmo os dias em que tiro para ir passear com a minha mulher para a casa que o meu pai tem na Beira Alta, são dias em que não estou a fazer as coisas que são agradáveis para mim, mas apenas agradáveis para a minha mulher. As últimas férias que tive em que pude fazer algumas coisas agradáveis para mim durante algumas horas (não todas) foram cinco dias passados no Algarve em Março de 2013. A minha mulher odeia de tal forma o Algarve que ao final do primeiro dia ficou doente, e assim permaneceu durante todos os dias, no hotel a ver TV (que ela detesta ver, mas não tinha trazido o computador, ao contrário do que lhe sugeri…). Portanto, embora tenham sido os melhores cinco dias da minha vida na última década, nem sequer foram perfeitos porque tive de lidar com o péssimo humor da minha mulher doente num sítio que ela detestava… e obviamente que também sei que nunca mais na vida irei voltar a ter uns dias de férias assim.

Justamente esta ansiedade quase obsessiva de procurar estes momentos agradáveis — e que são, de facto, mesmo agradáveis quando experimentados! — enquanto que passamos a maior parte do tempo rodeados de situações e pessoas desagradáveis é um sintoma claro da depressão atípica. Já a depressão melancólica, mesmo que procure evidentemente momentos agradáveis, não sente qualquer prazer nestes, quando efectivamente ocorrem.

Mais um sintoma que é «estranho» tem a ver com a sensibilidade à rejeição nas relações interpessoais. Isto significa que uma pessoa lida mal com a rejeição e que tenta constantemente fazer um esforço para não ofender ninguém, para estar de bem com toda a gente, mas pode ir ao extremo de nem sequer pedir nada a ninguém e fazer tudo o que os outros nos mandam, sem protestarem, com medo de serem rejeitados ou humilhados. Mas isto pode exprimir-se com extrema irritação desmesurada — ou fazer com que a pessoa se afaste de todas as interacções sociais, excepto as com que está muito familiarizada, com medo de ser rejeitada. Ora embora isto seja uma doença por si só, é um dos sintomas da depressão atípica. E, infelizmente, devo dizer que se encaixa que nem uma luva no meu caso — ou melhor, eu não me afasto das interacções sociais por si só, mas é verdade que estou constantemente a ficar frustrada por não sentir estar à altura do que exigem de mim, apesar dos meus esforços permanentes em tentar agradar a todos. Isto é levado a um tal extremo que faço tudo o que me mandam fazer sem protestar e sem contrariar ninguém, o que leva a que abusem do meu tempo — estou constantemente a fazer coisas para toda a gente. A consequência, claro, é que não tenho tempo nenhum para mim, para os meus raros momentos agradáveis, e isto agrava-me consideravelmente a depressão.

Outro sintoma que ninguém associa à depressão são… dores nas pernas. Isso mesmo. A origem é completamente psicológica, e ocorre na depressão atípica (mas não na melancólica): não nenhuma razão fisiológica, nem neurológica, para as dores nas pernas. Mas a verdade é que mal se começa a andar fica-se logo com dores nas pernas. O meu pai, quando estava deprimido, a única coisa que se queixava era das dores nas pernas, e foi só depois de se eliminarem todas as alternativas é que o médico assumiu que só restava como causa possível a depressão; começou a ser tratado para a depressão e nunca mais se queixou das pernas. A minha mulher, também quando estava deprimida, queixava-se do mesmo; como ela sofre de fibromialgia (que é incurável), sempre se pensou que as dores das pernas estavam associadas à fibromialgia, mas agora sei que era mas é um sintoma de depressão. Depois de se curar da depressão, nunca mais teve dores nas pernas como dantes.

