<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Mundo online &#8211; Sandra M. Lopes</title>
	<atom:link href="https://feminina.eu/pt-pt/category/mundo-online/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://feminina.eu</link>
	<description>Devaneios de uma crossdresser</description>
	<lastBuildDate>Tue, 26 May 2015 19:01:17 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-PT</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	

<image>
	<url>https://feminina.eu/wp-content/uploads/2019/12/cropped-Sandra-Bathroom-Portrait-December-2019-1024x1024-1-32x32.png</url>
	<title>Mundo online &#8211; Sandra M. Lopes</title>
	<link>https://feminina.eu</link>
	<width>32</width>
	<height>32</height>
</image> 
<site xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">30110657</site>	<item>
		<title>Estabelecendo uma ponte sobre o Atlântico</title>
		<link>https://feminina.eu/pt-pt/2015/05/26/estabelecendo-uma-ponte-sobre-o-atlantico/</link>
					<comments>https://feminina.eu/pt-pt/2015/05/26/estabelecendo-uma-ponte-sobre-o-atlantico/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sandra M. Lopes]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 26 May 2015 18:58:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Identidade de género]]></category>
		<category><![CDATA[Mundo online]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Campinas]]></category>
		<category><![CDATA[Sttefanne Camp]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://feminina.eu/?p=1595</guid>

					<description><![CDATA[Sttefanne Camp Saint Vincent é uma crossdresser brasileira que «conheci» (virtualmente) por puro acaso, pois ambas participamos no mesmo fórum, o Espartilho, que reune crossdressers portuguesas e brasileiras. Ao longo dos anos, acabei por conhecer um pouco melhor o trabalho da Sttefanne, como dinamizadora da comunidade local de crossdressers em Campinas (São Paulo), e fui [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><a href="https://www.facebook.com/sttefannecamp.saintvincent"><img decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-1597" src="https://feminina.eu/wp-content/uploads/2015/05/Sttefanne-Camp-152x300.jpg" alt="Sttefanne-Camp" width="152" height="300" srcset="https://feminina.eu/wp-content/uploads/2015/05/Sttefanne-Camp-152x300.jpg 152w, https://feminina.eu/wp-content/uploads/2015/05/Sttefanne-Camp.jpg 262w" sizes="(max-width: 152px) 100vw, 152px" /></a></p>
<p><a href="https://www.facebook.com/sttefannecamp.saintvincent" target="_blank">Sttefanne Camp Saint Vincent</a> é uma crossdresser brasileira que «conheci» (virtualmente) por puro acaso, pois ambas participamos no mesmo fórum, o <a href="http://espartilho.forumeiros.com/" target="_blank">Espartilho</a>, que reune crossdressers portuguesas e brasileiras. Ao longo dos anos, acabei por conhecer um pouco melhor o trabalho da Sttefanne, como dinamizadora da comunidade local de crossdressers em Campinas (São Paulo), e fui observando — à distância, claro! — o que ela tem feito para promover as actividades dos grupos em que participa, de como tem encorajado a participação, e o tipo de coisas que têm andado a fazer.</p>
<p>Talvez não seja muito surpreendente que vi imensas semelhanças com o tipo de coisas que fazemos também do lado de cá do Atlântico. Claro que há diferenças; tem de havê-las, nem que seja pela vastíssima dimensão da população brasileira e da extensão incomensurável do seu território <img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f642.png" alt="🙂" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /> E a verdade é que partilhamos de facto a mesma língua, mas há diferenças culturais — mais do que ambos os países «irmãos» pensam que existem!</p>
<p><span id="more-1595"></span></p>
<p>Felizmente há igualmente um respeito e uma admiração mútuos. E, apesar das diferenças, é importante olharmos para as semelhanças. A sociedade brasileira, como a portuguesa, está marcada pelos estigmas e preconceitos impostos por muitos séculos de catolicismo. Há falta de informação em ambos os lados do Atlântico sobre o que é o crossdressing (e mais importante, talvez, sobre o que não é). Em ambos os lados, são organizações de voluntári@s com boa capacidade de coordenação de pessoas que acabam por montar estas estruturas de apoio — geralmente sózinh@s, com muito esforço pessoal, sem apoios «institucionais» (ao contrário do que acontece nos países anglo-saxónicos e alguns países do norte da Europa, onde o Estado, as universidades, ou mesmo os municípios apoiam este tipo de iniciativas). Aqui somos muito parecidos: tanto brasileiros como portugueses estão habituados a terem de se «virar sozinhos» (usando uma expressão brasileira!), caso contrário, não vai haver ninguém que «organize» as coisas em nosso nome. Ou nos organizamos nós, ou não há organização. E quando @s voluntári@s mais activ@s desaparecem, as organizações deixam de existir. Ambos os países são muito semelhantes nesta mentalidade!</p>
<p>Coloquei, pois, à Sttef um desafio imenso: ter a enorme paciência de responder a uma entrevista vastíssima, de 16 longas perguntas, para nos dar a conhecer um pouco melhor o panorama crossdresser do Brasil e a sua experiência pessoal enquanto membro da comunidade. Obrigada, Sttef <img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f642.png" alt="🙂" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /> Bem sei que não foi fácil responder a tanta pergunta (é sempre mais fácil fazer as perguntas que escrever respostas!!), mas fico-te eternamente grata pela tua disponibilidade e paciência. Agora espero que possamos aprender alguma coisa com essa tua experiência!</p>
<p>Um dia, sabe-se lá, talvez possamos vir a organizar Eventos Transatlânticos entre Brasil e Portugal <img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f642.png" alt="🙂" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /> Afinal de contas, a barreira da língua não existe entre nós, e uma crossdresser é sempre uma crossdresser, seja onde for&#8230;</p>
<hr />
<p>1) Antes de tudo, obrigada por aceitares fazer esta entrevista! Já nos «conhecemos» (virtualmente) há alguns anos, mas é sempre bom percebermos um pouquinho mais sobre o que tu e as tuas amigas estão a fazer no Brasil. Antes de mais, o vosso grupo tem nome? Quando foi constituído? Em que cidade (ou cidades) é que têm uma presença? Qual é o contacto preferencial para quem queira saber mais sobre vocês? Como estão organizadas, existe uma direcção, um conselho de veteranas…? E se puderes dizer mais ou menos quantas pessoas já fazem parte do grupo, e quantas aparecem regularmente nas vossas actividades, seria bom!</p>
