Contar ou não contar?

Recentemente, uma amiga crossdresser perguntou-me se devia ou não revelar-se à sua mulher, e como fazê-lo e em que circunstâncias. Muitas vezes me perguntam o mesmo, e, dado que a minha resposta tem uma parte muito pessoal, mas outra que é literalmente copiada de vários sites de ajuda a crossdressers, penso que este texto possa ser útil para outras [email protected]

Um pouco de história…

Cada caso é um caso. Isto também significa que não vale a pena dar uma resposta «para todas as situações», porque, realmente, cada situação é diferente. A minha abordagem «funcionou» porque eu sou uma pessoa com determinadas características, e a minha mulher é outra pessoa com outras características, e, para o nosso caso, a minha solução deu resultado. Mas infelizmente nem todos os casos serão idênticos.

Então quais são as circunstâncias fundamentais?

Actualmente, a minha mulher sabe perfeitamente que sou crossdresser, e quando me visto em casa, e estou à frente do computador a conversar com amigas, ela está na mesma sala (também à frente do seu computador). Mas apenas «tolera» a situação porque leu muito, mas mesmo muito, sobre o assunto e sabe que não se pode fazer nada para «curar» o crossdressing. Ela sabe que não é um hobby, ou uma «mania», ou uma «moda», mas algo que faz parte de nós e que não pode ser erradicado. Assim, quando ela compreendeu isso, aceitou perfeitamente a situação: afinal de contas, ela própria tem várias doenças crónicas sem cura e que também têm de ser encaradas e aceites, por mais que nos custe admiti-lo. O crossdressing não é uma «doença» mas, pelo menos neste aspecto, tem semelhanças. Essa é a parte que nós já sabemos. Agora o importante é perceber que a nossa companheira tem de perceber isto também.

Ora eu, por uma questão de princípio, sou a favor de relações em que os parceiros nada têm a esconder um do outro. Quando numa relação não há segredos, nem ocultações, nem mentiras, por pior que seja uma discussão, há sempre aquela ideia de que «o meu cônjuge nunca me escondeu nada». Isso, para mim, é a base de uma relação sólida. Portanto, como podem imaginar, custava-me imenso não contar nada à minha mulher sobre o meu crossdressing.

Quando ainda namorávamos, sentia que não havia «necessidade» de tanta «sinceridade». Afinal de contas, apesar de passarmos imenso tempo juntas, ela tinha os seus amigos e amigas, e eu tinha as minhas «férias solitárias» onde podia-me vestir à vontade. Mas quando passámos a viver juntas — e ainda por cima na altura ambas trabalhávamos na mesma empresa, e assim temos feito até hoje, pelo que passamos 100% do tempo sempre juntas, sem «pausas» — comecei a perceber que isto ia ser um «problema». Durante uns meses o que pensei era que iriam haver oportunidades quando ela (ou eu) estivesse fora, e que me poderia vestir à vontade. Mas com o tempo percebi que isso não ia acontecer. Agora que tínhamos uma relação em que vivíamos na mesma casa, todo o tempo, mesmo de férias, ia ser passado com ela.

Calhou nessa altura termos ido viver 7 meses para o Funchal. Não levámos tudo o que tínhamos em casa. E não levei nenhuma roupa feminina. Não sabia quanto tempo iria lá passar, mas pensei que poderia «esquecer» o crossdressing para sempre. Claro, isto é uma ingenuidade… as noites passava-as a ler coisas sobre crossdressing e transgenderidade, a participar em forums, em chatrooms, etc. e a ler ainda mais sobre o assunto. E acabei por comprar um soutien, que era fácil de esconder, e que era a única coisa que vestia sempre que ela não estava em casa, para me lembrar dos «bons velhos tempos».

Por acaso calhou ter acontecido uma coisa inesperada que me ajudou imenso. A minha mulher não é uma pessoa sociável, e abomina tudo o que seja grupos, chatrooms, forums, webcams, etc. Em vez disso, prefere passar horas a jogar jogos de estratégia no computador (não online, mas apenas ela sozinha contra o computador). Andei à procura de jogos que pudéssemos jogar juntas, e nessa altura descobri, por coincidência, o Second Life. Não é um jogo, mas como dá para construir coisas (ela é arquitecta), achava que seria uma coisa interessante para ela (e também dá para programar, pelo que é uma coisa interessante para mim). Ironicamente, comecei por criar um avatar para ela — um avatar feminino — mas quando ela viu pela primeira vez o Second Life não lhe achou grande piada. Como nessa altura o Second Life era pago, não me queria desfazer do avatar, e acabei por o usar eu — afinal de contas, o que faço mais é inscrever-me em comunidades online com um nome feminino. A diferença, no Second Life, é que para além do nome também temos um corpo, mesmo que seja virtual, e é interessante ver como nos tratam de forma diferente só porque temos um avatar feminino.

Ao fim de uns dias, no entanto, a minha mulher acabou por não resistir à curiosidade e inscreveu-se também no Second Life. Sugeri que eu criasse um avatar novo, e que ela ficasse com o que tinha criado uns dias antes — mas ela disse que não, que queria criar o seu próprio avatar de raíz, e assim de facto o fez. Isto criou a curiosa ambiguidade de que ela se «habituou» a ver o meu avatar feminino e a lidar com isso. Eu achei que a reacção dela na altura foi francamente positiva.

Rapidamente ela se apercebeu de que haviam muitos crossdressers e pessoas transgénero no Second Life. Esse mundo para ela era desconhecido — sabia que «essas coisas» existiam, claro, mas não tinha tido contacto com ninguém da nossa comunidade (como referi, ela não é uma pessoa sociável). Curiosamente, no entanto, começou a dar-se lindamente com algumas pessoas do «nosso» meio. Uma delas, por exemplo, tornou-se uma das suas confidentes mais próximas. Vive em Inglaterra e em quase dez anos que se passaram ainda não a conseguimos visitar pessoalmente.

Isto deu-lhe a oportunidade de ler algumas coisas sobre o assunto, de se interessar pela «estranha vida» das novas amigas online, e de perder a aversão a estas, pelo contrário, de as achar pessoas verdadeiramente fascinantes.

Quando voltámos da Madeira, o meu problema foi então perceber que, a partir de agora, eu nunca mais iria ter tempo livre só para mim. Também vi que a nossa relação funcionava bem, tanto nas situações boas como nas más, e estava visto que iríamos viver juntas «para sempre» (ou pelo menos até morrermos!).

Mas também significaria abdicar do crossdressing, e isso era, para mim, a mesma coisa que voluntariamente deixar que me amputassem as pernas e que me injectassem veneno nas veias. Não conseguia fazê-lo. E o que fiz foi começar a aceitar que, quer gostasse quer não, teria de contar tudo à minha mulher.

Isto não foi um processo fácil. Há «histórias de terror» na Net de revelações que correram mal, muito mal mesmo, embora normalmente fossem sempre na sequência de crossdressers «apanhadas com a boca na botija». Toda a gente recomendava que não arriscasse que isso acontecesse, porque era muito pior! Em vez disso, recomendavam que se aproveitasse um dia em que a nossa mulher estivesse relaxada e bem disposta, e começar por lhe dar imensa coisa para ler sobre o assunto.

Foram umas semanas de terror em que aguardei por esse «dia ideal». Mas no fundo chegou um momento em que eu tinha de ser sincera para comigo mesmo e fazer a grande pergunta: o que era para mim mais importante? Seria assim tão importante viver com uma pessoa que não me respeitava e abdicar do crossdressing? Porque, ao revelar-me, também revelaria a reacção da minha mulher, e compreenderia, de uma vez por todas, se ela gostava mesmo de mim, ou se gostava de tudo o resto (vou explicar isto depois mais tarde) na nossa relação.

Decidi arriscar. Cheguei à conclusão que não tinha mentalidade para viver numa relação em que não houvesse sinceridade entre ambas as partes. Não seria justo esconder-lhe coisas, e esperar, ao mesmo tempo, que ela aceitasse isso. Mas da mesma forma, também não me interessava uma relação em que não me aceitassem como sou, e não como uma mera projecção dos desejos e expectativas dela.

Por isso, lá me decidi a contar-lhe. Claro que no meu caso foi mais simples, porque ela já conhecia outras crossdressers e transsexuais do Second Life. Admitiu que suspeitava de alguma coisa, porque eu gostava muito do meu avatar e da minha «personalidade feminina» (ainda hoje, 99,+9% de todas as pessoas que conheço do Second Life não sabem quem sou ou qual o meu género). E depois, sem fazer grandes comentários, começou a ler as coisas que lhe tinha preparado: desde a Wikipedia às páginas especificamente escritas para os cônjuges de crossdressers. Ficou muitas horas a ler e a pesquisar em silêncio. No final, apenas perguntou se eu queria fazer alguma modificação física ao meu corpo; nessa altura disse-lhe que não, que era «meramente uma crossdresser». E depois acrescentei que evidentemente que precisava de me vestir de vez em quando, mas que aceitaria todas as limitações e imposições que ela achasse serem necessárias; por exemplo, poderia fazê-lo nas raras vezes em que ela não estivesse em casa. E também não precisava de ser «já». Podia esperar. E de facto esperei muitos e muitos meses, até que ela um dia manifestou algum interesse em querer ver a minha roupa feminina, achou-a horrivelmente fora de moda, e propôs ir comprar roupa nova comigo (ainda tenho a saia que comprei nessa altura!).

Da primeira vez que me vesti com ela à frente, foi ela que insistiu em ajudar-me com a maquilhagem, e que me tirou as fotografias. Na realidade estava horrível, mas não me importei. O que importou foi que ela sentisse que estava a participar em algo que era fundamentalmente importante para mim. Depois, da sua forma bem característica, nunca mais me quis «ajudar», nem tirar-me fotografias, limitando-se a resmungar pelo tempo que levo na casa de banho e pela mania que tenho de deixar que se veja o soutien quando uso um top com gola em V… 🙂

Seja como for, vão aqui algumas dicas que penso serem úteis. Muitas obrigam a um trabalho de reflexão e preparação, e esse trabalho espero que também ajude a conhecerem ainda melhor as vossas respectivas caras-metade e elas a vocês.