Por acaso, é o único sintoma que não tenho; talvez porque sempre adorei andar a pé, e é uma das coisas que sempre me deu imenso prazer fazer. Infelizmente, durante uns anos, por causa dos problemas na coluna, fui impedida de andar muito tempo a pé. Talvez isso também tenha sido um factor que tenha agravado a depressão. Hoje em dia, pelo menos enquanto a minha mulher está nas aulas, posso pelo menos fazer as minhas caminhadas de meia hora diárias. É pouco, mas é o que se consegue. O mais chato é nas alturas em que ela está de férias, pois assim não tenho oportunidade (ela detesta andar a pé, independentemente se lhe doerem as pernas ou não).

Portanto, uma das razões que tornam certas formas de depressão clínica (por oposição à depressão «convencional», ou seja, aquela que as pessoas pensam que é depressão porque «se sentem em baixo») difíceis de diagnosticar é porque os sintomas são completamente inesperados e parecem não ter nada a ver com a depressão convencional. Se alguém nos disser que leva mais tempo a fazer as coisas, tem dificuldades em exprimir-se, e lhe doem as pernas, nunca nos passaria pela cabeça dizer que essa pessoa está deprimida!

Nos compêndios médicos, a depressão clínica está dividida em três graus. A ligeira, por exemplo, permite que as pessoas continuem a desempenhar as suas funções sociais, e não é nada recomendável que sejam medicadas, mas devem ter apoio psicológico de um terapeuta especialista. Só nos casos moderados a graves é que a medicação faz algum sentido.

Mas aqui é importante ressalvar um ponto: a medicação, por si só, não «cura» a depressão. Só a medicação conjugada com a terapia psicológica surte algum efeito. Isto infelizmente é muito mal compreendido por uma geração de pessoas que olha para a medicina como dantes olhava para a bruxaria: uma forma «mágica» de resolver todos os problemas, desde que tomemos os comprimidos certos.

Antigamente, a depressão «curava-se» tomando uns copos (ou, em casos extremos, usando drogas mais duras — ópio, por exemplo). Ou seja, há uma certa propensão na nossa sociedade em acreditar que, para combater a tristeza e a infelicidade, a melhor forma de o fazer é arranjar uma droga que nos faça «sentir bem». Os anti-depressivos são apenas uma nova geração de drogas, socialmente aceitáveis, que nos fazem «sentir bem», sem os efeitos negativos da ressaca. Mas não deixam de ser drogas viciantes. E o problema é que as pessoas que não compreendem como esses medicamentos devem ser usados — sempre acompanhados de terapia conduzida com um profissional! — estão apenas a tornar-se toxicodependentes, talvez com a vantagem de que nem todos os medicamentos anti-depressivos tenham efeitos tão negativos para a saúde como as restantes drogas. Mas têm alguns…

Hoje em dia, sabe-se que a depressão tem diversas origens, algumas biológicas, outras ambientais, algumas sociais, e muitas que são psicológicas. Por isso, o tratamento tem de as envolver a todas. A medicação ajuda as questões biológicas, mas para as restantes é mesmo necessário a terapia. Por outro lado, a terapia, por si só, pode não ser suficiente: é muito difícil a quem tenha uma depressão melancólica, por exemplo, reconhecer que a terapia seja algo que a vá ajudar (será apenas mais uma coisa desagradável a suportar), pelo que é preciso que os anti-depressivos surtam algum efeito antes de se começar a terapia. No caso das depressões atípicas, o caso pode ser ainda pior. Porque é normal gostarmos de actividades agradáveis, e não gostarmos de coisas desagradáveis, uma pessoa com uma depressão atípica pode recusar a medicação (ou a terapia), por achar que não precisa desta para nada. O que precisa, isso sim, é de ter mais liberdade para gozar coisas agradáveis! Infelizmente, enquanto continuar a pensar desta maneira, dificilmente se poderá curar; é preciso justamente a terapia psicológica para ajudá-la a mudar a forma de pensar, e a medicação para a colocar num estado em que a terapia possa surtir algum efeito.

