A «desculpa conveniente»


Quem me conhece há uns anos, sabe que faz agora uma década desde que me «revelei» à minha mulher, e, que em consequência disso, posso vestir-me em casa. Mas também sabe que ando sempre a resmungar por nunca poder fazer o que quero, quando quero, e onde quero, e que uso sempre o «pretexto» da minha mulher não me deixar fazer nada sempre que me convidam para uma festa, encontro, ou jantarada.

Talvez seja bom, pois, explicar um pouco estes desabafos.

A maioria das crossdressers que sejam casadas nunca contam às respectivas esposas que são, de facto, crossdressers. Há imensas razões para não o fazerem, mas a verdade é que, como tenho vindo a escrever, não existe apenas um tipo único de crossdressers, e tipos diferentes de crossdressers têm razões bem diferentes por não se «revelarem» às respectivas esposas.

Embora provavelmente não seja o caso da maioria das crossdressers que estejam, por acaso, a ler estas linhas, a verdade é que, segundo uns estudos (ainda por publicar) feitos em Portugal, a esmagadora maioria das crossdressers portuguesas (cerca de 90%) fazem-no para potenciar a sua actividade sexual. Quem estiver a ler estas linhas, se discordar profundamente, significa que, tal como eu, faz parte dos restantes 10%.

Não tenho estatísticas sobre quantas crossdressers o fazem com a intenção explícita de obter um parceiro sexual (que não a esposa ou companheira habitual), por oposição, por exemplo, a o mero fetichismo associado à roupa feminina. Sei que são bastantes as que procuram um parceiro— pelo menos entre as que têm a intenção, mesmo que esta nunca tenha sido concretizada! — mas não posso dizer quantas serão. Talvez quando esse estudo for finalmente publicado tenhamos dados mais concretos. Até lá, apenas sei que são «muitas».

Ser-se crossdresser com o intuito de ter relações sexuais (mesmo que imaginadas e nunca concretizadas) com terceiros é algo que muito dificilmente será tolerado por uma companheira habitual. Estamos a falar de uma forma muito específica de adultério, e a esmagadora maioria das pessoas (e muito provavelmente a nossa companheira habitual será uma delas) não se sente confortável com o adultério, mesmo que meramente imaginado e potencial e nunca concretizado. Logo, em todos estes casos, tal como o adultério heterosexual e cisgénero, é natural que esse tipo de crossdressers nunca se «revele» às respectivas esposas, e que não tenha qualquer incentivo para o fazer. Será sempre uma actividade mantida em segredo.

Há, evidentemente, uma excepção. Um grupo bastante reduzido de mulheres pode ter secretamente a fantasia de sissification, ou seja, o desejo de dominar o parceiro masculino, forçando-o a vestir-se e a comportar-se como mulher. Um outro grupo de mulheres, igualmente reduzido, pode ser bi-curiosa, e, embora não considere jamais a hipótese de ter sexo com outra mulher (fora do casamento), pode achar satisfatória a experiência de ter sexo com um marido crossdresser. E, finalmente, pode haver mulheres liberais (ou mesmo voyeurs!) que não têm qualquer problema em que o marido tenha sexo com outra pessoa, mesmo que esteja vestido de mulher. Há mais algumas variantes, mas, em regra geral, são excepções, num número mesmo muito reduzido de pessoas. Assim sendo, é normal que, quem se encontre nesta situação, prefira não arriscar a «revelação», sabendo que as probabilidades jogam contra si.

Dentro das restantes 10% de crossdressers, que não têm uma intenção principal de potenciar a sua actividade sexual (embora manifestem que o acto de se vestirem de mulher seja erótico por si só!), não existe, à partida, nenhum «receio» de que possa haver adultério — pois não é esse o objectivo do crossdressing para essas pessoas! Assim, nestes casos, e dependendo da abertura de espírito da companheira habitual, é muito mais frequente que exista uma «revelação».

Podem então acontecer várias coisas. A situação mais frequente, curiosamente, é uma aceitação (tolerância) com ou sem grande entusiasmo. Para elas, é como se o marido se «revelasse» ser um fanático do Benfica e fosse agora perder algumas horas por semana a comprar cachecóis e bandeiras e ver TV com os amigos a emborcar cerveja. Podem não gostar desse comportamento, mas toleram-no, porque o consideram, em certa medida, inofensivo para a relação. Ou seja, lá porque um homem seja do Benfica, não quer dizer que goste menos da companheira, ou que pense abandoná-la e trocá-la por outra pessoa. O mesmo, curiosamente, se passa com a revelação do crossdressing: habituam-se à ideia de que o marido tem uns hábitos estranhos, mas não sentem que a relação seja «ameaçada» por isso.