Antes da revelação: estudar o que pretendem da relação

Eu pessoalmente acho que toda a gente deveria fazer esta reflexão, e não apenas as crossdressers 🙂 Mas nós crossdressers somos pessoas naturalmente introspectivas, pelo que temos uma propensão maior a reflectir sobre estas coisas. Afinal de contas, todas nós tivémos de passar por um momento em que nos interrogamos sobre quem somos e sobre este «desejo incontornável e insaciável» de querermos parecer ser mulheres.

Quando entramos numa relação, podem haver imensas motivações. Nos tempos dos nossos pais, por exemplo, dava-se a desculpa de «querer constituir uma família» mas a verdade é que a esmagadora maioria dos homens o que queria mesmo era uma «continuação» de uma mãe, que nos limpa a casa, faz as refeições, e engoma a roupa. Sim, bem sei que é uma visão terrivelmente machista e preconceituosa. Mas não deixa de ser verdade.

Hoje em dia, no entanto, normalmente entramos numa relação porque queremos sentir prazer. Isto tem a ver com a mentalidade e os valores deste início do século XXI: o que interessam são as sensações, os sentimentos. O «Penso, Logo Existo» foi substituído pelo «Sinto, Logo Existo». E de entre as sensações que procuramos, associamos a felicidade ao prazer; e, de entre as coisas que nos dão prazer, o sexo é a mais importante (e a mais satisfatória) de todas.

Podemos evidentemente enganarmo-nos (e aos outros) e dizer que não é nada disso que queremos de uma relação. Mas, para a esmagadora maioria das pessoas, mesmo que não o admitam a si próprias, essa é a principal motivação. E é assim tanto para homens como para mulheres.

As relações que assentam apenas no sexo têm justamente o problema que nós vamos mudando ao longo dos tempos, e que o sexo é diferente com a idade. Não quer dizer que seja «pior» (até pode ser muito melhor, porque ganhamos mais experiência, e sabemos exactamente o que fazer). Quer dizer que é diferente: os nossos corpos e as nossas mentes modificam-se, e a consequência disso é que as coisas «já não são como dantes». As relações felizes, que começaram por estar assentes no sexo, descobrem que há outras coisas que nos dão também prazer de fazer com os nossos cônjuges, e se tivermos sorte de as descobrir antes de nos desapontarmos com o sexo, então teremos uma relação duradoura. A coisa mais frequente que «substitui» o sexo é o prazer de ver os filhos crescer. Para outros, pode ser o prazer do sucesso no trabalho (que nos trás benefícios materiais que também nos dão prazer). Assim, na maioria das relações, ambas as partes tendem-se a focar nos filhos e no trabalho como base para a relação «funcionar».

Notem que não estou a querer ser moralista ou nada disso. Apenas pretendo «despir» as ideias todas que metemos à volta do que achamos que deve ser uma relação e a imagem que passamos desta para o exterior, e olhar para a essência da relação, para que não haja desilusões e desapontamentos.

Assumindo, pois, que a esposa de uma crossdresser entrou na relação porque se sentia fisicamente atraída por um homem viril que a satisfaça; que progressivamente orientou o prazer para os filhos do casal; que, com a idade, passou a desejar uma vida com segurança, que garanta a educação dos filhos, e que para isso precisa de um companheiro que possa assegurar um fluxo de bens materiais constantes para a casa… isto significa que esta mulher vai criar uma imagem do marido que tem, e é por essa imagem que estabelece a relação afectuosa.

Ou seja, vai manter o companheiro porque é um homem viril, que a sabe satisfazer, que é trabalhador, que coloca os interesses das crianças acima dos seus. Este é o companheiro ideal; este é o companheiro que procuram e que desejam.

O momento da revelação vai ser, pois, um choque. Primeiro porque vai desfazer a imagem do «homem viril». Independentemente do aspecto físico que tenha — e dependendo da idade com que nos «revelamos», já podemos ser um pouco barrigudos e calvos… — se o marido adorado afinal de contas quer é vestir-se e comportar-se como uma mulher, então é porque não é viril.

Mas se se quer vestir e comportar como uma mulher, é porque não se satisfaz com mulheres: é de certeza homossexual. E não há mulher que fique mais chocada por saber que se casou com um homossexual, porque isso lhe destrói completamente toda a auto-confiança que tenha nela própria. Por muito feia que seja, enquanto tiver um homem numa relação, a mulher vai sentir que, pelo menos, no mínimo, satisfaz-se e consegue satisfazer o companheiro. Mas se o companheiro afinal de contas gosta é de se vestir como mulher, então ela irá imediatamente sentir que, na realidade, nunca esteve interessado nela enquanto parceira sexual.

O resto vem «por arrasto». Como explicar aos filhos que o pai gosta de se vestir como a mãe? Pior que isso, vendo a transgenderidade como «uma aberração», a mãe estremosa não vai querer que os filhos «sigam o mau exemplo do pai». Logo, não vai querer que o pai os eduque.

Finalmente, terá (naturalmente) receio que alguém no emprego do marido descubra o «segredo terrível» e que o despeçam, perdendo assim a fonte de conforto material que o companheiro lhe proporciona.

Nestas circunstâncias é evidente que a relação se irá romper de imediato.

Mas é importante aqui perceber que o «problema» não está na revelação do crossdressing em si. Está nas falsas expectativas colocadas na relação. A revelação do crossdressing, por si só, é apenas o catalizador para abrir os olhos à realidade: de que a mulher, neste caso, não gostava realmente do marido enquanto ser humano, mas apenas enquanto medida de satisfação dos seus desejos ilusórios.

Infelizmente este caso é muito frequente (por isso é que se rompem tantas relações com tanta facilidade!).

Há algumas variantes. Alguns casais, por exemplo, conseguem encontrar uma satisfação mútua noutras actividades que não sejam sexo, os filhos, ou o trabalho. Pode ser um hobby que tenham em comum; um projecto pessoal (uma associação de voluntários para uma causa, um negócio ou uma empresa…); ou pura e simplesmente o deleite mútuo de conversarem um com o outro.

Aqui o «choque» é normalmente diferente, porque o que a mulher vai pensar é em que medida o crossdressing irá afectar essa actividade que os satisfaz mutuamente. O papel do marido crossdresser será o de mostrar que o crossdressing não irá interferir em nada (e que até passam a ter mais um assunto de conversa). É apenas mais uma actividade do marido, mas que é inócua e inofensiva, e que não irá nem «roubar tempo» aos projectos em comum, nem os irá substituir.

Estes casos, ao contrário do primeiro, geralmente não têm qualquer problema, pois a relação é baseada numa coisa muito diferente: a necessidade de satisfação mútua. Ou seja, já existe um elo em que ambas as partes fazem uma actividade qualquer apenas porque querem que a outra parte seja feliz. O que é apenas importante de referir no momento da revelação é que o crossdressing não será um impedimento ou um obstáculo. Uma vez que isso esteja esclarecido, haverá uma aceitação.

Há casos um pouco mais complicados, em que a mulher sofre de alguma baixa auto-estima. Por exemplo, pode estar numa situação em que não percebe a sorte que tem por ter um marido tão fabuloso, pois considera-se feia, pouco atraente e pouco inteligente, sem dotes sociais. O marido, ao começar a vestir-se de mulher, parece, de certa forma, estar a querer mostrar que ela (a mulher) não está à altura da imagem mental que ele (o marido crossdresser) tem de uma mulher. Isto cria a estranhíssima emoção de ter ciúmes da personalidade feminina do marido (vamos ver isto em mais detalhe mais à frente). Cria também insegurança, ao ver que o marido crossdresser perde tanto tempo a arranjar-se, e que parece dar mais importância a isso do que a elogiar os pequenos e escassos esforços que a mulher ocasionalmente faça. E, obviamente, há aqui também o receio da orientação sexual — o marido pode querer estar a implicar que não tem interesse nenhum em mulheres.

Estas situações têm de ser analisadas com cuidado. Se a mulher sofre de falta de auto-estima, então o momento da revelação tem de ser muito bem escolhido. A baixa auto-estima é fonte de frustração e de depressão, mesmo que nunca tenha sido formalmente diagnosticada. Nestes casos, eu acho que é preferível que haja uma revelação, sim, mas que não haja uma «insistência» em que a mulher esteja sempre presente quando nos vestimos. Talvez seja melhor relegar isso para dias em que ela não esteja em casa, ou fazê-lo fora de casa, pelo menos até que ela se habitue à ideia. E se a auto-estima baixa estiver relacionada com o aspecto físico, nada como autorizar — e encorajar! — que a mulher também faça algo pela sua auto-imagem.

Sei que pode parecer estúpido, mas lembro-me de alguns casos assim, em que a mulher sofria de baixa auto-estima por ter os peitos pequenos, numa sociedade em que «quanto maiores, melhores» é a norma (pelo menos na TV!), e que depois fica frustrada ao ver que o marido anda sempre com maminhas de silicone de copa D ou mais. Ela imaginará (erradamente!) que ele também gosta de «mulheres mamalhudas» e que a despreza por causa disso. A solução é propor-lhe que faça uma operação de aumento das mamas! Claro que isto é algo que conheço de exemplos americanos e que pode não fazer sentido no nosso país, mas ocorrem-me muitos exemplos parecidos, como a mulher frustrada por não poder vestir saias por não ter paciência para rapar os pelos, ou que não tem paciência de pintar as unhas dos pés e por isso não gosta de usar sandálias, etc. Nalguns exemplos, as mulheres não fazem nada disso porque têm receio de serem consideradas fúteis (ou gastadoras!), mas a verdade é que estes casos são muito fáceis de resolver — basta o marido dizer-lhe que não se opõe em nada que ela gaste dinheiro a cuidar-se dela própria! (já que ele fará o mesmo!)

Poderei talvez resumir os principais problemas a resolver antes da revelação:

  • Para a mulher, o casamento pode estar assente numa imagem fictícia e ilusória de um «marido ideal» que não existe, e a revelação vai destruir por completo essa imagem
  • O marido crossdresser é um mau exemplo para crianças, amigos, familiares, etc.
  • Há receio que o crossdressing do marido interfira na relação, em especial nos projectos comuns que têm e que lhes trás uma satisfação mútua
  • Baixa auto-estima (especialmente relativa à auto-imagem), que faz com que a mulher pense ser por culpa dela (ou do seu aspecto físico) que leva o marido a fazer crossdressing
  • Dúvidas quanto à orientação sexual (e àcerca do papel da mulher nas relações sexuais com o marido)

Portanto, penso que é uma boa ideia reflectir sobre a essência da relação, nem que seja levando a conversa para estes campos, e compreender qual é o estado de espírito da mulher, e da forma como ela encara a relação, antes do momento da revelação. É porque consoante o caso, haverão perguntas que ela irá fazer às quais temos de saber dar uma resposta sincera e espontânea.