Muitas formas de depressão estão associadas a outros factores, e daí ser difícil distingui-las (ou tratar a depressão sem ter em conta esses factores). Por exemplo, eu não sabia que era normal a depressão estar associada a problemas cardio-vasculares. A minha mãe, que nunca teve nenhum problema cardíaco na vida, morreu no Verão de 2013 justamente de um ataque cardíaco, que tenho a certeza absoluta que foi causado pela depressão que enfrentava por ter de lidar com a demência do meu pai. O contrário também é verdade: o meu pai, por sua vez, que tem um longo historial de complicações cardio-vasculares, actualmente também sofre de depressão (também agravado por ter perdido a minha mãe). O problema nestes casos é que costuma haver uma situação de dupla negação — a pessoa em si recusa-se a aceitar ou que está deprimida, ou que tem problemas cardio-vasculares, e, consequentemente, recusa-se a tratar-se (isto obviamente que é mais verdade nas pessoas com uma certa idade).

E depois há as questões externas — o stress e os episódios traumáticos que têm potencial de despoletar ou agravar uma depressão. Aqui o trabalho dos terapeutas consiste em avaliar estas circunstâncias todas e ver como é que se consegue fazer com que o paciente consiga lidar com elas.

Ora eu obviamente não sou psicóloga, nem médica, e, por razões óbvias, tenho imensa dificuldade em auto-analisar-me correctamente. Mas sou naturalmente introspectiva, tenho algum treino (mas pouca prática) em técnicas budistas de análise da mente, e, acima de tudo, também sei ler 🙂 (ou melhor, sei pesquisar informação). Há décadas que leio sobre as questões de identidade de género, e, entre muitas coisas, sei também que a depressão e a ansiedade são comuns nas pessoas transexuais, e nalguns casos de crossdressers.

Li justamente há alguns anos um artigo interessantíssimo sobre o assunto, de uma pessoa em transição, que tinha, no entanto, uns conselhos curiosos a dar à comunidade. Explicava ela, e muito bem, que muitas vezes até os especialistas em identidade de género cometiam o erro fatal de achar que todas as pessoas que apresentavam depressão e a associavam à identidade de género poderiam resolver os seus problemas com a transição. Depois surpreendiam-se muito quando a pessoa em questão passava pela transição — normalmente com muito entusiasmo, ansiando por começarem uma vida nova na identidade de género com que se identificavam — mas continuavam deprimidas.

Explicava esse artigo que o problema, neste caso, é que existem uma série de situações clínicas que podem despoletar uma crise de identidade de género, mas que a transição não era uma solução para todas. E, inversamente, para certas pessoas para as quais a transição não é uma possibilidade (seja por questões médicas, seja por questões sociais), era possível tratar sintomas como a depressão, o que resolvia a maior parte dos problemas. Portanto, quando uma pessoa apresenta simultaneamente depressão e problemas de identidade de género, o melhor é aconselhar-se com um especialista que esteja apto a tratar de ambas as coisas.

Vou dar um exemplo típico. Conheço bastante gente que é crossdresser, e que, tal como eu, sofre de uma depressão atípica não diagnosticada, em que apenas o crossdressing lhes dá algum prazer, e que nada mais lhes interessa. No entanto, a transição não é uma opção. Curar a depressão é que é fundamental. Por isso consultam um psicólogo ou psiquiatra ocultando-lhes o crossdressing — por vergonha, por não quererem que a família saiba, etc. Ora isso dificulta o diagnóstico. Se uma pessoa não quiser dizer ao terapeuta que apenas o crossdressing lhes trás prazer, este poderá assumir que nada lhes dá prazer, e assim poderá erradamente diagnosticar uma depressão melancólica e não uma depressão atípica. Em termos de medicação, nem existe muita diferença (acho eu!), mas em termos de terapia cognitiva-comportamental, há toda a diferença! Resultado: a pessoa em questão pode não conseguir tratar-se adequadamente da depressão, pois está a ser tratada para o tipo da depressão errada.