Infelizmente existe o caso oposto, também muito frequente, que é a intolerância total. Geralmente parte da ignorância do que é o crossdressing, e da vergonha, para além da sensação de que, de certa forma, «falharam» como mulheres, já que o marido prefere vestir-se de mulher a passar esse tempo com uma mulher verdadeira, a companheira. Nalguns casos, no entanto, a companheira até pode saber muito sobre o assunto, e, em particular, pode saber que 90% das crossdressers tem interesse em actividade sexual com outras pessoas e que, para o efeito, se veste de mulher — mesmo que esse «interesse» nunca seja concretizado no acto em si. Ora isto significa que, apesar do marido crossdresser poder assegurar à companheira de que não faz parte desse grupo de crossdressers, as probabilidades jogam contra ele. A companheira poderá acreditar que ele faz parte do raro grupo de crossdressers que não procura um companheiro para o sexo fora do casamento, se tiver absoluta confiança nele. Mas a própria revelação em si mostra que houve uma quebra de confiança. Portanto, há uma fragilização da relação. Em muitos casos, a relação não sobrevive.

Há, evidentemente, um caso excepcional, também ele raríssimo. Uma companheira, sabendo que o marido se acabou de revelar como crossdresser, pode revelar, por sua vez, que sempre manifestou o desejo secreto, a fantasia, de ter um marido crossdresser. Escusado será dizer que estes raríssimos casos, quando acontecem, criam um estreitamento da relação e tornam-na muito mais duradoura! Há uma noção de uma partilha de um segredo do casal que faz com que os laços entre ambos sejam muito mais próximos, para além, claro, das vantagens acessórias — um marido crossdresser nunca irá protestar por a companheira ter «demasiada maquilhagem» ou «demasiados produtos de cosmética», ou excesso de roupas/sapatos, e, segundo alguns estudos americanos já antigos, tendem a desempenhar muito mais tarefas caseiras, são mais generosos e carinhosos, menos egoístas, etc. Seja como for, é importante saber que estes casos são muito raros.

Recapitulando: para 90% das crossdressers, as que têm intenção de potenciar a actividade sexual através do crossdressing, a probabilidade de terem uma companheira que se sinta excitada com a situação é muito baixa, e em quase todos estes casos, a revelação conduzirá ao fim da relação. Entre as restantes 10%, uma grande parte terá uma companheira compreensiva, tolerante, mas não entusiasmada; outra parte terá uma rejeição da situação e o fim da relação; e uma parte minúscula terá uma companheira entusiasmada com a situação e um estreitamento da relação.

No meu caso particular, como penso que seja já claro, faço parte dos 10% que não têm qualquer interesse em actividade sexual quando estou vestida de mulher. Na realidade, tenho uma líbido tão baixa que nem sequer quero actividade sexual quando estou vestida de homem! Na altura em que me revelei à minha mulher, não sabia sequer da existência das tais 90% de crossdressers. É que praticamente toda a informação que foi produzida pelo assunto tem origem quase exclusivamente no tal grupo das 10%. É um daqueles casos típicos em que uma minoria é de tal forma vocal que parece ser a maioria! Portanto, quando lia coisas sobre o assunto, e como me identificava completamente com este grupo, achava — correctamente! — que haveriam fortes probabilidades da relação não terminar. Mas não me iludia àcerca de ter «a sorte» da minha companheira ficar entusiasmada com a ideia. Pelo contrário, sabia que a probabilidade disso acontecer era baixíssima. Mas, de entre os tipos das tolerantes, estava morbidamente curiosa em saber em qual dos subtipos ela se encaixava.

Aqui também não há muitos estudos sobre o assunto, apenas histórias pontuais que são frequentes. O primeiro caso é o da «longe da vista, longe do coração», ou tolerância passiva. Neste caso, a mulher compreende e aceita a necessidade do marido de se vestir ocasionalmente de mulher, mas quer que o faça longe da vista dela. Pode estar apenas autorizado a fazê-lo quando ela (e as crianças, se as houver) não estejam em casa. Ou pode exigir que o faça apenas fora de casa. Em certa medida, existe um desejo de negação dessa existência do marido enquanto crossdresser, mas, como a existência não pode ser negada, ao menos que seja feita fora de vista.