<p><em>Antes de mais nada, obrigada Sandra, é sempre uma honra ter a oportunidade de conhecer pessoas de outros locais.</em></p>
<p><em>Bom, historicamente, aqui no Brasil, já existiram alguns grupos mais organizados (os quais eu acompanhei), principalmente nas cidade de São Paulo (<a href="http://www.bccclub.com.br/" target="_blank">Brazilian Crossdressing Club</a>) e Curitiba (<a href="https://br.groups.yahoo.com/neo/groups/crossdresser_curitiba/info" target="_blank">Curitibanas</a>). O primeiro é basicamente um site e um grupo de umas 5-6 pessoas que alugam um apartamento na região central de SP, ao passo que o Grupo Curitibanas (que inclusive era um grupo de apoio) não está mais atuante. O de São Paulo existe há mais de 15 anos e o de Curitiba, quando eu o conheci, já tinha uns seis anos (acabou com aproximadamente 07 anos). Esses grupos tinham uma «estrutura organizacional», com uma parte administrativa (diretorias de eventos e financeiros) e o site (para informações rápidas). Entretanto, por seguirem uma lógica de «clube fechado», não prosperaram, e devido à ausência de novas lideranças, retrocederam em referência e número de pessoas&#8230; o de Curitiba, foi o que mais deixou influências positivas, visto ter uma nova visão de não ser tão restrito (grupo de apoio).</em></p>
<p><em>Em São Paulo, também, havia o <a href="http://www.culturacd.com/2010/04/17-cross-day-no-studio-dudda-nandez.html" target="_blank">Studio Dudda Nandez</a>, que era um local onde podia se contratar os serviços para crossdressing. No caso, a pessoa ia ao local, alugava roupas, perucas (cabeleiras), acessórios e serviços (maquiagem, depilação), para se transformar (produzir) e, se necessário, tirar algumas fotos. Com o tempo, o local se tornou um «ponto de encontro» para as pessoas frequentadoras, que faziam um «Crossday», normalmente num sábado a tarde, dessa forma era possível uma pessoa se transformar, participar do encontro, conhecer outras crossdressers e ainda sair a noite :D. Entretanto, devido o lugar funcionar em um local alugado, e a dona do estabelecimento voltar a estudar (enfermagem), precisou fechar o local <img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f641.png" alt="🙁" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /> , mas algumas pessoas ainda fazem encontros em locais pré-determinados.</em></p>
<p><em>Atualmente, após passar por um momento «limbo», é verificada formações locais de grupos:</em></p>
<ul>
<li><em>São Paulo-SP: referenciado pela <a href="https://www.facebook.com/pages/Festa-Rainha-Cross/197276040436508" target="_blank">Festa Rainha Cross</a>, há quase dois anos está sendo o único evento crossdresser funcionando de forma regular no Brasil;</em></li>
<li><em>Campinas-SP: a partir de novembro/2014, a <a href="https://www.facebook.com/UpMusicBar" target="_blank">Up! Music Bar</a> abriu um espaço para as crossdressers, que envolve um camarim para trocas de roupas, maquiagem e banho, se tornando assim, além de um «Ponto de Encontro», o primeiro Clube de Crossdressing no Interior do Estado de SP. Não há eventos exclusivos para as crossdressers; entretanto, por ser um ambiente com predominância feminina (lésbicas), torna-se um local acolhedor para os grupos transgêneros. O ponto alto são as festas temáticas, que agregam a tod@s <img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f600.png" alt="😀" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /></em></li>
<li><em>Rio de Janeiro-RJ: foi um dos principais pontos de crossdressing no Brasil, entretanto se desfinhou&#8230; as poucas pessoas adeptas do crossdressing frequentam os Eventos BDSM e alguns Eventos voltados para Drag Queens. Esse ano estão se reorganizando.</em></li>
<li><em>Outras localidades: apenas tentativas de organização. Vários fatores, tais como tradição, distâncias, influências locais (São Paulo é a principal referência atualmente, dessa forma, quanto mais distante, menos influência).</em></li>
</ul>
<p><em>As participações em massa ainda são raras&#8230; as festas em SP, já chegaram a ter 60-70 pessoas, há 3-4 anos atrás, hoje é uma média de 15-20. Os encontros localizados fora de SP-SP, quando se organizam, variam (4-5 em Campinas), 2-3 (Rio de Janeiro) e mesmo assim, de forma muito variável. Podemos dizer que depois do ano de 2013-14 «voltamos à estaca zero», refazendo todo um trabalho de aproximação e esclarecimentos&#8230;</em></p>
<p>2) Quem se pode juntar ao grupo? Sei que no Brasil há uma grande separação entre crossdressers, travestis, e transexuais. Aceitam todos? E amig@s de crossdressers (que não são, el@s mesmos, crossdressers, mas respeitam-nos e não têm qualquer problema connosco)?</p>
<p><em>Esse foi outro entrave que encontramos nesse «reinício»&#8230; os grupos mais tradicionais de crossdressers se apegaram a rivalidades e começaram a fazer «divisões e subdivisões»&#8230; com isso, ao invés de se trabalhar ao que nos une, enfatizaram aquilo que desagregava. A visão de «clube fechado» extrapolava a questão de ser crossdresser, passando a haver barreiras adicionais, tais como idade, orientação sexual e formas de pensamento (ou seja haver o pensamento convicto de que o crossdressing é algo marginal).</em></p>
<p><em>Os novos grupos que surgiram, os quais vou deixar mais em evidência, já iniciaram com a mentalidade de «grupos transgêneros» ou seja, começar a ter a visão de um grande grupo com características comuns e focar nesse objetivo comum. Não vou negar que uma ou outra divergência (mesmo que velada) ainda ocorrem, mas com a nova geração, vários desses preconceitos do passado estão a se reduzir. </em></p>
<p><em>Outra observação se deve aos «de fora», no caso, pessoas que não são crossdressers ou transexuais&#8230; por conta dos atuais Eventos estarem em locais públicos, há uma tendência de que os frequentadores venham a nos conhecer, e reforço que boa parte da «nova geração» (pessoas com menos de 30 anos) ficam impressionadas conosco.</em></p>
<p>3) Vejo pelas tuas mensagens no Facebook que vocês fazem várias actividades: encontros, jantares, idas a bares, etc. Fala-nos um pouco do tipo de actividades que têm feito nos últimos meses. Como é que começaram?</p>
<p><em>Inicialmente, os eventos são programados de diversas formas&#8230; mas os que têm maior repercussão são as Festas em SP, esses locais são apresentados em uma entrevista que participei, eis os links:</em></p>