A preparação

Como disse, no meu caso, como a minha mulher adora ler e estudar, as coisas foram muito simples, porque a minha «preparação» consistiu em arranjar-lhe uma lista de links para páginas sobre crossdressing, especialmente as que foram escritas por mulheres de crossdressers, com o objectivo de ajudar outras mulheres que estão a passar pelo mesmo. Sugiro que façam o mesmo. No pior dos casos, ficarão com muitas ideias sobre a melhor forma de abordar a questão.

Se a vossa mulher detestar estar ao computador, imprimam textos, e/ou arranjem livros sobre o assunto. Um clássico é My Husband Betty, que se vende na Amazon.com. Se ela só souber ler português pode ser um pouco mais complicado.

Se ela detestar ler, mas gostar de ver TV, felizmente há excelentes filmes e documentários sobre o assunto. Podem vê-los em conjunto e depois responder a perguntas do género: «Mas tu também és assim?» e discutir as semelhanças e diferenças. Um clássico é o filme Normal, embora seja sobre transsexualidade. Infelizmente acho que não se encontra com facilidade em Portugal e não se deve conseguir encontrar com legendas em português.

Não existem ainda «grupos de apoio» formais para mulheres de crossdressers em Portugal, tal como há no resto do mundo. No entanto, existem alguns grupos informais: há alguns membros da nossa comunidade que estão disponíveis para dar apoio às mulheres de crossdressers. Sugiro que participem nos forums e grupos do Facebook sobre crossdressing em Portugal, e procurar aí por gente disposta a ajudar. Desculpem, mas não vou revelar nomes sem autorização das próprias, mas posso dizer que estamos realmente muito próximos de conseguir ter uma organização muito parecida com as que existem lá fora (em praticamente qualquer grande cidade). A única coisa «formal» que existe é a Rede ExAequo mas que se destina a jovens LGBT. (Há depois muitas organizações de apoio à homossexualidade, mas que não estão [ainda] sensibilizadas para as nossas questões específicas.)

O momento ideal para a revelação

Uma coisa que parece ser consensual em tudo o que li sobre o assunto é que é muito, mas mesmo muito difícil «recuperar» uma relação quando a mulher surpreende o marido a vestir roupas femininas… especialmente se forem as dela (é uma intrusão à sua privacidade!). O choque será sempre demasiado grande. Há alguns casos que mesmo assim recuperaram, mas são raríssimos. Por isso, a minha recomendação é que evitem revelar-se desta forma — por mais que a vossa mulher vos adore, vai ter sempre em mente que o marido andou a esconder algo dela, e se o fez uma vez, poderá fazer outra e outra.

Outra coisa que parece funcionar bem é a «preparação gradual»: dar pequenas indicações, aqui e ali, de que na realidade gostamos de coisas femininas. Pode ser, por exemplo, dizer um dia que se vai à manicure, «porque sinceramente as minhas unhas estão um nojo». Se a nossa mulher nunca tiver reparado nisso, vai ficar surpreendida, mas vai pensar, «porque não?». Arranjar as sobrancelhas com a desculpa «se o Cristiano Ronaldo pode, eu também posso» também serve. Há também mil e uma maneiras de darmos uma desculpa para nos depilarmos; uma delas, por exemplo, é marcar uma consulta com um dermatologista «para observar os sinais» (o que é sempre bom, é uma forma de prevenir melanomas antes que seja tarde demais) e depois depilarmo-nos antes «para o dermatologista nos poder observar melhor». Isto parece sempre lógico e não será demasiado esquisito.

Algumas crossdressers que conheço fizeram coisas bem mais engenhosas, do tipo deliberadamente deixar que as cuecas masculinas estejam todas no cesto da roupa, e, de manhã, sem terem roupa limpa na gaveta, pedirem para vestirem uma das cuequinhas dela «para desenrascar». Isto levantará imensa surpresa, mas a desculpa «ninguém vai saber, eu é que não vou sem cuecas para o emprego» às vezes pega porque também parece lógico. Não funcionará, claro, se a medida dela for mesmo muito menor que a nossa…

Outras usaram uma «estratégia de diversão» — procuraram desviar inicialmente a atenção sobre o crossdressing em si para o fetiche da roupa feminina. Isto começa-se por pedir à mulher que vá de soutien e cuequinhas para a cama, porque «a roupa feminina nos excita» — o que é normal e natural (é para isso que as mulheres vestem lingerie!). Com muitos elogios à suavidade da textura, pode-se então introduzir a «fantasia» de sentir essa lingerie no nosso próprio corpo, e pedir para vestir umas cuequinhas também. Apesar da surpresa, muitas mulheres verão nisto «apenas mais uma fantasia» que não tem nada de mal; e se isto tornar a relação sexual mais interessante (pela novidade!), tanto melhor. Depois podem-se introduzir pequenos truques do género: «o que eu gosto mesmo é da transição da textura das tuas cuequinhas para o teu rabinho macio… no meu caso, é só pêlos ásperos, não tem tanta piada…» e persuadi-la a deixar que rapemos alguns pêlos também. O passo seguinte é oferecer-lhe lingerie sexy e pedir para que ela a vista… e depois comprar um conjunto semelhante, mas nas nossas medidas, e ver a reacção dela. Muito provavelmente ela nessa altura irá mesmo desconfiar, e chegará a altura de revelar tudo.

No entanto sei que esta estratégia nem sempre conduz a resultados positivos: há mulheres que não se importam que os maridos tenham sexo com elas vestindo lingerie feminina, mas que lhes faz muita confusão que eles depois se queiram vestir todos de mulher, e não aceitam isso bem.

No meu caso, como já disse, o que eu usei foi o pretexto de uma comunidade online em 3D para habituar a minha mulher a ver-me desempenhar um papel feminino, com um avatar feminino. Mas obviamente que isto não funcionará para a maior parte dos casos! Contudo, hoje em dia, há imensos casais que também jogam juntos na Playstation ou Wii, e pode-se usar a mesma estratégia.

Se tudo isto parece demasiado radical, há outros truques bem mais simples e mais «naturais». Por exemplo, nunca se recusar a ir às compras com ela, e dar sugestões e dicas do que apreciamos na roupa que ela escolhe, ou na maquilhagem que compra. A maior parte das mulheres achará estranho que o marido «se interesse por essas coisas» mas ficará muito orgulhosa de saber que o marido se preocupa com ela!

Também é positivo apreciar ficar a ver o Fashion TV em vez de forçá-la a mudar para o Canal Benfica 🙂 Pode-se sempre vir com a desculpa: «claro que gosto de ver mulheres belíssimas a desfilar numa passerelle com roupas elegantes; qual é o homem que não gosta de ver isso?? Prefiro isso mil vezes a ver homens a suar!» (o que me parece muito lógico!) Mas não precisa de ser tão óbvio. Por exemplo, se num programa de TV qualquer ela comentar: «não gosto mesmo nada da forma como essa tipa se veste!» podemos responder «pois, os decotes em V nunca favorecem quem tem peitos pequenos» ou «pelo menos usa wedges que estão na moda». Isto vai ser uma surpresa para ela ao ver que o marido presta tanta atenção à moda! (Cuidado apenas se ela tiver baixa auto-estima, pois pode pensar que se trata de um ataque pessoal; esta estratégia funciona melhor com mulheres que se arranjem bem e que tenham muita confiança na sua imagem pessoal.) Outro clássico: «Bem, a Tyra Banks tem mesmo um cabelo lindíssimo!» «Sabes que não é dela… ela usa uma cabeleira postiça. Hoje em dia fazem-se de forma a parecerem completamente naturais.» Se ela comprar maquilhagem numa loja dos chineses, porque se envergonha de gastar muito dinheiro nisso, podemos comentar que «toda a gente sabe que os produtos de maquilhagem chineses não passam os testes rigorosos que temos no Ocidente; porque é que não vais ao Pingo Doce ou ao Continente e compras de marcas como Nívea ou Maybelline que são baratas e não te fazem mal à pele?». São estas pequenas coisinhas que podemos sempre aproveitar para ir comentando. Podemos igualmente encorajá-la a arranjar-se melhor — se ela estiver farta de se depilar, podemos dizer para ir ao salão fazer a depilação: «também não é tão caro como isso, e olha, jantamos fora menos uma vez este mês». Ou podemos de vez em quando arranjar-lhe vouchers do descontos.pt ou groupon.pt para que ela gaste à vontade em tratamentos de estética…

Ainda por cima, se não quisermos logo «abrir muito o jogo», se ela perguntar como sabemos estas coisas todas, podemos sempre dizer que «lemos isso algures na Internet».

Desempenhar tarefas femininas em casa é outra estratégia. Nos livros escritos por mulheres de crossdressers, elas referem quase sempre que têm «o marido ideal» porque «ele» nunca se importa de passar a ferro, de cozinhar, de limpar a casa, de remendar botões, etc. Dizem justamente que «o marido crossdresser é o melhor dos maridos» porque aliviam a carga de trabalho que têm — e fazem-no com prazer!

Seja como for, penso que o ideal é fazer esta preparação até ao dia da revelação. Pois aí haverá o tal momento em que ela dirá «então é por isso que sabias tanta coisa sobre o assunto!»

Quanto ao momento propriamente dito, não sei se há «um momento ideal», pois podemos correr o risco de estar sempre à espera de que apareça, e os anos vão passando…

O que acho que é mais justo para ela é que a revelação surja o mais cedo possível na relação. Ou seja: a partir do momento em que ambas as partes tenham a certeza que querem viver juntas (e isto pode levar uns anos!), então é melhor preparar já o dia para a revelação. É que mais vale que a revelação ocorra no início — ficamos logo a saber de se ela gostava de nós «pelas razões erradas» ou não — do que a meio de uma longa relação: há muito mais em jogo a perder!