Até muito recentemente, confesso que não falei disto a ninguém. Há pouco mais de um ano, sugeri à minha mulher que se calhar era melhor tratar-me com um especialista. Ela explodiu, furibunda, dizendo que eu não tinha nada que estar a ir falar com um tipo que só me ia tentar mudar de sexo, quando eu era apenas uma crossdresser, e que devia esquecer essas palermices todas. Por isso lá aguentei, em silêncio, durante mais um ano. Foi só quando a minha mulher começou realmente a notar alguns dos sintomas — a dificuldade em exprimir-me, a dificuldade em fazer as coisas à mesma velocidade que dantes, mas, mais importante que isso tudo, a incapacidade completa de fazer o meu trabalho profissional (procrastinação) — que achou que se calhar era melhor mesmo consultar um psicólogo.

Mas aí fui mais dura. Não me interessa absolutamente nada estar a esconder toda a minha questão da identidade de género a uma psicóloga, para depois ter um tratamento inadequado. Interessa-me, isso sim, contar tudo a um especialista que perceba do assunto, para que este tenha uma visão global do meu problema, e que saiba como intervir no meu caso. E expliquei igualmente que a transição não é uma solução para todos os casos; pelo contrário, nos casos em que a transição não é uma opção, como no meu, há outras soluções, que até podem ser mais apropriadas, mas para isso tenho de consultar um especialista que as conheça!

Vou dar um exemplo claro do meu caso. Não tendo ainda um diagnóstico, a minha percepção do universo é a seguinte: a minha vida é uma sucessão de tarefas desagradáveis para agradar a outras pessoas. Os únicos momentos em que me sinto bem comigo própria, e que estou bem disposta, são aqueles em que me posso vestir de acordo com o género com que me identifico. Todos os restantes momentos são apenas de frustração por não o fazer — até dormir, que é muitas vezes o motivo por perder tanto tempo de estar tão exausta, que depois, quando acordo, já não há tempo para me arranjar…

Logo, da minha perspectiva, o que penso é que sofro de uma depressão atípica, mas se pudesse fazer a transição para o género feminino, estaria todo o tempo vestida da forma como me identifico. Logo, todos os momentos seriam agradáveis. E assim a depressão desaparecia imediatamente!

No entanto, esta minha percepção provavelmente está completamente errada. Em vez disso, o que é possível que esteja a acontecer é que associei, há décadas atrás — muitas décadas mesmo — o crossdressing a uma forma de lidar com o stress. Podia ter sido outra coisa qualquer, mas calhou ser o crossdressing. À medida que o tempo foi passando, uma sucessão de episódios traumáticos na minha vida, cuja intensidade tem vindo a aumentar, faz com que veja, cada vez mais, como única alternativa, o crossdressing como única coisa que me restabelece os níveis de serotonina, proporcionando-me algum alívio. Ora neste caso, o que o terapeuta fará é artificialmente aumentar os níveis de serotonina, mas também ensinar-me técnicas para que veja que há outras formas de o fazer naturalmente, que não passem pelo crossdressing, e que o crossdressing, por si só, não é a única solução (ou talvez nem sequer seja uma solução definitiva). Não quer isto bem dizer que possa ser «curada» do crossdressing — isso é impossível! — mas poderei ser «curada» da depressão atípica que sobrevaloriza o crossdressing como a única experiência agradável na vida. Será, após a cura da depressão, apenas mais uma forma.

Mas para saber diagnosticar isto correctamente e saber como orientar a terapia, é obviamente preciso consultar um especialista que tenha experiência nestas situações e que saiba o que fazer.