<ul>
<li><a href="https://www.youtube.com/watch?v=fv9rmAMj1Lc">youtube.com/watch?v=fv9rmAMj1Lc</a></li>
<li><em><a href="http://entretenimento.band.uol.com.br/aliga/episodio/100000678095/15005329/parte-3-%E2%80%93-homens-contam-sobre-o-preconceito-da-familia-com-o-crossdresser.html" target="_blank">http://entretenimento.band.uol.com.br/aliga/episodio/100000678095/15005329/parte-3-%E2%80%93-homens-contam-sobre-o-preconceito-da-familia-com-o-crossdresser.html</a></em></li>
</ul>
<p><em>Dessa forma, quem vai nesse eventos, faz amizade «real» com outras pessoas, que antes se conheciam apenas pela internet (Facebook, grupos, etc&#8230;)&#8230; a partir daí, depois de saber que a «pessoa existe» (não é um fake da internet), são marcadas saídas a restaurantes, bares ou danceterias que não fazem os Eventos Exclusivos Cross&#8230;</em></p>
<p><em>Entretanto, grupos que são um pouco mais fechados, as formas de comunicação são mais restritas, locais são divulgados no «no último minuto», e ainda pode haver uma seletividade para pessoas de dentro do próprio grupo em participar (tipo uma «seleção interna»).</em></p>
<p>4) Os locais onde fazem estas actividades são LGBT-friendly? Caso contrário, houve um contacto prévio com os donos dos estabelecimentos para vos deixarem lá ir? Como é que encontram estes locais? Eles também fazem divulgação das vossas actividades, ou a divulgação é só feita pelo próprio grupo?</p>
<p><em>No momento, os eventos são efetuados em locais LGBT-friendly justamente pelo conhecimento e tolerância às diversidades. Entretanto, em nichos específicos, tais como lojas de roupas, ou serviços que venham a ser utilizado pelas crossdressers, quando possível, tento fazer essa abertura com proprietários e/ou responsáveis.</em></p>
<p><em>Agora, pelo fato do local ser LGBT-friendly, não significa que conhecem o público crossdresser/transgênero. Com isso, há necessidades de tratamento como o local sendo «convencional», iniciando desde a explicação básica do «o que somos, gostamos, esperamos» até a questão das nossas necessidades e os «prós/contras» da escolha do local. De posse disso, é verificada a possibilidade de divulgar o nosso espaço, justamente para demonstrar às demais crossdressers que o local existe.</em><em> </em></p>
<p>5) Muitas meninas não podem sair de casa vestidas de mulher (pelas mais diversas razões). Estes espaços também têm disponibilidade para se vestirem? As «veteranas» ajudam os novos membros a arranjarem-se, a tratarem da maquiagem, etc.? Quem não tenha sequer roupa pode também participar?</p>
<p><em>Bom. Desde o início, uma das necessidades que sempre observei foi essa «área de suporte». Quando consultada pelos demais grupos, sempre recomendei essa área, pois é observado não somente a situação da pessoa sair vestida de casa, mas tem questões de deslocamentos e transporte.</em></p>
<p>6) Muitas de nós são heterosexuais e casadas. Nestes espaços as esposas/namoradas também podem vir e participar das actividades? E amigos e convidados?</p>
<p><em>Sim. Do momento em que estamos passando por «divulgação», é muito melhor que pessoas próximas (familiares) e amizades (simpatizantes) estejam próximos&#8230; caso contrário, pode vir parecer uma «confraria» ou «seita secreta».</em></p>
<p>7) Sei que um problema — se não o principal problema! — tem a ver com a segurança, a privacidade, a discrição. Como fazem para seleccionar os novos membros? Têm de preencher um inquérito? Há entrevistas pessoais antes de um membro ser admitido?</p>
<p><em>Conforme citei anteriormente, os grupos que fizeram um tipo de seleção (como se fossem clubes fechados) não deram certo&#8230; o que está ocorrendo no momento é algo do tipo «a pessoa que converso no Facebook existe, é real&#8230; dessa forma posso combinar estar no próximo evento&#8230;».</em></p>
<p><em>Uma «sistemática» que está ocorrendo é a seguinte: uma ou duas pessoas foram a um evento e tiramos fotos&#8230; por exemplo, a Sttefanne, a «menin@ A» e a «menin@ B»&#8230; em outro dia, a Sttefanne não está presente, mas estão a «menin@ A» e a «menin@ B», e vai uma «menin@ C» que viu a foto do Evento passado (por exemplo num site ou no Facebook)&#8230; por ser um local público, sabe que tanto o local, quanto as pessoas são reais e quem está ali, está para se divertir e conhecer pessoas. Dessa forma, quando eu contactar as «menin@ A» e a «menin@ B», me falam da «menin@ C»&#8230; com isso, a «rede social» funciona dentro e fora da internet.</em></p>
<p>8) Todas as actividades estão abertas a todos os membros? Ou existe uma «hierarquia», com actividades para os membros mais recentes, e, à medida que vão ganhando confiança dentro do grupo, passam a estar disponíveis outras actividades?</p>
<p><em>No formato atual, não há hierarquia&#8230; o que percebo são referências — gosto do estilo da a «menin@ A» por causa do tipo de maquiagem ou da «menin@ B» por causa do estilo de roupas — e assim vai. Outra referência que observo, é em relação ao carisma, quanto mais simpática e amistosa, mais ocorre a divulgação do crossdressing por ela.</em></p>
<p><em> </em>9) Se tiverem contactos de crossdressers de outras cidades (ou mesmo países!) que vos queiram visitar, como lidam com a situação? Pode ser complicado se não conhecerem a pessoa de lado nenhum, certo? Por outro lado, acredito que hajam crossdressers em férias e/ou em viagens de negócio que pretendem, na vossa cidade, saír com outras crossdressers em segurança… como lidam com isto?</p>
<p><em>Particularmente, a forma mais prática e segura é marcar em um local público (normalmente shopping ou restaurante), pode ser «de homens», uma vez que estando vestidas é mais fácil em Eventos. A pessoa não precisa passar telefone ou <a href="https://www.whatsapp.com/" target="_blank">WhatsApp</a>, uma vez que depende do grau de confiança existente, entretanto, o <a href="https://www.facebook.com/mobile/" target="_blank">Facebook Mobile</a> é uma ferramenta que auxilia nesse momento.</em></p>
<p>10) O vosso grupo tem um manifesto, ou um código de ética/conduta, que todos os membros tenham de seguir? Podes falar um pouco sobre isto? Quando as pessoas não respeitam as regras, o que lhes acontece? A decisão de expulsão é tomada por quem?</p>
<p><em>Os grupos fechados citados no início, possuíam um conjunto de Regras em seus site. Entretanto, regras gerais sofrem muitas interpretações pessoais divergentes que podem se tornarem injustas. No caso esses grupos possuíam «comissões de ética» que «julgavam» os casos de irregularidades regimentais.</em></p>