Como é evidente, dado que a situação vai ser sempre um pouco desagradável, o ideal é ser num dia calmo, em que estejam os dois juntos sem fazer nada de especialmente importante, de preferência sozinhos (se o casal tem crianças, estas não devem estar nem presentes, nem a necessitar de apoio/supervisão). Ambos devem estar relaxados e sem grandes preocupações: mesmo na família com mais azares e stresses (com trabalho, crianças, etc.), há sempre momentos de maior calma.

Há quem tenha usado um pretexto qualquer para ir jantar fora, ir ao cinema, divertir-se um pouco, e depois, no regresso a casa, fazer então a revelação. Eu pessoalmente fi-lo depois do almoço, e foi em casa, porque temia que, com o cansaço da noite, ela não estivesse muito receptiva — ou que perdesse o sono só a pensar no assunto (e depois ficaria resmungona no dia seguinte).

Se se fez um «trabalho preparatório» é fácil começar a conversa… «Sabes, estás sempre a gozar comigo por causa dos comentários que faço quando estamos a ver a Fashion TV… bom, há uma razão para isso.» Caso contrário, infelizmente o único cliché que resta é sempre o de «tenho uma coisa importante para te dizer», mas acho que é sempre uma frase péssima para começar. Todas as «coisas importantes para dizer» são sempre negativas. Uma alternativa é apenas dizer, «tenho aqui umas coisas que gostava que lesses» ou então «hoje trouxe um filme/documentário interessante que gostava que visses comigo».

De resto não tenho muitas sugestões para o início da conversa. Felizmente, até hoje, só a precisei de ter uma única vez!

A reacção dela à revelação

A maior parte das crossdressers gostaria que a reacção da mulher fosse: «Mas isso é óptimo, querido, sabes que sempre escondi de ti que a minha maior fantasia é ter sexo com um homem vestido de mulher, mas sempre tive receio de te dizer… isto foi um enorme alívio para mim!! Mas que bom!! Quero já ver-te todo arranjadinho!»

Curiosamente estes casos são mais frequentes do que se pensa, mas temos de manter as expectativas baixas! São muito poucas as mulheres que têm a fantasia da sissification, e é melhor não contar com isso. Vamos ver alguns dos casos mais prováveis.

Curiosidade

Uma coisa que é muito diferente nos géneros é a atitude das mulheres para com outras mulheres. Elas podem admirar-se mutuamente, podem ser genuinas nos elogios que fazem (e também podem invejá-las com ódio profundo!), e isso é «normal» entre mulheres. Enquanto entre homens seria «estranho» estar a elogiar os abdominais e peitorais, ou a fazer elogios à roupa que usam, as mulheres não têm qualquer problema nisso, e não é uma forma de «lesbianismo encapotado». O ideal de beleza nos nossos tempos é o corpo feminino, e elas sabem-no, e por isso o elogiam (os gregos da antiguidade, como tinham como ideal de beleza o corpo masculino, elogiavam-no da mesma forma, e isso não os fazia todos homossexuais).

Assim, a melhor reacção mais «realista» que podemos esperar é que a nossa mulher reaja com curiosidade. Quer ver como é que as roupas nos ficam. Poderá ficar desapontada pelo resultado, mas pelo menos teve interesse em ver o que acontece quando nos vestimos. Se o desapontamento for enorme, podemos sempre dizer: «isto com a prática irá melhorar! Lembra-te que tu estás habituada a estas roupas, aos saltos altos, à maquilhagem, desde que és miúda, e praticas todos os dias, enquanto que eu só fazia isto ocasionalmente às escondidas…»

Ter uma mulher curiosa no nosso aspecto enquanto en femme é talvez o melhor que podemos ter. Significa que ela terá uma predisposição para nos ajudar a ir comprar roupa, e talvez ache piada ir passear connosco en femme a ver se alguém nos reconhece…

Há também neste caso uma ideia de que a nossa sinceridade fortaleceu a relação: passámos a ter um segredo que é só de nós os dois, e ela sentir-se-á muito grata por fazer parte daquilo que é a coisa mais íntima e mais secreta para nós.

Obviamente que nem todas as mulheres terão este nível de aceitação. Para já, a relação terá de estar assente em muito mais do que a mera atracção física, os filhos, ou o emprego. Terá de haver um genuíno desejo de tornar a outra pessoa feliz. Deixar-nos fazer crossdressing é algo que ela verá como uma forma de nos tornar feliz, e por isso fá-lo-á de livre vontade e com prazer, e estará disponível para nos ajudar e encorajar. Claro que este tipo de mulheres tem uma auto-estima muito elevada, não terá problemas com a auto-imagem (independentemente se for feia ou bonita), terá sentido de humor, e muito provavelmente uma mente muito aberta. Se for o caso, parabéns 🙂

Aceitação

Este (e o próximo) são os dois casos mais frequentes. No primeiro caso, haverá um choque, e uma tentativa de negar a realidade — especialmente se for mesmo muito surpreendente (ou seja, não havia qualquer indicação anterior do nosso interesse pelo «mundo feminino», fruto de má preparação). Aqui a estratégia é explicar que não há nada de mal no crossdressing, que não vai interferir na relação, que não vai estragar os planos de ninguém, que não há aqui nenhuma questão de orientação sexual, de que ela continua a ser a nossa parceira desejada e mais nenhuma, de que não vamos anunciar isto ao mundo todo, etc. E que o segredo passa a ser dos dois. Ela deverá entender isto como se fosse um anúncio que temos diabetes: pode não ser curável, mas leva-se uma vida normal. A diferença, claro, é que o crossdressing não é uma doença, mas continuar-se-á a levar uma vida normal. É muito importante que ela leia coisas sobre o assunto e que veja que não a estamos a tentar «enganar com tretas» e que o crossdressing é mesmo aquilo que dizemos ser.

Neste tipo de reacção, a nossa mulher provavelmente não nos vai encorajar (como no caso anterior) e ficará um pouco consternada por sermos crossdressers. Não vale a pena enganarmo-nos: ela não vai ficar contente com a ideia. Vai aceitar-nos tal como somos, mas com o mesmo interesse e satisfação que um anúncio de um cancro benigno. É possível, no entanto, que não tenha qualquer problema em deixar-nos vestir em casa, comprar roupa e acessórios, e guardá-los em casa num sítio que não esteja à vista de ninguém. É possível também que faça alguns comentários e sugestões e que nos dê alguma ajuda a arranjarmo-nos; é que neste tipo de reacção, por muito que lhe custe, o «instinto maternal» fará com que ela faça coisas que lhe são desagradáveis, porque compreende quão importantes são para nós. Da nossa parte, por uma questão de respeito, evitaremos os abusos.

É pouco provável que nos deixe sair vestidas, tal como é pouco provável que deixe que sejamos visitadas por outras crossdressers. Neste tipo de reacção, haverão muitas regras e muitos condicionamentos (ex. «nunca quando as crianças estiverem em casa»), mas teremos pelo menos a liberdade de nos vestirmos (quase) sempre que quisermos.

Tolerância

Este caso é muito parecido com o anterior, com uma diferença significativa: ela não quer, de maneira alguma, ver-nos vestidas de mulher. Compreenderá as razões porque o fazemos, mas teremos abalado de tal forma a imagem que tem de nós, que se recusará ver-nos «transformadas».

Em vez disso, irá sugerir datas e horas específicas para que nos possamos arranjar sem que ela seja «forçada» a ver-nos. Numa casa grande, é possível que nos deixe usar um quarto ou escritório, onde poderemos ter as nossas coisas, mas onde ela nunca entrará; haverão dias em que ela não irá estar em casa em que podemos sair do quarto vestidas, mas se tivermos mesmo de nos arranjar com ela em casa, ela recusar-se-á a entrar no tal quarto, e estará à espera que não saiamos de lá.

De resto, haverão as mesmas regras que na situação anterior, acrescidas da limitação «nunca à minha frente!»

Rejeição

Este é o caso em que a nossa mulher se recusa a compreender as razões que nos levam ao crossdressing, e é normalmente um indicador de que a relação está assente em imagens ilusórias àcerca do «marido ideal» com que ela pensava ter casado. No entanto, existem alguns factores de dependência que poderão fazer com que ela não queira terminar a relação: podem ser puramente razões de dependência económica, ou a necessidade de ter um pai para as crianças, ou a vergonha de ser «mãe solteira». Seja qual for a razão, trata-se de um caso em que a relação é muito assimétrica: ela depende tanto de nós, que, apesar de rejeitar completamente o crossdressing, não quebra a relação.

Tal como no caso anterior, ela jamais quererá ver-nos vestidas, e não quererá ver ou sentir nada que lhe relembre que tem «um marido crossdresser». Fará tudo por tudo para esquecer. No entanto, dirá que podemos fazer crossdressing «em absoluto segredo», nos dias em que ela não estiver em casa, ou numa casa de campo (se a tivermos), ou num hotel, etc. Desde que nunca nos veja e que nunca mais mencionemos o assunto na presença dela.

Pessoalmente acho que este tipo de relação de dependência nunca durará muito tempo. Vai chegar a um ponto em que ela irá quebrar a relação, porque já não aguentará mais a «farsa», e o pretexto do crossdressing será apenas mais um para a «discussão final».

Uma pessoa que esteja em rejeição total será muito, mas mesmo muito, difícil de convencer do contrário. O que poderia eventualmente ajudar era colocá-la em contacto com amigas ou pessoas da sua confiança que tivessem passado pelo mesmo. Mas em Portugal é pouco provável que isso aconteça.

Quebra da relação

Por fim, o pior caso — aquele que todas nós tememos que seja o nosso! — é quando a relação é quebrada no momento da revelação. Aqui é importante perceber que, na verdade, nunca houve uma «relação amorosa» no sentido mais estrito da palavra. Havia, isso sim, uma relação de co-dependência: ela precisava de certas coisas de um «marido ideal» (sexo, um lar, dinheiro), e o «marido ideal» precisava de certas coisas dela (sexo, estatuto social). Enquanto ambas as partes se comportavam de acordo com essa «imagem ideal», tudo ia bem. Mas as pessoas e as circunstâncias mudam, e este tipo de relações é muito susceptível à mais pequena mudança — por isso invariavelmente terminam, e geralmente da forma mais dolorosa possível.