O segundo caso é provavelmente o mais frequente, que é o da tolerância indiferente. Quer isto dizer que a mulher não estabelece a relação com o marido no seu aspecto físico e na roupa que veste, mas sim em qualidades que tem que vão para além do exterior. Este tipo de relações é normalmente muito próxima, muito íntima, e duradoura (pois, à medida que ambos envelhecem, como a relação não assenta em qualidades físicas externas, mesmo que estas mudem com a idade, a base da relação não é afectada). Mas o que é frequente nestes casos é que a mulher não se sinta entusiasmada com a ideia — tal como pode não achar piada ao marido fã de futebol que passa horas a ver os jogos na TV — mas não a considera que afecte, de alguma forma, a relação. Nestes casos pode haver regras impostas quanto ao crossdressing em casa: só a uns certos dias, só a certas horas, etc. Haverá decerto muitas regras quanto ao dinheiro gasto na actividade. E, dependendo do tipo de pessoa, o crossdressing pode estar limitado à casa, longe da vista dos vizinhos (e dos filhos, a não ser que estes sejam adultos), e sempre sem mais ninguém presente para além do casal.

O terceiro caso é o da tolerância activa. Aqui, relembremos, não há um entusiasmo por parte da mulher com a situação. No entanto, como há uma compreensão, isto significa que, em nome da amizade que une os dois, a mulher poderá, na medida do possível, ajudar o marido com o crossdressing — por exemplo, sugerir-lhe roupas, ajudar com a maquilhagem, com a escolha de uma cabeleira que lhe fique bem, etc. A «ajuda» pode ir mais longe e envolver saídas em conjunto. Mesmo que a situação seja desconfortável para este tipo de mulheres, não é invulgar que «façam um esforço» porque compreendem a necessidade que o marido tem em fazer crossdressing. Em troca este aceitará de bom grado todas as limitações que lhe forem impostas.

Como disse, não sei qual a percentagem para cada um dos casos, mas, baseando-me nos casos que li, parecem ser mais vulgares os casos de tolerância indiferente e activa, e há uma boa razão para isso: no caso da tolerância passiva, a mulher «perde o controlo» sobre a actividade do marido. Sabe que ele está vestido de mulher, mas não sabe o que está a fazer, ou com quem está. Isso causa-lhe insegurança. Terá de optar por manter o espírito de negação, mas sofrer com a ausência de conhecimento do que realmente se passa, e saber lidar com isso; ou então tem de «evoluir» para a situação de tolerância indiferente, e isso pode ser um passo grande demais para dar.

Seja qual for o caso, sempre que estamos a falar de tolerância, isto implica um conjunto de regras a que ambas as partes se sujeitam voluntariamente, a bem da relação. Na maior parte dos casos, é o marido que se vai sujeitar a mais regras; há, pois, uma assimetria na relação, mas que é normalmente livremente aceite.

Ora tudo isto estaria muito bem à partida, mas o que é raramente referido nestes textos e artigos que li é que, como tudo na vida, as situações evoluem.

E podem evoluir de muitas formas, e isso significa uma capacidade de adaptação muito grande.

Em primeiro lugar, este grupo das 10% de crossdressers está perigosamente (do ponto de vista da mulher!) perto de uma situação de trangenderidade, mesmo que não seja assumida. Normalmente a própria crossdresser pode até afastar essa «classificação» por não estar minimamente interessada em efectivamente mudar de género. Mas a mudança de género é apenas uma faceta no vasto espectro de pessoas transgénero. Existe também o caso da fluidez de género, por exemplo, em que certo indivíduo não se identifica com nenhum género específico, mas gosta de assumir qualquer um dos dois, consoante o seu estado de espírito. E existe o oposto, que são indivíduos que rejeitam a existência de géneros binários, preferindo apenas a individualidade de adoptar um comportamento que não é nem de um género, nem do outro, mas eventualmente uma mistura de ambos.

Nos casos mais estudados, é frequente serem analisadas crossdressers que quebraram a sua relação e que exploram a sua transgenderidade, pelo que se torna provavelmente mais satisfatório, do ponto de vista estritamente académico, reportar a sua evolução. Os casos em que a relação se mantem estável tendem a não mostrar tanta evolução e a ser menos estudados. Isto não é universal, claro, é apenas uma tendência. Mas infelizmente significa que a evolução da condição transgénero de um indivíduo numa relação estável é relativamente menos conhecida e menos estudada.

Regra geral, diria que a estabilidade dessa relação assenta essencialmente num conjunto de regras que ambas as partes reconhecem como linhas orientadoras. Enquanto as regras se mantiverem, a relação vai manter-se estável. Mas isto pressupõe que não haja evolução da exploração da transgenderidade, ou, se houver evolução, que esta seja confinada aos limites impostos por essas regras.