<p><em> </em><em>Atualmente, nos grupos abertos, há tempo de se conhecer as pessoas, e como não há hierarquia ou regras engessadas, o bom senso e o clima de amizade é o principal balizador atualmente. Divergências pessoais (ideias), podem ocorrer, pois é como se fossem pessoas que sentam em um sofá pra tomar café e conversar sobre determinado assunto, só que o assunto é o Crossdressing.</em></p>
<p>11) E no meio online? Por exemplo, há regras para as fotografias que os membros publicam? Ou o tipo de conversa que têm em público? Estou a pensar justamente nos casos mais complicados, que é alguém tentar entrar para o grupo apenas com o objectivo de encontrar parceir@s sexuais. Como fazem nessa situação?</p>
<p><em>Infelizmente, na internet há vários grupos principalmente no Facebook, onde há de tudo, com e sem regras&#8230; entretanto, assim como em Portugal há o Fórum com a temática crossdressing, o <a href="http://espartilho.forumeiros.com/" target="_blank">Espartilho</a>, no Brasil temos o <a href="http://crossdressingplace.forumbrasil.net/" target="_blank">Crossdressing Place</a>. No caso de fórum, por ser algo «mais técnico», a visão de conotação sexual tende a se restringir no grupos do Facebook, primeiro pela facilidade de postar fotos, segundo pelas dificuldades de moderação e terceiro, pelos assuntos envolvidos, onde nos fórum o importante é a troca de conhecimento.</em></p>
<p><em>Eu mesma auxilio no Fórum aqui no Brasil e posso dizer que foram poucos os casos onde a Moderação precisou intervir.</em></p>
<p>12) Realizam encontros e actividades com outros grupos semelhantes no Brasil? Pergunto isto, claro, porque talvez um dia se possa fazer um encontro mesmo com um grupo em Portugal (apesar da distância dificultar tudo!). Como veriam esse tipo de colaboração?</p>
<p><em>Por estarmos «começando tudo de novo», já trabalhamos com essa possibilidade. Em praticamente todos os locais do nosso território, os problemas enfrentados por nós são os mesmos (ausência de locais, medo das crossdressers em conhecer outras da mesma localidade/região, reduzida informação ou fontes de informações confiáveis sobre o crossdressing e distância de onde ocorrem os Eventos de maior influência, tais como São Paulo). </em></p>
<p><em>Dessa forma, com o auxilio da internet (Facebook e fórum), tentamos manter contato com pessoas das mais diversas localidade e sempre trabalhando com a possibilidade de conhecer pessoalmente. Entretanto, ainda passamos por provas de «tentativas e erros», uma vez que nem sempre sai conforme combinado, pois uma pessoa vai depender da agenda de outra.</em></p>
<p><em>Vou dar um exemplo: a maior parte dos vôos no Brasil passam por São Paulo, assim como boa parte das empresas estão lá&#8230; se uma pessoa vem a trabalho, podem ocorrer limitações para ela viajar a Campinas, onde estou. Caso essa passagem seja no meio da semana, não será possível contato em Eventos, que ocorrem no sábado&#8230;. e assim por diante.</em></p>
<p><em>Algo que costumo utilizar, mas só quando tenho certeza é, através do Fórum, ou de minha página no Facebook, de postar que «estarei tal período em tal lugar», e deu certo em vários casos.</em></p>
<p>13) Como pensam que o vosso grupo pode ajudar a explicar o fenómeno crossdresser em geral? Têm contactos com a comunicação social, com a polícia, com entidades como as câmaras municipais — ou é ainda muito cedo para isso? Fazem alguma divulgação sobre o crossdressing nos espaços onde realizam as actividades?</p>
<p><em>Bom, como «retornamos ao início», tivemos de «nos mostrar para o mundo», principalmente para pessoas dentro do círculo LGBT e jovem. </em></p>
<p><em>Particularmente, já fui procurada por estudantes secundaristas e de cursos técnicos (área de humanas), nos questionando sobre nosso modo de vida e nossa visão como «tribo urbana»&#8230; e isso me chamou muito a atenção, visto que fomos observadas por um ponto de vista que eu não havia pensado antes (tribo urbana, que têm uma certa lógica).</em></p>
<p><em>Diante desses fatos, observamos que, primeiro, temos de dizer o que somos/o que pretendemos/nossos interesses&#8230; nos conhecer (sim ainda somos muito isoladas/solitárias)&#8230; para depois sim, dar passos maiores.</em></p>
<p><em>Com isso, dentro do possível, tentamos divulgar eventos e/ou locais onde temos como um ponto de encontro, justamente para chamar a atenção, primeiramente, de outras crossdressers, depois de pessoas que nos conhecem e por último, as pessoas que tem curiosidade em saber o que somos.</em></p>
<p>14) Ajudam crossdressers que ainda estão numa fase de imensas dúvidas e hesitações? E lidam com problemas de casais em que a esposa pode não estar ainda bem informada sobre o crossdressing? Têm algum site com mais informação?</p>
<p><em>Depende&#8230; no Fórum Crossdressing Place, damos todo o apoio, informações, suporte a toda pessoa que busque conhecer sobre o crossdressing. Se algum membro vai a algum Evento, nem todos ainda possuem uma experiência necessária para dar esse apoio «ao vivo».</em></p>
<p><em>Em locais de Eventos, nem a pessoa deve possuir um mínimo de conhecimento, e nem sempre as esposas/companheiras compreendem essa necessidade de conhecer outras crossdressers.</em></p>
<p><em>Do outro lado&#8230; ainda não temos uma grande procura por parte das esposas, apesar de que, depois que o crossdressing ganhou um pouco de divulgação na TV, começaram a surgir consultas/questionamentos&#8230;</em></p>
<p><em>E as crossdressers, quando descobrem que há Fórum, locais e pessoas similares a elas, a sensação de isolamento ou solidão começa a reduzir.</em></p>
<p>15) Em geral, como vê a população brasileira as crossdressers? Há muita intolerância, ou depende de cidade para cidade, de bairro para bairro? Para as crossdressers que queiram visitar o Brasil e sair à noite, que recomendações farias?</p>
<p><em>De uma forma bem geral, ainda há muita falta de conhecimento da população brasileira em relação ao Crossdressing. Grande parta ainda vincula a questão da vestimenta com a pessoa, e no caso do crossdressing, a correlação com a Orientação Sexual ainda é grande, e talvez esse fator é o que mais causa incomodo às esposas/companheiras.</em></p>
<p><em> </em><em>Entretanto, nas cidades maiores, a tolerância torna-se maior justamente pelo maior grau cultural e menor grau da influência de setores mais tradicionais da sociedade. Mesmo assim, aqui no Brasil, temos como referência, a Cidade de São Paulo, como o local de maior tolerância e respeito às diversidades. Do momento em que vai se afastando, essa «escala» vai se reduzindo.</em></p>
