Conferência sobre questões transgénero: 14 e 15 de Junho de 2016


image006Já devia ter avisado antes… mas vai decorrer no Instituto de Ciências Sociais (U. Lisboa), no Auditório e na Sala Polivalente, uma conferência internacional sobre questões transgénero, organizado pelo projecto TRANSRIGHTS Europe, nos dias 14 e 15 de Junho de 2016 (sensivelmente das 9h30 às 20h00). Esta conferência reverte-se de particular interesse por tentar juntar todos os intervenientes na temática: começando pela própria população transgénero, passando pela ciência médica e ciências sociais que estudam o assunto, até ao activismo político.

A comunidade crossdresser e transgénero, que normalmente evita este tipo de coisas, foi especialmente convidada a participar pela Profª Drª Sofia Alboim, uma das coordenadoras da representação nacional neste projecto. Estando-se a falar imenso da invisibilidade da nossa comunidade, é esta justamente uma oportunidade para estar presente e mostrar que não só «existimos», como realmente precisamos de encontrar formas de combater a invisibilidade, e isto passa igualmente também por estabelecer contactos e forjar relações.

Infelizmente Portugal não é muito diferente dos restantes países ocidentais nesta questão de manter boas relações entre os vários tipos de agentes neste meio. A comunidade, invisível que é, estranha os académicos, desdenha os médicos, e desconfia das intenções dos activistas. As associações, por sua vez, nem sempre conseguem desempenhar o seu papel representativo da comunidade… porque não conseguem contactar com esta (que se mantém invisível e distante) e não a conseguem auscultar quanto às suas necessidades reais. Do lado dos médicos, estes são frequentemente meros agentes passivos: estão disponíveis quando finalmente alguém admite precisar de ajuda, mas não sabem como procurar aqueles que necessitam de apoio de forma proactiva. Finalmente, os académicos, de certa forma, e consoante a sua abordagem, podem servir de «elo de ligação» entre todos os grupos, mas muitas vezes as suas próprias intenções, por melhores que sejam, são mal compreendidas, de modo que a comunidade se afasta destes — e isto pode também fazer com que o próprio trabalho académico seja comprometido por falta de elementos que possam testemunhar a variedade e diversidade, incrivelmente complexa, de membros da nossa comunidade.

Não é fácil estabelecer estas «pontes». Prova disso é que uma grande parte deste tipo de actividades (congressos, seminários, workshops, apresentações…) frequentemente se destinam a um grupo-alvo muito específico. Podem ser académicos a falar entre si. Podem ser médicos a receber formação. Podem ser apresentações feitas no Parlamento ou a ministros da tutela com o objectivo de os sensibilizar para as questões trans*. Mas é raro, neste tipo de eventos, que a própria comunidade seja convidada a participar — afinal de contas, a parte mais interessada!

Esta conferência pode não ser a melhor solução encontrada até hoje… mas penso que seja um esforço notável. O programa, bastante extenso e com uma incrível quantidade de oradores nacionais e estrangeiros, reflecte a preocupação em apresentar o maior número de pessoas com backgrounds distintos e com interesses diferentes nesta área e colocá-los a falar uns com os outros. Prevêm-se uns intervalos extremamente interessantes, em que finalmente possamos nos conhecer uns aos outros — «objectos de estudo» com os seus estudiosos; activistas que lutam pelos direitos daqueles que nunca sequer dão a cara; médicos com os seus pacientes… e assim por diante.

Também não devemos criar um excesso de expectativas: não vamos transformar a sociedade de um dia para o outro só porque se está a conseguir sentar no mesmo espaço gente tão diversa em torno da temática trans*. Mas é com este tipo de pequenos primeiros passos que se constrói algo de mais interessante e de mais poderoso.

Também não tenho ilusões relativamente à maior parte das pessoas que vão ler estas linhas. Bem sei que a maioria estará a trabalhar, e que nem sequer terá tempo para aparecer ao cocktail de encerramento no dia 15. De entre as que até talvez possam aparecer, porque têm estes dias livres (ou podem tirar uma folga), a maioria não terá coragem de dar a cara — independentemente da forma como se apresentarem em público. Muitas irão decerto confessar-me, em privado, que «adoravam ir, mas…» Há sempre um «mas» para a maioria de nós, e na maior parte dos casos, esse «mas» na realidade tem mesmo muito boa razão de ser. «Adorava, mas a família…» «Adorava, mas os meus amigos/colegas de trabalho podiam reconhecer-me nas fotografias de grupo…» «Adorava, mas ainda não tenho coragem para aparecer numa coisa destas» (seja de homem ou de mulher). Algumas irão mais longe e dirão que «ninguém tem nada a ver com aquilo que faço em privado, e não faz sentido passar este tipo de coisas para discussão pública» ou mesmo «isto não serve para nada, é uma perda de tempo» ou ainda, em casos extremos: «só estão a chamar a atenção para uma coisa que mais valia ficar no segredo dos deuses em vez de ter tanta exposição pública!»

É tudo verdade. Mas também existe — felizmente! — entre algumas de vocês que estão a ler isto uma certa frustração de que «neste país não se faz nada», ou, até pelo contrário, um reconhecimento de que se faz até muita coisa, mas toda a gente anda de costas voltadas uns para os outros, cada qual na sua capelinha, e de nada vale estar a tentar falar com «os outros» porque «estes não nos compreendem de qualquer das formas e é uma perda de tempo falar com eles». Pois é, até pode ser. Mas na minha experiência pessoal, é a falar que a gente se entende.

Estarei lá com a plena consciência de que a maior parte das pessoas presente não concordará comigo em imensos aspectos. Tudo bem, ninguém vai lá com o objectivo de impôr as suas ideias aos restantes. Pelo contrário: vai-se lá com a intenção de expôr a opinião de cada um, de a debater, de trocar impressões, de ver o que existe de comum mas — mais importante ainda! — reconhecer o direito à diferença. Mas para isso é preciso que as pessoas se conheçam, que falem umas com as outras. Mesmo que ao final de dois dias ninguém tenha mudado um milímetro na sua maneira de pensar e de agir, não faz mal: não foi tempo perdido. Pelo menos ficou-se a saber como é que os «outros» pensam: em vez de nos deitarmos a imaginar e a especular sobre o que é que achamos que as outras pessoas pensam do assunto, podemos ouvir directamente as suas opiniões. E poderemos, claro, discordar em absoluto dessas opiniões. Mas pelo menos saberemos quais são. E isso é que é importante numa conferência deste tipo.

Para incentivar a participação na conferência, esta é completamente livre — não há, pois, obstáculo financeiro (ou outro qualquer) para a participação. No entanto, é de referir que, tratando-se de uma conferência internacional, as intervenções serão feitas em língua inglesa. E escusado será dizer que não existe «código de vestuário»: todos os participantes são livres de se apresentarem e expressarem da forma que considerarem mais adequada ou mais confortável, independentemente da sua identidade de género (ou qualquer outro critério).

Para qualquer informação sobre a conferência, podem contactar a organização pelo endereço de email [email protected].

A morada do local do evento é: Av. Prof. Aníbal de Bettencourt, 9 — 1600-189 Lisboa (é no campus da Universidade de Lisboa)

Espero ver algumas de vocês por lá 🙂

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