Em alguns casos que conheço — e que não foram estudados cientificamente! — são justamente as regras que são o foco do conflito, no sentido em que uma evolução da condição do marido crossdresser «força» a uma mudança de regras, e a uma capacidade de adaptação, por ambas as partes, às novas regras. Por vezes há limites nessa capacidade de adaptação, e então a relação pode resvalar para a instabilidade ou ruptura.

Gosto de dar o seguinte exemplo, ocorrido comigo. Há uns anos atrás, uma senhora americana encontrou este meu blog e leu que a minha mulher me tinha estabelecido um conjunto de regras para aceitar a minha necessidade de crossdressing, mas que ela não era abertamente encorajadora desta minha actividade. Esta senhora contou-me então que o marido, com o qual estava casado há algumas décadas, andava progressivamente mais deprimido. Finalmente decidiu revelar-se como crossdresser, explicando, a chorar, que a incapacidade de poder abertamente exprimir-se como mulher lhe estava a causar a depressão, mas que não tinha dito nada porque achava que não seria compreendido, e que iria causar imenso sofrimento à mulher. Esta, no entanto, foi tolerante para com a situação, embora evidentemente não gostasse da situação. Mas decidiu aceitar que o marido era crossdresser e que precisava ocasionalmente de se vestir de mulher. Contou então como o começou a ajudar a vestir-se, a maquilhar-se, etc. Nas trocas de emails que tínhamos a início riamo-nos muito sobre o tipo de indumentária que ele escolhia a início, e como, ao longo das semanas, ele aprendeu a vestir-se de forma mais adequada ao tipo de figura que tinha. Esta troca de impressões decorreu ao longo de uns meses, em que a senhora perguntava-me que tipo de regras é que a minha mulher me tinha imposto, como é que eu lidava com estas, o que fazíamos em conjunto quando eu estava vestida de mulher (muito pouco, no nosso caso), e assim por diante.

Depois, um dia, mandou-me um mail mais apreensivo, explicando que o marido queria desesperadamente ir a uma festa de crossdressers, sabendo, no entanto, que as «regras» que lhe tinham sido impostas não permitiam sair de casa, e que se sentia muito frustrado com isso. A mulher teve pena dele e não só o autorizou a sair, como o acompanhou. Ele estava eufórico! Era isso mesmo que pretendia! Como é frequente entre as crossdressers, ansiamos sempre por que a nossa mulher e companheira seja uma tolerante activa e não indiferente ou passiva; este «acompanhamento» por parte da mulher significava que ele sentia que ela estava a partilhar também a sua condição de crossdresser, dando-lhe todo o acompanhamento e reforço da auto-estima que precisava. Aparentemente, essa primeira festa foi muito divertida, e mesmo a senhora estava satisfeita com o resultado.

Mas depois as coisas começaram a complicar-se mais. O marido passou a querer ir a mais e mais festas. Dizia ele que revia nestas festas a juventude perdida, onde tinha sempre evitado esse tipo de coisas, e estava a tentar «recuperar o tempo perdido». A mulher, em compensação, já começava a fartar-se das festas, mas continuou a deixar que ele saísse, sozinho, com a regularidade que quisesse. Infelizmente, começou a ser habitual chegar a casa bêbado, e a mulher escrevia-me com alguma apreensão, mas eu não tinha muito como a ajudar — expliquei-lhe que, no meu caso, a minha mulher deixava-me sair de casa, mas não me deixava ir a festas, pelo que não sabia muito bem o que lhe recomendar. Ela claramente estava dividida entre deixar que a situação continuasse ou voltar a ver o marido infeliz.

E daí em diante as coisas só se complicaram mais e mais. Agora parecia ser claro que, para além da bebida, também havia actividade sexual nessas festas. Não era por uma questão de ciúme, ou de se sentir «enganada» que a senhora se preocupava, mas que com tanta bebedeira, o marido se esquecesse de se proteger devidamente. Via então que este tinha sido tão reprimido na sua adolescência, e depois auto-reprimido durante a vida adulta, que estava num estado de euforia com a redescoberta, na meia-idade, de certos prazeres que sempre lhe tinham sido vedados. Mas o que a mais preocupou foi o início das alterações da personalidade, começando a manifestar um certo desprezo pela própria mulher, que considerava «castradora» na sua evolução enquanto pessoa transgénero, e passou a envolver-se cada vez mais com as pessoas mais estranhas (independentemente do seu género). A dada altura penso que lhe disse que estava já a tomar hormonas — obtidas através da «comunidade», bem entendido — e que era esse o seu caminho, e que ela tinha que aceitá-lo assim como era, ou acabar com a relação.