<p><em>Especificamente para o crossdressing, São Paulo, além de ter locais com Eventos Crossdressers há mais tempo em atividade, a concentração de crossdressers também é grande. Então são fatores que colocam a cidade no maior grau da escala citada.</em></p>
<p><em>Cidades como <a href="http://www.campinas.sp.gov.br/" target="_blank">Campinas</a> (95 km de São Paulo) e Rio de Janeiro, por ações isoladas de algumas crossdressers, estão surgindo locais que acolhem as praticantes do Crossdressing.</em></p>
<p>16) E para terminar (que isto já vai muito longo!), queria só saber se podes falar um pouco mais sobre ti, para quem ainda não te conhece. Como começaste a fazer crossdressing?</p>
<p><em>Rsss&#8230;. parece incrível, mas comecei e exercer o crossdressing há pouco tempo, mais precisamente comecei em Junho de 2.011. Isso após descobrir que existia um «crossdressing service» na cidade de SP.</em></p>
<p><em>Antes disso, eu achava que sentia apenas uma admiração por sapatos de salto alto, mas que, com o tempo, a vontade de me «vestir completa» estava crescendo dentro de mim. Foi justamente para me conhecer mais, que procurei esse serviço, pois queria saber como eu ficava «em femme». Um detalhe nisso, é que minha esposa sempre soube que eu gostava de peças femininas (principalmente meias e sapato de salto alto), daí comentei com ela essa possibilidade de «eu me conhecer».</em></p>
<p><em>A partir dessa data, após o «nascimento» da Sttefanne, percebemos (eu e minha esposa) o quanto eu fiquei feliz, como se fosse uma terapia que me fizesse bem&#8230; a partir daí, comecei a observar outras pessoas que se descobriam no crossdressing e expressavam o mesmo sorriso. Ou seja, é uma das diversas formas de liberdade, ou de expressão&#8230; assim como para várias pessoas, a leitura, ou a prática de algum esporte é benéfico pra elas.</em></p>
<p><em>Profissionalmente, eu já trabalhava com pessoas, dessa forma, acreditei que poderia utilizar esse conhecimento para divulgar o crossdressing, e acrescentava muito o fato de eu ser casada, onde percebi gerar um certo grau de confiança nas pessoas que conversavam comigo.</em></p>
<p><em>Escrevi em um blog, sobre minha visão de ser crossdresser dentro de casa (Crossdressing em Família), e o equilíbrio crossdressing/casa/família/trabalho, artigos que começaram a dar uma visão mais otimista dentro do Crossdressing&#8230;. Depois disso, tentei conhecer os grupos «mais fechados», uma vez que eram as referências na época.</em></p>
<p><em>A partir daí, conheci mais pessoas que viam a necessidade de divulgar de forma mais ampla o crossdressing, onde me convidaram para auxiliar em um Fórum sobre a temática crossdressing (o Crossdressing Place), e que esse fórum viesse a ser uma ferramenta a mais para qualquer pessoa tirar dúvidas gerais&#8230; e por sorte deu certo e acabei conhecendo outras referências em vários países (inclusive «O Espartilho»).</em></p>
<p><em>Entretanto, apesar desse «trabalho desenvolvido», sou uma «pessoa comum», com suas virtudes e limitações, alegrias e tristezas pessoais, assim como qualquer pessoa&#8230; tanto que tento demonstrar isso em minha página do Facebook (isso quando tenho tempo, rs)&#8230;</em></p>
<p><em>Enfim&#8230; Espero ter conseguido ter passado um pouco do que ocorre no Brasil, ter contribuído para demonstrar às nossas irmãs do outro lado do Atlântico, o que está acontecendo por aqui&#8230;</em></p>
<p><em>Beijos&#8230; Sttefanne Camp, Campinas/SP – Brasil.</em></p>
<p><em><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter size-medium wp-image-1599" src="https://feminina.eu/wp-content/uploads/2015/05/Brasil-e-Portugal-Crossdresser-300x225.jpg" alt="Brasil-e-Portugal-Crossdresser" width="300" height="225" srcset="https://feminina.eu/wp-content/uploads/2015/05/Brasil-e-Portugal-Crossdresser-300x225.jpg 300w, https://feminina.eu/wp-content/uploads/2015/05/Brasil-e-Portugal-Crossdresser.jpg 800w" sizes="(max-width: 300px) 100vw, 300px" /></em></p>
<p>&nbsp;</p>
<hr />
<p><strong>Nota:</strong> As respostas da Sttef foram apenas ligeiramente editadas para se adaptarem melhor ao <em>layout</em> do meu blog. Corrigi uma ou outra pequena «gralha», mas mais nada! A maior diferença foi ter substituído a expressão <em>crosse</em> por <em>crossdresser</em>. Em Portugal também se está cada vez mais a popularizar a expressão <em>crosse</em> (até mais do que «CD»), mas queria manter uma certa consistência com o resto do meu blog, onde tendo a meter todos os termos técnicos por extenso e evitar o «jargão» da própria comunidade. Nós mesmo assim já somos muito complicadas de perceber pelo público em geral <img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f642.png" alt="🙂" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /></p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://feminina.eu/pt-pt/2015/05/26/estabelecendo-uma-ponte-sobre-o-atlantico/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">1595</post-id>	</item>
		<item>
		<title>Questões de privacidade no Google+</title>
		<link>https://feminina.eu/pt-pt/2013/12/31/questoes-de-privacidade-no-google/</link>
					<comments>https://feminina.eu/pt-pt/2013/12/31/questoes-de-privacidade-no-google/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sandra M. Lopes]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 31 Dec 2013 14:28:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo online]]></category>
		<category><![CDATA[google+ @pt-pt]]></category>
		<category><![CDATA[privacidade]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://feminina.eu/?p=928</guid>

					<description><![CDATA[O Google+ parece estar a «indexar demasiado» as minhas fotografias&#8230; Com isto quero dizer que, por estas terem sido tornadas públicas , passaram a aparecer por todo o lado, especialmente onde eu realmente não quero que apareçam — nomeadamente, fazendo com que o meu perfil apareça a conhecidos meus com uma sugestão para me adicionar [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>O Google+ parece estar a «indexar demasiado» as minhas fotografias&#8230; Com isto quero dizer que, por estas terem sido tornadas públicas , passaram a aparecer por todo o lado, especialmente onde eu realmente não quero que apareçam — nomeadamente, fazendo com que o meu perfil apareça a conhecidos meus com uma sugestão para me adicionar aos seus Círculos.</p>
