Da fantasia à sinceridade total?

Quando andava nisto de webchats e assim há uns 15 anos atrás (sim, porque já existiam na altura, havia era muito pouca gente neles…), a noção de que os chats serviam apenas para o engate era uma novidade. As pessoas não pensavam nessas coisas; aliás, era uma maralha de putos imberbes que pouco ou nada tinham que fazer e que viam os chats como opção à TV. Ao menos estavam a comunicar com outras pessoas em vez de ficarem agarrados à consola, à TV, ou a outra coisa assim.

Nessa altura, inventavam-se histórias. Havia aquela regra antiga da Internet que não se perguntava nunca, jamais, em caso algum, quem é que as pessoas eram e o que faziam. Eram bons velhos tempos, de privacidade e anonimato, que sempre foram confortáveis para mim. Ninguém estava à espera de que enviássemos fotos, filmes, ou coisas assim. Nem sequer tínhamos páginas Web. Apenas conversávamos. Contávamos histórias uns aos outros. Algumas eram reais, outras eram fantasia; não interessava, tínhamos aprendido logo de início em “nunca confiar no que se lê na Internet”. E eu certamente não “confiava” em que dizia que eu era lindíssima ou inteligentíssima ou que o sonho deles era passar uma noite comigo. Fazia parte do “jogo”. Às vezes aconteciam coisas engraçadas; na maior parte das vezes sorríamos, não levávamos a sério, e estávamos prontos para a próxima vez.

Hoje em dia, a “Web social” mudou isso tudo. Curiosamente, há uns anitos, os jornalistas só falam de sexo na Internet, e os defensores da Internet insistiam que não, que isso era generalizar, que era apenas um grupo pequeno que estava interessado nisso, mas que a esmagadora maioria das pessoas andava mas é interessada noutras coisas bem mais importantes. E agora pergunto-me a mim mesma se no fundo não tinham razão.

Todos os sites que em que me tenho inscrito partem do mesmo pressuposto: as pessoas que estão lá colocam imagens e vídeos porque andam à procura de alguém. Não interessa se são virgens e procuram a “primeira vez”; se são solteiros e querem deixar de o ser; se são divorciados e sofrem porque perderam o conforto da vida a dois; se são casados e procuram algo fora do casamento; se têm fetiches e querem companheiros para o fetiche. A “Web social”, especialmente a que tem imagens e vídeos, é um espaço de encontros, onde as pessoas que participam nela “vendem o seu peixe” qual mercado de escravos do século XVI e colocam-se, visíveis para todos, no seu pedestal, “concorrendo” para atrairem o maior número de contactos potenciais possíveis. E depois faz-se uma selecção dos que gostamos mais, e vamos à procura deles. Se falhar, há sempre mais sites, mais pessoas disponíveis. Procurar um parceiro sexual na Net é fácil. Andam por aí todos desesperados.

Há uma vertente da “Web social” — a que não tem fotos nem vídeos!… — que não é assim. São os blogs, os foruns, os sites de informação (sobre todo o tipo de informação). Mas é pena que assim seja. O Netlog também tem blogs (estou a escrever num!) mas ninguém os lê. Quem cá anda pelos vistos quer apenas contactos para parceiros sexuais. E andam desesperados!…

Assim, mudei um pouco a minha atitude. Em vez de “contar histórias”, resolvi também meter as minhas fotos, e links para os meus interesses, os meus fetiches, e as minhas fantasias. E explicar que não ando à procura de ninguém para partilhar o meu leito — já estou comprometida e muito feliz, obrigada! — mas apenas de gente interessante com quem conversar. Felizmente ainda os há um pouco por todo o lado, mesmo que sejam pouquinhos.

A política da “sinceridade total” tem uma vantagem e uma desvantagem. A vantagem, claro está, é que as pessoas lêem tudo o que querem saber sobre uma pessoa e desaparecem num instante; farão o seu juízo baseado no que leram. Se estão à procura de sexo com alguém descompremetido (ou que não se importa de dar facadinhas no matrimónio…), e no perfil eu disser logo claramente que não estou minimamente disponível para isso, vão ser eliminadas imediatamente pessoas que só estão interessadas em sexo e mais nada. Óptimo! A desvantagem, claro está, é que essas mesmas pessoas poderão ser na realidade interessantíssimas, mas que farão o seu pré-juízo e nem sequer me contactam, logo nunca terei oportunidade para as conhecer e conversar com elas — independentemente de não ter interesse em dormir com elas.

É um dilema. Prefiro, para já, optar pela estratégia de explicar tudo logo bem explicadinho no início, com links e informação adicional, para não haver surpresas. Tenho feito isso um pouco por todo o lado onde me inscrevo. Agora, claro está, de nada me serve esta verborreia toda se as pessoas depois nunca lêem nada e se ficam pelas imagens e vídeos…

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