Depois disso nunca mais recebi nenhum email desta senhora, apesar de lhe ter perguntado algumas vezes, com preocupação, como é que ela estava, e o que tinha acontecido ao marido. Não sei o que aconteceu depois. Presumo que a relação tenha terminado, mas é apenas especulação minha, baseada nos últimos emails que recebi.

Será este caso típico ou atípico? Sem um estudo científico sério, é impossível de saber. Tudo o que posso dizer é que houve evidentemente uma evolução no caso do marido, e um constante «empurrar» das regras para que se tornassem menos e menos rígidas, mas, neste caso concreto, a euforia provocada pela ausência de regras, a meu ver — e não estou a falar de julgamentos morais! — não conduziu a um bom resultado. Mas seria este um caso extremo?

Não quero com isto dizer que as regras não se devam mudar! Uma conhecida minha, que se revelou à mulher como crossdresser há muitos anos, tem tido uma evolução muito mais positiva. Começou por fazer crossdressing em situações muito restritas e controladas. Mas, aos poucos, começou por alargar o âmbito do seu crossdressing e de uma certa transformação — feminização, se assim se quiser ver — para a esfera mais pública, sempre com o consentimento e encorajamento da mulher. Da última vez que soube dela, para além de ter completado o processo de remoção de todos os pelos a laser, e ter deixado crescer o cabelo com um corte bem feminino (mas que, no dia-a-dia, usa apanhado num elástico, para não se notar muito), pintava as unhas de cores discretas e não se importava de aparecer nas festas de Natal num sweater cor de rosa, com unhas pintadas, de brincos nas orelhas furadas, e de cabelo comprido preso. Perguntei-lhe se as pessoas não achavam estranho, e ela dizia, com a maior das naturalidades, que sim, que estranhavam a início, mas que depois acabavam por se habituar à sua nova imagem. Não sei se ela tenciona ou não seguir a transição. Mas o certo é que não tem qualquer problema em feminizar cada vez mais a sua imagem e apresentar-se assim em público ao lado da mulher. Neste caso, não existiu uma situação levada ao extremo como no caso anterior, e o processo levou anos (e não semanas), e, que eu saiba, ainda não terminou (mas também não sei como irá terminar!). Trata-se de um caso em que as regras têm sido suavemente mudadas ao longo de períodos muito longos, dando a todas as partes tempo suficiente para se adaptarem à nova situação.

Num terceiro caso, que acompanhei irregularmente, o casal já é de meia idade com filhos adultos, alguns dos quais ainda a residir em casa dos pais. Quando se deu a revelação, a mulher estabeleceu como regra única de que não houvesse crossdressing em frente aos filhos. Como na altura o marido arrendava um escritório, perto de casa, e passava aí o tempo de trabalho sozinho, a mulher autorizou que fizesse crossdressing no tal escritório, onde não havia risco dos filhos poderem assistir. Por vezes, quando os filhos não estavam em casa (por exemplo, gozando as férias ou visitando amigos), o marido fazia crossdressing em casa, muitas vezes ajudado pela mulher que lhe escolhia a roupa, e, ocasionalmente, saia para ir a festas ou jantares da comunidade crossdresser na zona de Lisboa. Faziam igualmente muitas idas em conjunto aos centros comerciais para a mulher ajudar o marido a escolher roupa nova, e, segundo julgo, por vezes esta acompanhava o marido aos jantares de crossdressers. Havia, pois, um cenário de tolerância activa. Passaram-se uns anos, veio a crise, o marido teve de se desfazer do escritório, e os filhos passaram a estar muito mais tempo em casa, pelo que não houve mais oportunidades de crossdressing, nem sequer dinheiro para adquirir mais roupa, maquilhagem, etc. Da última vez que trocámos impressões, a evolução do crossdressing, que parecia seguir um padrão «clássico», esmoreceu e parou, dados os novos constrangimentos. Mas esta mudança de hábitos de crossdressing não pareceu ser causa de grande apreensão. Simplesmente, o casal reconheceu que a situação tinha mudado, e, até as condições financeiras melhorarem, aceitaram de mútuo acordo em diminuir a intensidade das actividades.

Estes casos ilustram um pouco o meu ponto de vista. Uma relação a dois, se for baseada no princípio de mútuo respeito, e desejo genuino que ambas as partes sejam felizes, vai assentar numa série de regras. O factor «crossdressing» vai apenas acrescentar um conjunto de novas regras para a vida familiar. À medida que as situações mudam, seja por que razões for, é natural o casal redifinir as regras. Estas normalmente não são arbitrárias, mas baseiam-se em «zonas de conforto»: o marido crossdresser irá normalmente procurar respeitar as regras que tornem a situação agradável para a mulher, dentro da sua «zona de conforto».