<p>Isto é definitivamente algo que eu não quero que aconteça. O Google anda muito inteligente&#8230;</p>
<p>Então decidi tirar as minhas fotos do Google+ — como já tinha feito com o Facebook há uns tempos atrás — e deixá-las apenas em modo privado no Picasa. As fotos também vão aparecer aqui no meu site, que tem pouco tráfego e que praticamente é só visitado por pessoas que conheço&#8230;</p>
<p>Agora tenho que tentar limitar a forma como o YouTube e semelhantes coisas metem mensagens na minha <em>timeline</em> do Google+&#8230; ironicamente, há uns anos atrás eu queixava-me da confusa falta de privacidade do Facebook, mas o Google+ parece ser ainda pior! Basta dizer que não há nenhuma maneira de seleccionar todas as mensagens na <em>timeline</em> e marcá-las como privadas apenas para os amigos! É preciso eliminá-las manualmente, uma por uma&#8230;</p>
<p>As minhas desculpas pela confusão. A Internet a cada ano fica menos segura. *Suspiro*</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://feminina.eu/pt-pt/2013/12/31/questoes-de-privacidade-no-google/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">928</post-id>	</item>
		<item>
		<title>As dificuldades de manter uma comunidade activa</title>
		<link>https://feminina.eu/pt-pt/2012/12/17/as-dificuldades-de-manter-uma-comunidade-activa/</link>
					<comments>https://feminina.eu/pt-pt/2012/12/17/as-dificuldades-de-manter-uma-comunidade-activa/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sandra M. Lopes]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 17 Dec 2012 01:33:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo online]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[comunidade]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://feminina.eu/?p=659</guid>

					<description><![CDATA[Há uns meses atrás, escrevi um artigo sobre as comunidades de crossdressers e pessoas transgénero e as suas armadilhas. Neste queria fazer uma pequena perspectiva histórica do panorama das comunidades online em Portugal e da razão pela qual são tão importantes: como se trata de algo que, na maior parte das pessoas, requer absoluto secretismo [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Há uns meses atrás, escrevi <a href="https://feminina.eu/pt-pt/2012/04/09/as-comunidades-e-as-armadilhas/">um artigo sobre as comunidades de crossdressers e pessoas transgénero e as suas armadilhas</a>. Neste queria fazer uma pequena perspectiva histórica do panorama das comunidades online em Portugal e da razão pela qual são tão importantes: como se trata de algo que, na maior parte das pessoas, requer absoluto secretismo e muita discrição, assim como uma preservação do anonimato (na medida do possível), não há muitas formas de o fazer de forma segura, mas ao mesmo tempo também eficaz, em termos de apoio mútuo e convívio.</p>
<p>Em Portugal não há associações de crossdressers e pessoas transgénero com espaços próprios onde nós nos possamos deslocar, conversar um pouco, receber apoio, e assim por diante. Há, obviamente, bastantes grupos LGBT, que geralmente se focam mais no L e no G (e um pouco no B). O T, como digo sempre, está lá mais para efeitos decorativos do que para qualquer outra coisa. Instituições como a ILGA ou a Rede ExAequo, ou até as sedes de um certo partido político, são espaços onde a comunidade LGB se pode encontrar e organizar coisas em conjunto. São poucas, é certo, mas existem.</p>
<p>No caso das pessoas transgénero, ainda há algum apoio institucional a nível dos poucos hospitais que tratam do assunto, e profissionais de saúde que sabem lidar com a situação. Também são poucos, mas dada a revisão da lei, as coisas têm melhorado substancialmente. No entanto, não há — ainda — grupos de pessoas transgénero que possam dar apoio mútuo a quem esteja a passar pela transição, ou simplesmente com dificuldades em lidar com a sua situação, e que, para além do apoio clínico, gostariam de estar com outras pessoas que passaram pelo mesmo. Penso que a razão principal para isto não acontecer é o número de pessoas nestas condições ainda serem comparativamente poucas.</p>
<p>Mas nem todas as crossdressers querem ou precisam de apoio na transição; muitas, se não a esmagadora maioria (pelo menos pela definição!), aceitam a sua condição tal como é e não pretendem efectuar mudanças físicas. No entanto, querem desfrutar do prazer de adoptarem uma identidade do género oposto ao que nasceram, e exprimirem essa identidade da forma mais livre que lhes for permitido fazer.</p>
<p>Ora noutros países do mundo, em que o «fenómeno» é mais visível — não quero com isto dizer que hajam poucas crossdressers e pessoas transgénero em Portugal; quero dizer apenas que são muito mais «secretivas» — há vários sítios onde isso é possível. Em países como os Estados Unidos, Canadá, Austrália, ou mesmo em muitos países europeus, as principais cidades têm grupos de apoio, lojas especializadas, salões de beleza, e actividades quase constantes para as crossdressers interessadas. Nem é preciso ir muito longe: tudo isso e muito mais existe em Madrid, e nem é sequer um fenómeno novo.</p>
<p>Manter uma organização destas de pé é difícil. Requer tempo, capacidade de planeamento e organização, e algum custo financeiro. Também requer conforto na exposição pública: uma coisa é ser-se crossdresser «no armário», outra é ter uma loja que venda cabeleiras e corpetes com uma sala no interior onde as «meninas» se podem arranjar, encontrar, e conversar. Há quem o tenha feito: a Jó Bernardo foi um bom exemplo, e alegadamente há uma Escola para Crossdressers que também propõe um modelo semelhante. Mas é muito pouco e dificilmente acessível.</p>
<p>Por outro lado, há o comércio, estranhamente tolerante às necessidades das crossdressers. Bares e restaurantes <em>gay-friendly</em> normalmente toleram bem a presença de crossdressers. Há shows de transformismo em locais clássicos que existem há décadas. Há pessoas como a Gabriela Dee, a Daniela Sousa, a Susaninha, a Valéria Dark (entre outras!) que são incansáveis na sua busca por espaços públicos de lazer e restauração que não se incomodem com a presença de crossdressers. Há salões de estética, cabeleireiros e vendedores de cabeleiras, lojas de próteses mamárias, lojas de lingerie, etc. que são perfeitamente tolerantes para com um público muito «diferente» do usual (até a Seaside não tem problemas nenhuns com homens em busca de sapatos de senhora em números maiores que os habituais!). Portanto, embora talvez não existam «lojas para crossdressers» como é frequente noutras partes do mundo — <a href="http://www.burlesque-madrid.com/">até em Madrid</a>! — há, aqui e ali, comerciantes portugueses que apenas vêem as crossdressers e pessoas transgénero como parte do seu mercado. Um mercado de nicho, talvez, mas geralmente leais para com quem os trata bem.</p>