De notar que este também é o caso de relações muito assimétricas, em que o marido possa estar genuinamente interessado no bem-estar e felicidade da mulher e só se preocupar com isso, enquanto que ela só se preocupa consigo própria, mas está disposta, em troco das coisas que deseja, se submeter a algumas regras e humilhações. A ruptura dá-se quando se vai «longe demais» naquilo que é visto como mais uma regra e mais uma humilhação; quando não se dá a ruptura, estamos no caso anteriormente descrito («rejeição»).

Não é fácil lidar com um caso destes. Nalgumas situações, o que se pode tentar é minimizar o impacto, dizendo que o crossdressing não vai influenciar em nada aquilo que ela deseja da vida dela. Vai continuar a ter sexo (se é isso que deseja), dinheiro, bens materiais, e um marido que se interessa por ela e pelas crianças. O objectivo aqui não é a aceitação; é compreender que vai sempre haver uma rejeição, mas que ao menos não haja uma quebra da relação. Isto é muito difícil de conseguir, porque nestes casos, a mulher criou uma imagem da tal relação «ideal» que está de tal forma presente na mente dela, que qualquer «ataque» à falta de realidade desta «relação ideal» será motivo de quebra.

Aqui só me resta sugerir que se estude com muito pormenor e cuidado as motivações da nossa mulher. O que quer ela na vida? Quão importante somos nós, enquanto pessoas, para ela? O que é que ela faz para nos tornar felizes (para além de eventual satisfação sexual)? Talvez ao fazer isto cheguemos à conclusão que, na realidade, ela nunca gostou de nós e apenas está numa relação connosco por pressão social e/ou porque obtém de nós coisas que são importante para ela (filhos, bens materiais, segurança financeira) mas que pouco lhe interessa se somos nós a fornecer-lhe isso ou qualquer outro homem. Neste caso talvez  tenhamos descoberto (da pior maneira possível) de que ela na realidade não presta para nós…

Honestidade e sinceridade

É importante explicar aqui que, independentemente do tipo de pessoa que for a nossa mulher, há formas de melhorar a maneira como irá decorrer o momento da revelação. Se habitualmente conversamos com a nossa mulher sobre todos os nossos problemas (individuais e do casal ou da família), se somos abertas e sinceras no que dizemos, se preferimos enfrentar os problemas desagradáveis em conjunto em vez de os ocultarmos mutuamente, tentando evitar o assunto… então há boas razões para que o momento da revelação corra bem.

Isto devia ser universalmente verdade, mas claro que não é. Por exemplo, podemos ter vergonha de admitir que o nosso emprego é precário, que as coisas estão a correr mal com os colegas, e que podemos ser despedidos a qualquer instante. Mas sabemos que a segurança e estabilidade financeiras são uma coisa que preocupa muito à nossa mulher, pelo que preferimos ocultar tudo. No momento em que perdemos o emprego, ela fica possessa e berra: «Como é possível que uma coisa destas nos possa ter acontecido a nós assim de surpresa??» Infelizmente, a nossa tendência é para ocultar tudo o que lhe seja desagradável, para que não tenhamos constantes confrontos, conflitos e discussões.

Mas isto é a base da potencial rotura de uma relação. Há-de haver um momento em que ela vai perceber que temos a tendência de lhe ocultar coisas. E a partir daí perde a confiança em nós. Se esta confiança já estiver muito «tremida», a relação pode não sobreviver à revelação de que somos crossdressers — porque é «a gota de água» que transbordou o copo.

Se temos esta tendência, então, durante a fase de preparação, penso que é útil começar a inverter a tendência. Por exemplo, ter uma conversa com ela sobre como nos corre o trabalho, o que nos preocupa com os amigos ou com os filhos. Também é importante ouvir a opinião dela: «Querida, tenho um problema com um colega chato no trabalho, e queria saber a tua opinião… achas que deva fazer assim ou assado?». Se somos do tipo que normalmente deixamos os problemas à porta de casa, ela estranhará, mas provavelmente ficará lisonjeada pelo facto de subitamente a começarmos a consultar sobre coisas que são importantes para nós. Mesmo a mulher mais «distante» e auto-centrada vai gostar de saber que respeitamos a opinião dela e que queremos saber o que ela pensa sobre os assuntos que nos preocupam.

É evidente que, na fase de preparação, temos de ter cuidado com o que dizemos. Penso que o maior problema, que vou abordar muito mais à frente, é lidar com eventuais infidelidades nossas. É que se as revelarmos e pedirmos perdão, no momento da revelação do crossdressing, ela vai dizer: «Primeiro andavas com outras, agora isto??? É demais!!». Mas se não dissermos nada, ela vai dizer: «Que mais andas a esconder de mim?!» Julgo que este é um problema muito complicado e muito delicado, e eu não sou a melhor pessoa para recomendar o que quer que seja, pois a minha relação tem características muito únicas, e como não assenta no sexo mas na satisfação intelectual mútua, as coisas são completamente diferentes (e muito mais fáceis, diga-se de passagem). Mas a esmagadora maioria das pessoas não será assim.

Para além da infidelidade, no entanto, penso que praticamente tudo deva ser revelado. E é bom revelar mesmo as coisas mais íntimas, aquelas que «os homens nunca contam às mulheres» — porque estamos socialmente condicionados a projectar uma imagem de solidez, de estabilidade, de força, temos dificuldade de revelar os nossos medos, inseguranças, e insatisfação. Julgo que é um bom treino, para ambas as partes, que comecemos aos poucos a compreender que o sucesso da nossa relação vai depender do grau de confiança mútua que temos, e que quanto mais estivermos dispostos a revelar o que nos preocupa e o que sentimos, mais fácil será a aceitação no momento da revelação. Mas tem de ser com contrapeso e medida. O homem viril e forte sabe sempre o que tem a fazer, não hesita, não tem dúvidas, é um pilar de solidez. Uma mulher que tenha esse estereotipo na cabeça vai lidar mal com um marido que lhe pede a opinião. Felizmente, hoje em dia, as mulheres também sabem que muito daquilo que parece ser «força e determinação» não passa de teimosia. Devemos, pois, aos poucos inverter esta tendência.

O ideal é podermos estar numa situação em que no momento da revelação possamos dizer: «Sabes que nunca te escondi nada, mesmo as coisas mais íntimas, que nem discuto com os meus melhores amigos.» Se realmente ela souber que nunca lhe faltámos à verdade e que sempre nos abrimos com ela — que, para além de esposa, ela é a nossa melhor amiga e principal confidente — então a revelação do crossdressing vai correr bem. Claro que haverá um choque. Mas ela estará habituada a que sejamos sinceros, e, mesmo que não concorde com o crossdressing, compreenderá que é algo de fundamentalmente importante para nós (como tantas outras coisas que já lhe admitimos honestamente), e fará no mínimo um esforço para lidar com isso.

Não vou dizer que «todas as mulheres são iguais» porque isso não é verdade, mas em todas as relações que sejam baseadas num hábito de honestidade e sinceridade, de afecto e carinho para além da componente sexual, em que não há segredos entre os dois, e em que ambas as partes confiam uma na outra, há muito maiores probabilidades de que o momento da revelação corra lindamente.

As regras

Após o momento da revelação, o que se vai seguir é o estabelecimento das «regras de jogo». Isto é inevitável e teremos de estar preparadas para saber o que vamos pedir, o que vamos negociar, onde é que podemos ceder, e o que é indispensável. Vai haver uma coisa que vou deixar para outra secção, pois para já vou abordar apenas o caso mais simples, que é estabelecer as regras que nos permitam vestirmo-nos ocasionalmente, com conhecimento dela (mesmo que sem a presença física dela), aliviando assim a nossa ansiedade e frustração, mas sem colocar demasiada tensão na relação e sem a fragilizar.

Cuidado com a chantagem emocional

Por mais lógica e racional que seja a nossa mulher, e que até aceite a situação (isto será tão mais verdade se seguirmos os princípios da honestidade e sinceridade expostos anteriormente), não nos deixemos iludir: o momento da revelação vai ser sempre um choque emocional. Estaremos os dois com as emoções à flor da pele.

E nessas situações a reacção dela (se não tiver o fetiche da sissification!) vai ser sempre do tipo «Porque é que me estás a fazer uma coisa dessas?? Só a mim é que me acontecem estas coisas!» ou ainda «Não gostas nada de mim, senão nunca te terias metido nisto» ou «O que é que está errado em mim? Que mal te fiz eu?» ou mesmo «Não tens vergonha?»

É para esta chantagem emocional que temos de estar preparados. É fundamental que sejamos bem claros a afirmar que isto não tem nada a ver com ela. Ela tem que entender, sem margem para dúvidas, que já éramos crossdressers no momento que nascemos, e que sempre fomos assim, e que sempre o seremos — e que ela em nada nos influenciou. Tem também de compreender que não há nada que ela possa fazer (ou dizer) que faça com que deixemos de ser crossdressers: isto não é curável! Se ela, ou alguém da família mais próxima, tiver uma doença incurável, podemos usar isso como exemplo: essa pessoa não tem culpa de ter essa doença, mas também não há nada que possa fazer para se curar. Temos é de ter cuidado a explicar que o crossdressing não é uma doença, nem sequer mental (mas também não é «contagiosa», nem geneticamente transmissível, ou seja, os nossos filhos não vão ser crossdressers só porque o pai é), mas meramente uma condição que temos e que não a podemos mudar mesmo que queiramos. Podemos, isso sim, lidar com isso, melhor ou pior. A abstinência não ajuda a diminuir o desejo de crossdressing; não é como deixar de fumar. Não se trata de uma questão de «falta de força de vontade». Há crossdressers que se sentem tão frustradas por o serem que dariam tudo — até um braço ou uma perna — para deixarem de o ser. Mas de nada serve: não se pode deixar de ser crossdresser, foi assim que nascemos.

É também fundamental explicar que não é uma moda, nem uma mania, nem um hobby. Não é uma coisa que nos apeteça fazer uns meses mas que depois adoptamos outra coisa qualquer para passar o tempo. Também não é uma coisa «dos tempos modernos» — houve crossdressers em toda a história da humanidade. Há sociedades, na Índia e Paquistão, que incorporaram as crossdressers como fazendo parte do seu legado cultural.