No meu caso, é precisamente isto que acontece. Levei sete anos até me revelar à minha mulher; e mais sete anos até que ela me deixasse sair de casa, se bem que não me deixe ir a festas e jantares de crossdressers (ou a qualquer outro sítio). Talvez daqui por mais uns anos me deixe fazer isso também. No entanto, o processo é muito lento, essencialmente porque a minha mulher, para além de três doenças crónicas, também sofre de ansiedade, que pode levá-la a ataques de pânico (semelhantes aos ataques cardíacos, e que até podem ser fatais).

Quando a minha mulher me impõe regras, não é apenas por uma questão de manipulação egoista. É verdade que ela preferia que eu não fosse crossdresser, tal como eu preferia que ela não sofresse de três doenças crónicas e que não estivesse sujeita a ataques de pânico. Mas somos como somos, e, se não podemos mudar as nossas condições físicas e psíquicas, pelo menos podemos fazer um esforço para minorar o sofrimento associado a estas. Por exemplo, porque as doenças crónicas da minha mulher a limitam em termos de esforços físicos, convencionou-se que eu tratava de toda a lida da casa (à excepção da cozinha, pois nunca consegui aprender a cozinhar; e da limpeza da casinha dos gatos, que foi a «minha» regra). Mas porque o meu crossdressing em público lhe causa extrema ansiedade — ela vive em pânico que eu leve uma dose de pancada por parte de grupos transfóbicos, para além de ter medo que os vizinhos me vejam — também aceitei não me expôr demasiado, quando ela finalmente me autorizou a sair de casa.

Agora isto não quer dizer que eu não queira também «violar» as regras, e ir para além delas, por isso estou constantemente a dizer-lhe o quanto adoraria ir a uma festa ou jantar com as minhas amigas crossdressers. Ela diz sempre que não. Apesar de estar tecnicamente «curada» da ansiedade, segundo a sua psicóloga e psiquiatra, isto não quer dizer que esta tenha desaparecido de todo, quer apenas dizer que, em geral, se sente menos ansiosa do que dantes: o suficiente para não ficar excessivamente preocupada quando saio para ir passear de carro às 4 ou 5 da manhã, voltando a casa uma hora depois, mas ainda não é o suficiente para me deixar sair mais cedo (excepto na Primavera de 2013, altura em que estivémos uns dias no Algarve, sítio onde não há risco de encontrar vizinhos, e que, por isso mesmo, podia sair muito mais cedo do hotel, e ficar também mais tempo fora) de forma a que me possa juntar a alguma jantarada ou festa.

Por vezes, há dias em que ela quase que me deixa sair com as minhas amigas, e dá-me a entender que talvez isso possa ocorrer «da próxima vez». Mas depois no dia em questão diz que não. E depois segue-se normalmente um «interrogatório» sobre as razões que verdadeiramente me levam a ir a esse tipo de actividades, em que ela procura demonstrar como todas essas situações são inúteis e fúteis.

É preciso também explicar, neste contexto, que nós somos ambas um pouco aversas a sair de casa para festarolas, e que temos pouca actividade social. Dantes não éramos assim; ela, quando era adolescente e jovem adulta, passava 4 a 5 noites por semana na borga com os amigos. Eu era muito mais recatada, mas, mesmo assim, durante décadas tinha vários grupos distintos de amigos que estava sempre a visitar regularmente. Com o tempo, no entanto, fui «descartando» praticamente todos os amigos, mais ou menos também a pedido da minha mulher, ficando apenas com uns poucos que são amigos comuns. Ela, por sua vez, naturalmente abandonou toda a gente com quem se dava. As suas melhores amigas, com as quais estava, no início da nossa relação, uma ou duas vezes por semana, agora só as vê uma vez por ano, e por vezes nem isso. Isto também quer dizer que cada vez vê menos necessidade das pessoas estarem com os amigos, seja quais forem. As pessoas mudam!

Ora é normal eu no Facebook «queixar-me» de que a minha mulher me proibiu de fazer X ou Y, e de me lamentar imenso com a situação. No momento em que desabafo desta forma, é verdade que estou a colocar todas as culpas nela. Mas nunca explico que foi justamente há uma década atrás que estabeleci com ela um certo conjunto de regras, e fi-lo voluntariamente, a bem da nossa relação. Uma dessas regras era justamente que iria aos limites do crossdressing que ela me impusesse, e não ultrapassaria esses limites.