<p>Mas falta alguma interligação mais formal, mais institucional, entre a comunidade em si (as pessoas que se vestem, por várias razões, do género oposto); as organizadoras de eventos; e o comércio em geral.</p>
<p>Em vez disso, temos algumas comunidades online, com mais ou menos sucesso.</p>
<p>Poder-se-ia argumentar que hoje em dia, em que até cães e gatos têm perfis no Facebook, as redes sociais seriam o espaço privilegiado para a comunicação com a comunidade. Mas isso não é verdade. As grandes redes sociais — Facebook, Google+ — são particularmente aversas ao secretismo e anonimato dos seus participantes. Uma simples denúncia, dizendo que a pessoa X está a assumir uma identidade falsa, é o suficiente para essas redes sociais imediatamente banirem a pessoa em questão. Por outro lado, há excesso de partilha nessas redes sociais: nunca se sabe quem é que vai pegar numa fotografia nossa e espalhar para meio mundo, especialmente aquela parte do mundo conservador e intolerante que não queremos <em>mesmo</em> que saibam que somos pessoas transgénero. Infelizmente, estas redes sociais foram especialmente desenhadas para que a informação seja partilhada fora do controle dos utilizadores. O resultado é que utilizá-las requer aceitar um elevado grau de risco, que é bem real.</p>
<p>Outros serviços semelhantes (como o Smutvibes, para mencionar o pior que conheço&#8230;) apenas servem o propósito de encontrar parceiros sexuais disponíveis. Não são espaços de apoio, confraternização, ou de calendarização de eventos.</p>
<p>Em compensação, há obviamente alternativas muito mais discretas, como o fórum <a href="http://espartilho.forumeiros.com">Espartilho</a> ou o <a href="http://crossdressersemportugal.socialparody.com">Crossdressers em Portugal</a>. Aqui, como já tive ocasião de explicar, a entrada não é livre. Há que provar uma certa boa intenção e motivação em participar. Não são espaços para <em>voyeurs</em> ou «caçadores». E obviamente que, dentro dos limites possíveis, são discretos e conservam o anonimato. Por outro lado, são difíceis de encontrar por potenciais crossdressers, e, como tal, têm um número de membros comparativamente reduzido, comparado com a totalidade das crossdressers e pessoas transgénero portuguesas. Têm igualmente pouco alcance: dado o seu «secretismo», tão necessário ao seu bom funcionamento, não é fácil «espalhar a palavra» a toda a comunidade. Para além disso tudo, como em todos os grupos online deste tipo — assunto muito bem estudado pela ciência! — a maioria dos seus membros é pouco participativa, o que quer essencialmente dizer que há muito mais leitores do que escritores, e, de entre os membros mais activos, são poucos os que estão disponíveis para muitas actividades com exposição em público. O espaço online transmite uma sensação de segurança; o «mundo real» nem por isso.</p>
<h3>Uma caracterização da comunidade</h3>
<p><img decoding="async" class="alignleft size-medium wp-image-661" alt="Não basta o aspecto que temos..." src="https://feminina.eu/wp-content/uploads/2012/12/IMG_0923-e1355498130910-225x300.jpg" width="225" height="300" srcset="https://feminina.eu/wp-content/uploads/2012/12/IMG_0923-e1355498130910-225x300.jpg 225w, https://feminina.eu/wp-content/uploads/2012/12/IMG_0923-e1355498130910-768x1024.jpg 768w, https://feminina.eu/wp-content/uploads/2012/12/IMG_0923-e1355498130910.jpg 1200w" sizes="(max-width: 225px) 100vw, 225px" />Ora é difícil caracterizar a comunidade como um todo, porque se compõe de muitos tipos diferentes de pessoas, com motivações completamente antagónicas, tudo isto misturado na mesma classificação, «transgénero». Não é fácil.</p>
<p>Por um lado, temos os artistas de espectáculo de transformismo. São um nicho muito pequeno, mas que é talvez o socialmente mais aceite (basta ver o sucesso do <em>A Tua Cara Não me é Estranha</em>). Mas neste círculo tudo o que é preciso é promover o artista. O público interessado sabe onde ir para assistir ao espectáculo. E as artistas do transformismo encaram o mesmo como uma profissão artística — com uma audiência reduzida, é certo, mas muito apreciadora do espectáculo. Normalmente não há necessidade de muito mais, excepto, claro está, quando a carreira chega ao fim (por questões de idade, saúde, etc.) e as artistas de transformismo têm de pensar no que farão a seguir. Aqui não há grande apoio institucional&#8230;</p>
<p>Por outro lado, temos um grupo considerável de activistas políticos. São <em>normalmente</em> transsexuais em transição ou com a transição terminada, que, tendo normalmente uma educação superior, e fortes convicções políticas, colocam o seu tempo, energia, e trabalho à disposição da comunidade. Gravitam em torno dos poucos partidos que defendem os direitos LGBT e promovem marchas, manifestações, protestos, mais ou menos formais, reclamando certos direitos juntos dos nossos governantes. É graças a este grupo que temos a legislação que temos. No entanto, à semelhança do que acontece noutros países, ser-se activista requer enorme exposição pública. A esmagadora maioria das transsexuais, por exemplo, quer que a sociedade se «esqueça» do género com que nasceram; querem ser aceites plenamente com o género com que se identificam. Tornar-se activista é revelar o passado que pretendem ocultar para sempre. De forma semelhante, há poucas activistas que sejam «meramente» crossdressers, porque a exposição pública significa que todo o mundo saiba o que são. No Brasil, o caso talvez mais famoso seja o do autor de <em>cartoons</em> Laerte, que não só se revelou como crossdresser, como empenhou a sua fama na defesa dos direitos das crossdressers, tal como outr@s antes del@ o tinham feito para as transsexuais (por exemplo, a Roberta Close).</p>
<p>Por cá não conheço nenhuma activista que seja «meramente» crossdresser.</p>
<p>Depois temos, infelizmente, um grande número de profissionais do sexo. Digo «infelizmente» porque na esmagadora maioria dos casos (hesito em dizer «todos») não se trata de uma opção, mas de uma necessidade — é a escolha entre morrer de fome e a prostituição. Não quero dizer que não hajam excepções, mas serão decerto poucas. Ora infelizmente também para a sociedade em geral, que já por si só discrimina as prostitutas heterossexuais, no caso das prostitutas transgénero (heterossexuais ou não), a discriminação ainda é maior. Daí a associação imediata de que quem se veste com roupa do género oposto só pensa em sexo.</p>