Também podemos referir que há muito mais crossdressers do que as pessoas pensam. O que se passa é que é algo de socialmente inadmissível, pelo que as crossdressers fazem-no em segredo, não respondem a inquéritos, não dizem nada a ninguém, nunca vêm a público e não dão entrevistas na TV (excepto o Laerte!). Por isso não se sabe quantas são! Podem-se estimar em vários milhares, talvez mesmo dezenas de milhar, em Portugal — mas nunca ninguém saberá ao certo quantas são. Isto para que ela compreenda que não é uma mania só nossa, e que isto «não lhe está só a acontecer a ela», mas que, por todo o mundo, há gente a ter esta conversa.

Finalmente, também temos de reprimir a nossa eventual tendência de fazer chantagem emocional com ela, do tipo: «Se gostas mesmo de mim, vais-me deixar vestir de mulher o dia todo.» Quando se começa com este tipo de coisas, não há forma de parar. Se estivermos numa relação em que a mulher é totalmente dependente de nós — não tem a sua própria autonomia financeira, tem dificuldade em estabelecer novas relações, etc. — a tentação de usar este tipo de chantagem emocional é mesmo muito forte (especialmente se já a usámos no passado para outras coisas). Entrar neste tipo de situações só a fará quebrar a relação. Pior que isso: ela depois irá contar a toda a gente, que é justamente a última coisa que queremos que aconteça.

Em contraste, uma relação assente na honestidade e sinceridade, em que nenhum dos parceiros usa a chantagem emocional como forma de obter o que quer, fará com que ela, mesmo que não compreenda, aceite o que lhe estamos a dizer, e irá manter o segredo tal como nós (nem que seja por vergonha!).

A negociação

Há obviamente um aspecto de «negociação» das regras de jogo, e aqui há muitas estratégias a abordar. A que é 100% eficaz, mas que a maioria das pessoas não vai querer, é simplesmente dizer que ela é que impõe todas as regras, sem excepção, desde que tenhamos oportunidade de nos vestir de vez em quando. Isto coloca-a à vontade e reforça a confiança dela em nós: a situação pode ser desagradável, mas «ela é que manda» e estabelece todos os limites.

Claro que isto é desagradável para nós, mas devemos sempre ter em mente qual é a alternativa: fim da relação, discussões constantes, chantagem emocional, etc. Se pudermos evitar tudo isso com umas regras simples, pode valer a pena.

Na situação mais vulgar, tenta-se encontrar uma «zona de conforto». Podemos começar com o exemplo dos maridos que gostam de futebol. Elas, se não gostarem nem do futebol, nem do que está associado ao futebol (violência nas bancadas, compra de cachecóis e camisolas, noitadas com os amigos podres de bêbados, despesas com a cadeira cativa no estádio, uma TV maior para ver melhor a Sport TV, etc.), vão perceber muito bem o tipo de regras que podem impôr: por exemplo, crossdressing não mais do que uma vez por semana.

Também se pode limitar o local onde fazemos crossdressing. À excepção dos casos da aceitação total e da curiosidade, o mais frequente é limitar o crossdressing à casa, ou só a um quarto, ou a um local fora de casa específico e bem determinado. Isto tem a ver essencialmente com uma questão psicológica fundamental: elas não vão querer que as outras pessoas saibam, porque têm vergonha, ou têm receio de serem acusadas, de alguma forma, de que não sabem lidar com os maridos e/ou não os satisfazem, por isso é que eles se vestem de mulher. Mesmo que elas compreendam que não é por causa disso, sabem que os/as amigos/as, vizinhos e família não vão perceber. Por isso vão insistir que não saiam de casa.

Nalguns casos poder-se-á «negociar» que o crossdressing seja feito fora de casa, mas sempre em sítios que ninguém nos conheça. Pode ser em hotéis noutras cidades, em férias, ou em viagens de negócio.

Se há crianças no casal, é importante saber o que lhes dizer — ou o que lhes ocultar. As crianças são curiosas e mais cedo ou mais tarde vão encontrar um par de maminhas de silicone e perguntar para que servem! Aqui eu não tenho experiência nenhuma, mas o que tenho lido é que a revelação depende muito da idade das crianças. Quando são bebés obviamente que não notam nada. Quando são novinhas, acham piada a tudo, e para elas é como o Carnaval — aceitarão perfeitamente que o «pai se vista de mãe», porque é o tipo de brincadeiras que acham normal e divertido de fazer. O problema começa na adolescência, em que estão muito preocupadas com a própria sexualidade, muito inseguras, cheias de ideias erradas e de preconceitos, e nessa fase, é melhor não dizer nada, e ter a certeza que os armários com os nossos acessórios femininos estão bem trancados. Se são adultas, e já não têm qualquer insegurança quanto à sua própria sexualidade, pode haver a opção de lhes contar ou não, mas muito provavelmente não será necessário. Se já nem sequer viverem em casa é que não vale mesmo a pena contar nada! (A excepção, claro está, é se pretendemos efectuar a transição, mas isso é outra história completamente diferente e não tenho qualquer experiência nessa área).

Mas será normal, numa fase inicial, estabelecer a regra «nunca à frente das crianças».

Insatisfação

Numa situação ideal, cultivaríamos a arte do contentamento. Estabelecemos umas regras, a relação continuará sólida, agora podemos vestirmo-nos dentro dos limites impostos, e tudo estaria bem assim.

Infelizmente, não há nada que seja «sólido e seguro para sempre». O crossdressing é um caso em que isto é especialmente verdade.

À medida que vamos adquirindo confiança na forma como nos arranjamos — quando começamos a perceber que roupas é que nos servem melhor, quando a nossa técnica de maquilhagem começa a aperfeiçoar-se, etc. — o desejo de nos vestirmos «mais e mais» vai crescer e tornar-se cada vez mais imperativo. Se estabelecemos a regra «uma vez por mês», vamos sofrer atrozmente até que chegue o tal dia, e se por acaso acontecer alguma coisa (uma visita inesperada da sogra, uma gripe que nos leva à cama…), vai ser uma frustração terrível. Vamos estar a riscar os dias do calendário até que chegue o Dia D. Eu sei que é assim porque estou constantemente a pensar nisso desta forma! Torna-se uma obsessão!

Numa fase inicial, não há alternativa senão sermos pacientes. A nossa mulher tem que se habituar à ideia. Depois, com o tempo — e falo de meses, não de dias! — vamos ter de estar constantemente a renegociar as regras. Isto vai ser muito complicado de estabelecer, porque todos temos a tendência habitual de não gostar que as coisas mudem, e tentamos mantê-las «tal como estão» para sempre.

Se fazemos crossdressing muito ocasionalmente, e sempre às escondidas e à pressa, então o sentimento de finalmente o podermos fazer no conforto da nossa casas, durante o tempo todo que quisermos, e com o consentimento da nossa mulher, é uma sensação de prazer indiscritível. Naturalmente, vamos querer prolongar isso mais e mais. Vamos querer que os intervalos entre sessões sejam mais curtos. Se estamos autorizados a vestirmo-nos durante 2 horas, queremos 4, ou 6, ou mesmo o dia todo. E à medida que nos vamos arranjando mais e mais vezes, queremos mais e mais.

E depois queremos sair à noite com amigas, queremos fazer férias com elas (ou com a nossa mulher, mas estando nós também sempre vestidas de mulher…), e assim por diante.

Gerir isto é complicado, e vão sempre haver novas barreiras e novos limites. Até que um dia chegaremos ao limite final, a partir do qual ela não nos deixará ir mais longe. Temos de estar preparadas para o dia em que isso acontecer, e contentarmo-nos com o bom que temos (comparado com outras crossdressers!), mas isso não é nada fácil. No entanto, na maioria dos casos, haverá sempre um limite último, e vamos ter de o enfrentar. As boas notícias é que poderemos levar muitas semanas e meses a atingir esse limite, e assim podemos nos ir habituando à ideia.

O ciúme

Gostaria de falar sobre um aspecto que muitas vezes é completamente negligenciado nos textos que se lêem sobre a forma de lidar com a parceira. Não acontece em todos os casos, mas, se acontecer, é bom que estejamos preparadas para isso, e ter uma solução.

Vou primeiro dar um exemplo de um casal com o qual conversei online. Trata-se de um dos raros casos em que não só existe uma plena aceitação por parte da mulher, mas também há curiosidade e até encorajamento! São duas pessoas que vivem juntas há décadas, com filhos já adultos, e que se dão lindamente; ele recentemente se revelou como crossdresser. Curiosamente, quando ambos estão arranjadinhos, são bastante parecidos fisicamente, o que tem a sua piada!

Ela ajuda-o a escolher a roupa, ajuda-o a arranjar-se mas… ao ver que o marido aprecia tanto arranjar-se bem, ela passou a fazê-lo também. Não sendo uma beldade deslumbrante (claro que aos olhos do marido é a pessoa mais bela do mundo!), chegou contudo àquele ponto em que «não vale a pena fazer o esforço», que é muito triste quando acontece na vida de uma mulher.

Mas ao ver que o marido se arranja tão bem para sair, ela voltou a ganhar o gosto por se arranjar! E delicia-se ao ver os resultados do «trabalho» dela, que são tão encorajadores. Ela ganhou auto-estima ao saber que consegue fazer um bom trabalho com o marido, e que ainda consegue também ter uma excelente apresentação e bom gosto, apesar de, como disse, não ser de uma beleza tipo apresentadora de TV. Mas fica lindíssima toda arranjada! Tal como o marido!

O crossdressing dele passou a ser não meramente uma «condição» que ela «tolera», mas arranjarem-se os dois para sair passou a ser um «projecto comum», algo que ambos adoram fazer em conjunto, e que se complementam e entre-ajudam mutuamente. Vão juntos ao shopping fazer as compras para ambos; vão juntos às festas e jantares de crossdressers, muitos dos quais também trazem as respectivas esposas.

São, pois, o exemplo ideal! No caso deles, não se trata de sissification, mas meramente duas mulheres, uma com os genes errados, que adoram sentir-se elegantes e femininas, e que (re)descobriram esse prazer em conjunto. Há vários casos assim, não são raridades… mas tendem a ser excepções.

O que acontece muitas vezes — e isto é especialmente verdade com a idade, porque os homens envelhecem de forma diferente das mulheres — é que «eles» por vezes têm uma boa figura, e com um pouco de «arranjo», ficam umas mulheres deslumbrantes. Usando alguns «acessórios» — como um corpete de boa qualidade e uma deliciosa cabeleira full lace — conseguem dar uma imagem de uma mulher elegante, sofisticada, e com excelente apresentação. Podem ter a tendência de usar roupas sexy ou elegantes, e como só se vestem ocasionalmente, estão arranjadinhas como se fossem para uma festa.