Poderá dizer-se que essa foi uma regra aceite «em desespero de causa», e, de facto, assim o foi. No entanto, eu levo todos estes compromissos a sério. Posso ficar muito frustrada, magoada, furiosa, ou mesmo deprimida por a minha mulher me dizer tantas vezes NÃO, mas a verdade é que eu também escolhi aceitar esse conjunto de regras.

Muitas das minhas amigas crossdressers costumam dizer que eu deixo que me imponham demasiadas regras, que a minha mulher não está verdadeiramente interessada na minha felicidade, mas apenas quer evitar que eu me divirta, quer manter o controlo, joga com a chantagem emocional, sente alguma falta de confiança (porque nalguns casos eu preocupo-me mais com a minha aparência física enquanto mulher do que ela), etc. Mas é importante perceber o reverso da medalha!

Quebrar as regras e impôr-me significa desrespeitar uma relação que foi alicerçada, em quase duas décadas, na confiança e respeito mútuos, na intimidade e companheirismo. Ambas consideramos a outra como sendo a nossa melhor amiga, para além de companheira para a vida. Temos igualmente consciência de que a nossa relação assenta em princípios muito diferentes do da maioria das pessoas que conhecemos — em que o egoismo é o factor principal, ou seja, estão com outra pessoa na medida em que essa pessoa lhes proporciona prazer e felicidade, mas quando os níveis de prazer e felicidade diminuem, a relação quebra-se. A maior parte das relações que conhecemos são instáveis e de curto prazo porque nenhuma das partes quer ceder nos seus «direitos» e exigem da outra parte «deveres». Ou então são relações de co-dependência. Talvez, em certa medida, isto me assuste um pouco. Por vezes ocorre um velho conhecido perguntar-me, surpreso, «Mas ainda estás com a tua mulher?» como se fosse um crime de lesa-majestade manter uma relação durante tanto tempo. Cada vez tenho mais amigos e conhecidos que, após meia dúzia de relações falhadas, optaram por viver sozinhos, porque «nunca se entendem com mais ninguém». Tenho uma amiga com 50 anos que vive com os pais porque, após o primeiro divórcio, aguarda por um príncipe encantado que não existe nem nunca existirá, e, até lhe chegar a menopausa, o que fazia era andar constantemente nos engates, mas nenhum era verdadeiramente satisfatório. Tenho pelo menos duas pessoas na minha família, entre os 40 e 50 anos de idade, que a dada altura decidiram viver solteiras para o resto da vida, ambas afirmando que «seria impossível mudar a minha rotina diária para me acomodar a um estranho». Talvez o caso mais curioso seja o de um casal cuja relação dura há mais tempo que a minha, e que vivem obcecados com o sexo, deliciando-se com práticas cada vez mais complexas; mas o marido, que era meu grande amigo nos tempos da faculdade, periodicamente vem chorar ao meu ombro a dizer que já não sabe que mais inventar para se entreter com a mulher. Felizmente para ambos, volta e meia encontram uma nova prática sexual, e a relação, embora bizarra, tem-se mantido.

E podia acrescentar uma longa lista de (maus) exemplos. Mas também conheço alguns bons exemplos. Quase sempre implicam, por uma das partes, a aceitação incondicional de todas as regras que a outra parte lhes impõe. Poder-se-á dizer que este tipo de relações é muito assimétrica e que deveria ser instável por causa disso. Mas o que vejo não é bem isso que acontece, especialmente quando é o marido a ceder sempre à mulher. O equilíbrio vem da noção de que as regras existem para manter a relação saudável.

O nosso estado civil não é legalmente casados (por causa de questões fiscais, hoje em dia é demasiado perigoso as pessoas casarem-se), mas trocámos votos sagrados entre nós. Dir-se-ia que está fora de moda «levar a sério» esse tipo de votos (e os nossos votos não são cristãos, o que significa que tenho dificuldade em explicá-los de forma simples). Mas isso é porque a maioria das pessoas que conheço não estão dispostas a levar compromissos a sério. Apenas os cumprem enquanto vêm alguma vantagem (geralmente financeira/material ou sensual, ou seja, estimulante dos sentidos) para o fazerem. No nosso caso, já fomos extremamente ricos, e somos agora extremamente pobres; houve mais que razões suficientes, a nível material, para romper a relação. E relativamente à sensualidade, ambas temos uma líbido tão baixa ao ponto de ser inexistente, pelo que a nossa relação é praticamente toda só intelectual. Isto é incompreensível para a maioria das pessoas que conhecemos, e, justamente por causa disso, não é fácil explicar estes alicerces em que a nossa relação assenta. Mas posso dizer que são bem diferentes do da maioria das pessoas que conhecemos.