Basta ver que a minha «solução» pode ser completamente errada, porque, evidentemente, não há garantia nenhuma que ser sempre uma mulher acabe com a depressão de um dia para o outro. Pelo contrário: vai-me expôr a muito mais situações desagradáveis que dantes (ex. discriminação, incapacidade de ter um emprego, rejeição por parte da família e amigos, montes de problemas novos de saúde que neste momento não tenho, etc.). Ora nessa situação, como a depressão ainda não estará «curada», a questão vai ser qual vai ser o «escape» que terei — o que será uma «situação agradável» que me proporcione satisfação e alívio! Posso justamente constatar que não vão haver mais situações agradáveis apesar de ser uma mulher e isso justamente «atirar-me» para uma depressão terminal.

Daí ser tão importante ter um especialista que saiba lidar com o meu caso!

Nas últimas semanas, por descuido meu — às vezes é difícil controlar-me! — acabei por admitir, junto de um familiar mais «falador», que estava com uma depressão, ainda por diagnosticar. Imediatamente a «novidade» espalhou-se por um grande número de pessoas. E nos dias que se seguiram, toda a gente começou a enviar-me «mezinhas caseiras» para lidar com a depressão, tipo caixas de magnésio para tomar. O meu sogro, por exemplo, cheio da sua arrogância habitual, chegou mesmo a telefonar-me a dizer para não ir a psicólogo nenhum, que só me ia encher com drogas que não serviam de nada, e que o melhor mesmo era tomar X, que ele tinha aconselhado a um amigo «que se sentia em baixo», e que depois lhe veio pessoalmente a agradecer a sugestão… Sem falar nos casos de pessoas dispostas a darem-me o contacto do seu psicólogo favorito, claro está.

Como não me revelei a mais ninguém no meu círculo de amigos e familiares, para além da minha mulher, a única coisa que digo sempre a toda a gente é que o meu caso não é uma questão «de me sentir em baixo», mas sim algo de muito antigo, agravado devido a uma série de situações traumáticas ocorridas nos últimos tempos, e que tem uma causa complicada de resolver, que só pode ser tratada por um especialista no assunto, pelo que agradecia a «ajuda», mas que só ia tomar medicação por ordem do médico. E tenho sempre uma desculpa boa para isso, que é o facto de ser hipertensa e estar a ser medicada para isso, e que não sei quais as interacções químicas com o medicamento X ou Y. A minha própria mulher ficou desapontada por eu não estar a tomar magnésio, que «ajuda» com a depressão, mas eu disse-lhe que li a bula, e que era desaconselhado a quem sofria de hipertensão. Ou melhor, pode-se tomar, mas tem de ser o médico a dizer qual a dosagem que é segura para mim. Eu não ia fazer experiências químicas com o meu organismo!

Em conclusão, apesar de eu não estar apta a dar quaisquer conselhos médicos, porque não sou uma especialista na área, considero-me uma pessoa informada, ou que pelo menos tem a capacidade de se informar. Seja em relação à gripe, seja à depressão, associada ou não às perturbações de identidade de género, infelizmente existe por aí demasiada «desinformação» sobre o assunto. Uma breve consulta ao site da Clínica Mayo ou mesmo à Wikipedia pode esclarecer mais correctamente os principais aspectos destas doenças, e ajudar a distinguir a verdade factual dos boatos, rumores, e desinformação generalizada que é espalhada comummente entre o nosso círculo de amigos. E obviamente que o meu conselho, em todos estes casos, é consultar sempre um especialista na matéria. Por muito bem intencionadas que sejam as pessoas, ou porque querem evitar que gastemos dinheiro com um médico, a verdade é que só este é que saberá correctamente diagnosticar o que temos e desenvolver um método de cura que seja realmente eficaz. Infelizmente, estou rodeada de pessoas que têm uma atitude mágica para a vida — estão sempre à espera que exista alguma terapia alternativa (meditar com cristais, rezar a anjos…) ou mesmo uma «pílula mágica» que nos resolva os problemas todos de um dia para o outro. Também o inverso é verdade: há quem ache que mais vale esperar que tudo passe, e que não vale a pena fazer nada! Isso pode ser a atitude correcta para o resfriado ou para a constipação (que passam por si só), mas não é o caso da depressão clínica…

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