Ora algumas mulheres levam isto a mal. A início, quando não sabemos que roupas nos ficam bem, quando ainda não aprendemos a maquilharmo-nos devidamente, e o que metemos na cabeça é uma peruca de Carnaval, ficamos com um aspecto medonho, de meter medo ao susto, e não impressionamos ninguém. No entanto, como estamos confinadas à segurança e privacidade das nossas casas, também não faz mal.

Mas o nosso aspecto vai melhorando com a prática. Em Portugal só as gerações muito novas é que se estão a começar a habituar a arranjar-se para saír à noite, e fazem-no talvez uma vez por semana. Uma mulher que tenha 35 anos ou mais faz parte de uma geração que nunca se arranjava (foram modas de outros tempos). E agora o que vêem é um marido que está sempre a arranjar-se maravilhosamente, e que, com o tempo que passa, cada vez tem melhor aspecto. Da roupa de drag queen que assenta mal e que é substituída por uma peça de roupa moderna, à barriga que desaparece no corpete, ao aprender a andar de saltos altos sem hesitar, ao abandonar dos acessórios trashy para substitui-los por toques requintados de elegância, à maquilhagem «de palhaço de circo» que passa a ser imperceptível e que parece natural, sabendo realçar o que têm de bom e disfarçar o que não presta… eles vão melhorando as suas técnicas, vão tendo cada vez melhor aspecto, e cada vez se parecem mais com mulheres elegantes, sofisticadas, muito à vontade na roupa que usam e no comportamento que adoptam.

Aqui, uma mulher com baixa auto-estima de repente vê-se a competir com o próprio marido! E isto faz-lhe confusão. Quando namoravam, era natural que «competisse» com outras mulheres, até «agarrar» o marido. Mas se a revelação surge muito depois, é possível que já nem se lembrem de como «competiam». Até podem voltar a usar maquilhagem um dia ou outro, ou pintar as unhas, mas subitamente reparam que o marido faz isso muito melhor do que elas. Resmungam e protestam que não podem usar saias ou vestidos porque estão cheias de pelos nas pernas e sem vontade de os arrancar, mas notam que o marido diligentemente se rapa todinho e nunca tem um pêlo — e que não protesta nem resmunga, e que usa justamente vestidos e saias sempre que lhe apetece. Ah, e que ainda por cima tem muito melhores pernas! (os homens normalmente têm) E para estragar tudo, quando está todo arranjadinho, o marido é alto, de perna longa e de salto alto, talvez com corpetes e maminhas falsas dando-lhe uma figura invejável, e um cabelo impecável, da cor que lhe fica exactamente bem, que não se «estraga» e que fica sempre com um aspecto de que acabou de sair do cabeleireiro.

Em conclusão: as mulheres dos crossdressers podem subitamente ter ataques de ciúmes dos próprios maridos!

Isto tem repercussões. Primeiro, tentarão evitar que os maridos saiam, porque começam a reparar que «eles» têm muito melhor aspecto que «elas», e isso poderia suscitar comentários, mesmo entre crossdressers: «então tu arranjas-te assim tão bem e a tua mulher é uma desmazelada?»

O ciúme e a inveja são irracionais. Penso que neste caso ainda por cima há uma agravante: as mulheres normalmente são ciumentas de outras mulheres que pensam poder-lhe «roubar» o marido que têm. Não estão habituadas a «competirem» com o próprio marido em termos de aspecto físico e aparência! Por isso vão lidar com isto muito mal.

A única coisa que conheço que vai ajudando a lidar com isto é fazer o que fez esse tal «casal maravilha» de que falei no início: encorajar a mulher a ela própria também se arranjar mais. Dizer-lhe que achamos muito bem que ela vá ao cabeleireiro e à manicure mais vezes. Não lhe negar que gaste o que quiser em maquilhagem, em sessões de depilação, e, claro, em roupa nova. Deixar que ela se arranje mais e melhor quando saiem à noite (mesmo que «ela» não deixe que «ele» saiaen femme). De vez em quando, nas nossas sessões de crossdressing, usar deliberadamente roupa mais casual e menos de «saída de noite», para ela ver que nós, se não nos arranjarmos, também ficamos horríveis e que não estamos a «competir». Mas isto nem sempre funciona. Pode, por vezes, ser necessário que as nossas sessões sejam feitas num sítio diferente do de casa, para que ela não nos veja e não sinta ciúmes.

O que é importante neste processo é fazer-lhe ver que, para nós, arranjarmo-nos é uma necessidade (mesmo que nos dê prazer!) porque sem nos arranjarmos parecemos «bichos do mato»; enquanto que elas são naturalmente belas e deslumbrantes mesmo sem se arranjarem. Isto significa prestar muito mais atenção ao que ela veste e como se arranja, mesmo que seja de forma mais desmazelada, e estar constantemente a elogiar as suas escolhas: «esse par de calças fica-te mesmo bem» ou «adorei como a cabeleireira te arranjou o cabelo desta vez», «tens razão: esse tipo de cores fica-te muito melhor, dá-te um ar mais jovem», etc.

Sexo fora do casamento

Deixo para o final aquilo que é a coisa de longe mais difícil de lidar. Como é algo que não me preocupa, não tenho experiência pessoal nenhuma a lidar com esta situação, e infelizmente só posso fazer relatos «em segunda mão» dos exemplos que me contam.

Quando se vão ler sites e livros sobre «maridos crossdressers», especialmente quando escritos pelas esposas, vamos rapidamente notar um padrão comum: todos os casos, sem excepção, tratam de crossdressers não-fetichistas, ou seja, para os quais a questão sexual não é importante.

No entanto, diz-nos a literatura académica que estes são os casos menos frequentes (não quer dizer que sejam poucos, quer dizer que não são a maioria). Na realidade, a maior parte das crossdressers diz que só se sente «plenamente mulher» se tiverem sexo com homens (ou, se tiverem uma tendência lésbica, podem desejar ter sexo com mulheres enquanto estiverem vestidas, ou sexo com outras crossdressers ou transexuais em transição ou após transição). A literatura mostra que existe um diagnóstico de hipersexualidade em quase todas as crossdressers fetichistas: para elas tudo gira em torno do sexo, e o crossdressing é uma forma de intensificar esse prazer, ou, em muitos casos, a única forma de sentir prazer sexual.

No caso da sissification, o problema está resolvido: marido e mulher têm as fantasias complementares. Ele gosta de se vestir de mulher, ela quer ter sexo com homens que se vestem de mulheres. Mais uma vez, este é o caso que é sempre mais simples de resolver.

Se o casal já pratica o swinging ou a ménage à trois, também normalmente isto não causa qualquer problema: ela já está habituada a ter múltiplos parceiros, e existe uma certa abertura de espírito relativamente ao prazer na cama. Mesmo que ele diga que queira experimentar o sexo com homens, sem ela estar presente, isso provavelmente será tolerado (desde que ela possa fazer o mesmo!). Mas provavelmente ela até quererá ser voyeuse numa relação dessas, e até se empenhará a ajudar o marido na «transformação» para que seja o mais agradável possível para um terceiro parceiro masculino.

Estas são, contudo, excepções à regra. Desiludam-se que consigam, com a maioria das mulheres, tentar «encaixar» um «namorado» (ou vários) fora do casamento. Se já a questão de ter uma amante feminina não é tolerado pela quase totalidade das mulheres, muito pior será a noção de ter um amante masculino. Não há nenhuma mulher que queira ficar com um marido que tenha interesse em relações que, para ela, serão sempre homossexuais. Sentir-se-á profundamente ultrajada e imediatamente irá quebrar a relação.

Mas mesmo que tenhamos apenas a fantasia de termos sexo com a nossa mulher enquanto estamos vestidas também nós de mulher, não há garantias que «corra bem». Embora talvez tenham abertura de espírito para experimentar uma ou outra vez por piada, não o quererão fazer sempre. É que, ao contrário do que muitos homens pensam, a esmagadora maioria das mulheres tem nojo das lésbicas, e horror a que sejam vistas como sendo lésbicas. Ter sexo com uma pessoa que se parece com uma mulher está, pois, fora das fantasias delas, e será mesmo perturbador — ela irá questionar-se também quanto à sua própria sexualidade, e se nunca teve sexo com uma mulher antes (ou se teve e não gostou), irá rejeitar completamente a ideia. Mesmo que até aceite ir para a cama com o marido transvestido, uma ou outra vez, sentir-se-á suja e enojada, e não terá prazer nenhum nisso. Rapidamente irá pôr um ponto final na situação!

Totalmente impossível é justamente a ideia de ter um marido com um «amante masculino» (ou outra crossdresser). Para além de sentir profundamente os condicionamentos sociais, há o problema adicional de ficar com a ideia de que já não consegue satisfazer o seu marido — porque ele, no fundo, não gosta de mulheres. É muito difícil explicar a alguém que podemos sentir desejo sexual por um género quando estamos vestidos de certa forma, mas atracção por outro género quando nos vestimos de maneira diferente. Na experiência do dia-a-dia, as pessoas não mudam de preferências sexuais de género consoante a roupa que vestem, e isto será completamente incompreensível para a mulher, por maior abertura de espírito que tenha.