A verdade é que andamos de mãos dadas na rua, continuamos a ter uma conversa de namorados, que é parva e infantil como toda a conversa de namorados, e não temos problema algum, em público, apesar da nossa idade e do tempo em que estamos juntos, de trocar carícias um com o outro. Nas noites em que a maioria dos casais que conhecemos estão debaixo dos lençóis a dedicar-se a actividades sexuais frenéticas, nós podemos estar a discutir durante horas um aspecto complexo de filosofia budista, ou a discutir legislação, ou a política dos Estados Unidos. Sempre fizémos esse tipo de coisas ao longo de toda a nossa vida, e é provável que o façamos «até que a morte nos separe».

Ao longo desse percurso, no entanto, é natural que hajam fases boas e fases más. Tal como o meu amigo que ficava deprimido quando já não sabia que novas actividades sexuais deveria praticar com a mulher, mas que recuperava dessa fase logo que descobria algo de novo que os entusiasmava a ambos, também a minha relação com a minha mulher tem altos e baixos. Sofri atrozmente antes de me revelar como crossdresser, porque já não aguentava mais ficar tanto tempo sem me vestir; depois, obviamente, foi um alívio tremendo e uma alegria profunda. Passaram-se anos, e depois foi a questão de não poder sequer sair de noite, mesmo que sozinha e sem sair do carro, que me atormentava ferozmente; mas quando a minha mulher finalmente lá me deixou sair, foi a alegria total. Hoje, a frustração é de não poder estar com outras pessoas quando estou vestida de mulher, e as minhas tentativas constantes de conseguir autorização para o fazer, que me é sempre negada. Mas haverá um dia em que isso acontecerá, e depois estarei de novo em êxtase, pelo menos durante uns tempos, até surgir um novo obstáculo.

A vida, independentemente do que queiramos, é feita desta montanha-russa de bons e maus momentos. A verdade é que só depende do nosso estado de espírito se um momento é bom ou mau. Não poder sair para um jantar com amigas crossdressers pode ser «mau» de uma perspectiva egoista; mas também significa que fico feliz por não ter saido e saber que, pelo menos nesse dia, a minha mulher não vai ficar ansiosa, mas calma e relaxada, sem nada com que se preocupar. E o inverso também é verdade: sei que sempre que me visto de mulher, isso causa perturbação à minha mulher, mas ela também fica feliz no momento por saber que me está a aliviar o sofrimento da tormenta constante de querer ser mulher e não o poder ser.

Talvez devesse pedir desculpa por dar a entender, nos meus desabafos, que a minha mulher é uma pessoa muito mais horrível do que na verdade é. E é esse o problema dos «desabafos», que são feitos em momentos de grande frustração e irritação. Depois, com uma certa calma racional, analiso as coisas com um certo distanciamento, e pergunto-me a mim mesma: o que é mais importante para mim, um momento de felicidade temporária (ir a correr jantar com umas amigas), ou manter-me serenamente numa relação estável que me dá tanta felicidade a longo prazo? É só «no momento» que me esqueço de tudo o que posso deitar a perder só por ceder, por um instante, à tentação de acreditar que a felicidade temporária é mais importante que a de longo prazo.

É claro que isto não invalida o facto de estar deprimida, provavelmente já há muitos anos, e que o agravamento desta depressão passa também pela dificuldade em poder manifestar livremente o meu lado feminino. Sei isso tudo, racionalmente. Mas emocionalmente, pelo menos temporariamente — e considero que mesmo um longo período de depressão é algo de «temporário», pois não irá durar para sempre — não é assim que sinto. E por isso desabafo.

Este momento em que estou a escrever estas linhas é mais um desses momentos de desabafo.

Por isso, queria deixar claro, a quem lê estas linhas, que quando não apareço nas inúmeras actividades que têm sido promovidas pela comunidade crossdresser em Portugal, alegando que a minha mulher não me deixou ir, não estou a usar uma «desculpa conveniente». Estou apenas a respeitar um conjunto de regras estabelecidas há uma década atrás, que aceitei de livre vontade e em plena consciência do que estava a aceitar. Posso, evidentemente, pontualmente ficar frustrada com essas regras. Mas as regras não são uma «desculpa», pelo menos no sentido que normalmente se dá à palavra. São, isso sim, uma aceitação de que a vida a dois se faz com regras em que as partes têm de aprender a ceder um pouco, para que ambos possam continuar a ser felizes, a longo termo. Isto, inevitavelmente, significa que não posso fazer tudo o que gostaria. Mas justamente por não fazer tudo o que gostaria de fazer é que me permite manter uma relação estável.

E isso, para mim, é mais importante do que ocasionais momentos de felicidade temporária.