Pior que isso, mesmo que ela esteja disposta a ler imenso sobre o assunto, nunca vai ver estes casos expostos nos vários sites de apoio a mulheres de crossdressers. Conheci justamente um caso desses: um marido que, por volta dos 50 anos, revelou-se à mulher que era crossdresser. Ela era uma «curiosa»: a início estranhou, mas leu muito sobre o assunto, depois entusiasmou-se com a ideia e encorajou-o. Correspondíamo-nos frequentemente porque ela gostava de saber como é que as crossdressers pensam, mas apercebeu-se que eu era de um tipo diferente do marido. Este começou a querer ir a mais e mais festas, e chegou a um ponto em que ela, cansada, já não queria ir com ele. E rapidamente das festas e jantares se passou também ao sexo com outras crossdressers, sem ela estar presente, e ela já não sabia o que fazer para colocar um ponto final no assunto. Foi por esta altura que ela deixou de falar comigo, mas no seu último email fiquei com a distinta sensação que estava profundamente arrependida por ter entusiasmado tanto o marido, ao ponto deste deixar de ter interesse na relação com ela…

Este é um perigo bem real, e muito difícil de lidar. Como disse, fora os casos de fetiches complementares (sissificationswingingménage à trois), em que ambos os parceiros se divertem com imensas fantasias diferentes com múltiplos parceiros, não conheço nenhum caso de uma mulher numa relação heterossexual «banal» (vanilla, como dizem os anglo-saxónicos) que tenha «autorizado» o marido a ter sexo com terceiros — ainda por cima, com amantes que são legalmente masculinos (quer sejam crossdressers/transgénero ou não). Pode ser que existam casos destes em mulheres que vivam em profunda dependência e que sofram constantemente de chantagem emocional («se não me deixas ter sexo com homens, ponho-te na rua, e ficas sem dinheiro para sustentar as crianças»). Infelizmente este caso também é frequente. Mas tem um risco: é que, se houver um divórcio litigioso, elas vão dizer publicamente qual o tipo de «relações aberrantes» em que o marido se envolve.

Ora o cerne do sucesso de uma relação entre um marido crossdresser e uma mulher é que o segredo se mantenha dentro do casal. A partir do momento em que usamos a chantagem para obter o que quisermos, criamos o risco bem real da mulher revelar o nosso segredo a todo o mundo. Deixamos de ter controlo sobre isso. A início, ela, por vergonha, não vai dizer nada. Mas vai chegar o ponto de rotura. E quando isso acontecer, toda a gente vai saber: amigos, família, colegas de emprego.

Se não tivermos isto em atenção, corremos um sério risco!

Não sei como lidar com esta situação, e posso apenas dizer que nunca vi nenhum artigo a falar do assunto. Não há uma «receita mágica» para convencer a nossa mulher a deixar-nos ter sexo com homens, seja ocasionalmente, seja regularmente («ter um namorado»). Infelizmente, se se chegar a esse ponto, penso que não há nada mais a fazer senão acabar com a relação. Teremos de ver o que é mais importante para nós: sentirmo-nos «plenamente mulheres» e realizadas com o sexo com homens, ou abdicar do sexo fora do casamento e manter a relação com a nossa mulher. Isto é algo que só cada uma de nós pode responder por si própria.

O que posso dizer, isso sim, é que este caso é razoavelmente frequente. Nas crossdressers hipersexualizadas, que são a maioria, é muito frequente que terem sexo com um «amante» (masculino ou crossdresser/transgénero) seja uma experiência completamente arrebatadora, com a qual o sexo com a própria mulher não consegue competir. Se a relação com a mulher assenta essencialmente no sexo, e se se «esgotou» a imaginação para o que fazem juntos na cama, então é natural que, aos poucos, só o sexo com parceiros masculinos seja satisfatório, e, aos poucos, as razões para manterem a relação com a própria mulher — manter a família, educar as crianças, manter uma certa posição social, etc. — serão cada vez menos importantes. Mais uma vez: nessa situação mais vale quebrar a relação ainda numa fase de amizade, não vá ela, por vingança, contar tudo. Evidentemente que isto é mais fácil de dizer do que de fazer, e temos um pequeno ponto a nosso favor: é difícil para a maioria das pessoas aceitar que um casal «exemplar» rompa uma relação aparentemente duradoura porque a mulher diz que o marido a anda a enganar, vestindo roupas de mulher e tendo sexo com homens. Contar tudo requer muita coragem e ultrapassar uma enorme vergonha. Mas uma mulher vingativa (especialmente se tiver acesso a fotografias nossas!!) vai «engolir a vergonha» e poderá arrasar-nos completamente a vida.

Resta, pois, manter estas relações extra-matrimoniais em segredo. Ora o problema aí é que, mais cedo ou mais tarde, ela irá descobrir (ou pelo menos desconfiar). Aí de nada terá servido todo o nosso trabalho de angariar a confiança dela, pois será irremediavelmente perdida no momento da descoberta. Pelo que tenho lido, a maioria das mulheres reagirá muito pior à noção de terem um «amante masculino» do que à revelação de que são crossdressers. Isto porque o marido crossdresser pode ser uma coisa estranha, mas se por actos e palavras se conseguir explicar que em nada afecta a estabilidade e segurança da relação, acaba por ser tolerado. Um marido que tem relações extra-conjugais, seja de que forma forem, e por mais que sejam justificadas, está a minar os alicerces da relação, e a mulher terá de ver se vale a pena manter o «investimento» num marido que já não a considera sexualmente atractiva.

Há obviamente excepções… mas penso que não nos devemos agarrar a elas, dizendo: «espero que a minha mulher seja uma excepção!» Em vez disso, devemos assumir que a nossa mulher pensa exactamente como a maioria das mulheres, e prepararmo-nos para a reacção mais provável. Ou seja: não faz sentido termos «esperança» de que a nossa mulher não só aceite o nosso crossdressing, como também o desejo de ter amantes masculinos/crossdressers/transgénero. Se for para nós de tal forma insuportável a ideia de continuar a viver uma relação de hipocrisia, que já não nos pode satisfazer, e que queremos, isso sim, começar a desfrutar do prazer de sentir sexo «como uma mulher», mais vale ser-se sincero consigo próprio e preparar-se logo para terminar a relação.

Conclusões

Apesar do nosso receio quanto ao momento da revelação, penso que é importante ter a noção que, numa relação saudável entre marido e mulher, que seja assente em companheirismo e sinceridade, e no desejo mútuo de fazer o parceiro feliz, com projectos de vida em comum para além do sexo, das crianças, e do status social, então a probabilidade da mulher reagir bem à relação é elevadíssima. Não devemos ter a expectativa de que ela tenha a fantasia «complementar» (a não ser que o casal já há muitos anos pratique swinging ou ménage à trois), porque isso será raríssimo de acontecer. O mais provável é que ela, no melhor dos casos, fique curiosa. Normalmente terá aceitação ou tolerância — quase todos os casos caiem nestes dois tipos. Nalguns casos, haverá rejeição, mas sem quebra da relação — ela não quererá nunca mais ouvir falar do assunto, mas saberá que, fora da vista dela (e das crianças), nós poderemos nos vestir de mulher.

O caso da quebra da relação normalmente dá-se apenas em duas situações. A primeira, de longe a mais frequente, é que a relação é mantida artificialmente sem qualquer companheirismo, e a sinceridade nunca fez parte da mesma. Existiu essencialmente pressão social para o casamento, e um desejo de paixão inicial, que rapidamente ambos descobriram que esmoreceu. Usam-se os pretextos das crianças e da pressão social para manter uma relação que, na realidade, nunca o foi. Nestes casos, a revelação pode ser fatal para a relação. É possível, numa fase inicial, recorrer à chantagem emocional, mas vai chegar rapidamente a um ponto de rotura: nesse caso dá-se o divórcio litigioso em que toda a gente vai saber.

A segunda situação é quando o marido insiste que, para além do acto de se vestir de mulher, tem de ter relações extra-conjugais com outros homens/crossdressers/transgéneros, que o façam «sentir-se plenamente mulheres». Nenhuma relação vai resistir a isto, daí haver a tentação de ocultar esta faceta do crossdressing. Mas nesse caso estamos apenas a entrar num jogo de subterfúgios e enganos, que, mais cedo ou mais tarde, vão ser descobertos. E quando isso acontecer, a relação vai terminar — da pior forma possível.

Seja como for, as minhas principais recomendações são que se evite, a todo o custo, «ser-se apanhada», porque será muito difícil sair-se dessa situação (podemos imaginar como é que iríamos reagir se chegássemos a casa e encontrássemos a nossa mulher com outro homem na cama!). Em vez disso, devemos preparar com cuidado e rigor o «momento da revelação». Isso significa também estudarmos em detalhe a nossa companheira, perceber na realidade como ela pensa, qual a sua abertura de espírito, e com que facilidade aceita ler coisas sobre o assunto (ou ver documentários e filmes). Nunca poderemos ter a certeza absoluta de que tudo vai correr bem (no meu caso, eu não tinha confiança quase nenhuma!!), mas podemos preparamo-nos para o momento ideal, se assentarmos a nossa relação nos valores correctos: o companheirismo, a confiança, a sinceridade e honestidade, o hábito de conversar sobre problemas que afectam ambos (em vez de os «esconder» ou de os ignorar, por exemplo, substituindo-os por uma noite de sexo… uma atitude infelizmente muito comum). E depois teremos de estar preparadas para fazer muitas cedências e de «negociar» muitas regras e auto-limitações, e, por mais que nos custe, segui-las à risca: só assim poderemos ser merecedoras da confiança depositada em nós e continuar a desfrutar da nossa relação como dantes.

O engano, o segredo, a mentira, a chantagem emocional são as forças mais destruidoras de qualquer relação, seja em que circunstâncias for. Teremos de combater a tendência habitual que temos de ocultar tudo o que lhe possa ser desagradável e desconfortável. Se em vez disso tivermos o hábito de nos abrirmos com a nossa mulher, ela lidará com a situação tão bem como nós. Mas também não nos podemos esquecer que nós tivémos imenso tempo para lidar com o nosso próprio crossdressing, e tivémos apoio de amigas crossdressers, lemos muito sobre o assunto, sabemos que não somos «anormais», etc. e isto foi um processo que levou anos. Não podemos exigir que a nossa mulher faça tudo isso num só dia! Temos de lhe dar tempo para se habituar à ideia e de aprender a lidar com os seus próprios sentimentos relativamente ao nosso crossdressing. Como tudo na vida, mais vale dar pequenos passos e fazer as coisas devagarinho e bem feitas, do que precipitar tudo e ter expectativas irrealistas e deitar tudo a perder com a «urgência».

Espero que isto ajude alguém…

Nota final: Não sou psicóloga, nem socióloga, nem antropóloga, nem nada dessas coisas. As sugestões neste artigo representam apenas uma opinião, muitas vezes pouco fundamentada, mas que se baseia parcialmente na minha experiência pessoal, e na de outras pessoas que me contaram pelo que passaram. Há muitas lacunas no meu conhecimento. Há interpretações erradas que posso ter feito. Também podem haver algumas coisas que estejam completamente erradas. A única coisa que posso recomendar é que se aconselhem com profissionais que percebam do assunto antes de tomarem uma decisão que pode afectar a vossa vida.

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