<p>É que depois o grupo seguinte realmente está nesta categoria: sexo, sexo, e mais sexo. Penso que no nosso caso ainda é mais visível, porque «herdámos» do Estado Novo um estranho conceito de que um homem não era «maricas» se tivesse sexo anal com outro homem — desde que fosse activo e não passivo. Não sei se isto é comum a outras sociedades, mas, na do nosso país, temos isto bem «gravado» na mente das pessoas. Assim, não acho de forma alguma estranho que, hoje em dia, essas pessoas todas associem o acto sexual à roupa feminina. Dentro do grupo que a seguir descreverei, há sempre a discussão de quem é «uma verdadeira crossdresser» (como se isso existisse!), e este grupo — que usa roupa feminina para justificar o acto sexual — geralmente é olhado com suspeição pelo quarto grupo. Ainda por cima, é altamente provável que este seja, de facto, o maior grupo deles todos.</p>
<p>É também o grupo com uma vida mais facilitada. Por muito que custe a aceitar, a verdade é que praticamente tudo na Internet serve para o engate — e quando o objectivo é apenas encontrar um parceiro sexual, é muito fácil de consegui-lo pela Internet, seja qual for o site ou rede social que se use. Quer isto dizer que sempre que se pesquisa alguma coisa sobre crossdressing, é altamente provável que se encontre alguém que gosta de se masturbar com outro homem envergando umas cuequinhas de renda, e pouco mais. Haverão excepções, claro, mas posso dizer que 9 em cada 10 homens que me contactam nos sites por onde ando querem apenas sexo comigo, e, sabendo que sou crossdresser, assumem imediatamente que estou disponível para lhes satisfazer a vontade de terem sexo com alguém que lá no fundo é do mesmo género mas que parece não ser&#8230; o que é, alegadamente, fortemente excitante.</p>
<p>Pode parecer que esteja a ser um pouco depreciativa em relação a este grupo, mas não sou. O que queria dizer é que, para este grupo, de longe o maior, não é necessário mais nada do que já existe hoje em dia: uma facilidade enorme de encontrar parceiros sexuais para certas formas de fetiche menos usuais (mas mesmo assim fáceis de encontrar).</p>
<p>O quarto grupo é, de longe, o mais «complicado». É aquele em que a crossdresser já assumiu perante si mesma — e eventualmente perante alguns familiares e amigos — que o é, mas não está preparada para fazer o anúncio público a «todo o mundo», e, enquanto isso não acontece (o que pode nunca acontecer; na verdade, a esmagadora maioria nunca o fará), gostaria de trocar experiências com outras crossdressers que estão na mesma situação, estabelecer relações de amizade, combinar coisas em conjunto — no fundo, fazer uma «vida social normal» para o género cuja identidade adoptaram, sem sofrer de discriminação, por estarem junto com outras crossdressers que pensam da mesma forma. Claro que podemos discutir o que é uma «vida social normal» — que será diferente para cada pessoa — mas, regra geral, talvez possamos dizer que tem a ver com o acesso às actividades de grupo geralmente reservadas aos membros do género oposto. Isto inclui saídas em grupo, idas a restaurantes, bares, fazer compras em conjunto, ir à praia, tirar férias&#8230; são coisas banais, mas que se tornam «especiais» por serem feitas com um grupo de amigas com uma mentalidade semelhante.</p>
<p>É para este grupo que é necessário mais apoio e mais organização.</p>
<p>Poder-se-ia acrescentar um quinto grupo, o das «crossdressers não assumidas» — que em tempos tinham a designação «autoginecofílicas»: pessoas que geram forte entusiasmo à sua própria imagem femininizada. Este grupo precisa essencialmente de <em>informação</em>. Estão numa fase muito inicial de um processo de auto-descoberta — do qual algumas nunca saiem — e, ainda mais do que o quarto grupo, exigem discrição e um secretismo absoluto. Felizmente, graças à Internet, podem perfeitamente aceder a imensa informação disponível livremente sem qualquer registo. É pouco frequente que haja contacto entre este grupo e qualquer um dos outros; ao fazê-lo, uma pessoa autoginecofílica está a assumir que «há algo mais», e passa automaticamente para o quarto grupo. O resultado disto é que o tamanho e composição deste grupo é totalmente desconhecido. Mesmo o quarto grupo já requer muita «coragem» para responder a inquéritos e dizer a um investigador científico, mesmo que seja no mais completo anonimato, «sim, sou crossdresser».</p>
<h3>As necessidades da comunidade</h3>
<p>Ora recapitulando um pouco as necessidades de cada grupo:</p>
<ol>
<li>Promoção da sua actividade enquanto artista; preocupação com a fase posterior da vida em que já não poderá subir aos palcos. É principalmente neste segundo aspecto que precisam de mais apoio.</li>
<li>Todo o tipo de apoio social que lhes permita ter uma vida com dignidade saindo das ruas. Aqui o apoio tem de ser institucional, e, na ausência de instituições de caridade, terá de ser o Estado a suportar os custos e a organização para trazer a estas pessoas a dignidade que merecem.</li>
<li>Provavelmente não precisam mais nada do que a Internet tal como ela é hoje: um mecanismo gratuito e fácil de utilizar que permita o encontro discreto com parceiros sexuais com fetiches semelhantes ou complementares.</li>
<li>Precisam de uma organização que tenha vários objectivos:</li>
<li>Precisam de muita informação que possa ser consultada de forma segura e anónima. Já há bastante mas é preciso mais. É bom também pensar em melhor formação de psicólogos que possam vir a encontrar casos destes entre os seus pacientes (nomeadamente, entre os que procuram um especialista para lidar com a depressão).</li>
</ol>
<p>Evidentemente estes grupos não são «estanques», para além de ser possível haver indivíduos em mais do que uma categoria. Para pegar num exemplo, considero a Gabriela Dee como estando no grupo quatro, mas ela não tem qualquer problema em subir ao palco com a sua guitarra e dar um espectáculo: então talvez devesse estar, pelo menos, nos dois grupos. Há também muitos casos que estão nos dois primeiros grupos; e imensas meninas que estão no terceiro e quarto grupos. Como todas as tentativas de classificação, há muita fluidez. E a ordem na realidade não interessa muito. Apontei-a apenas por uma questão: a imagem que o público tem de nós.</p>
<p>Assim, no caso dos espectáculos transformistas, estes são apreciados e tolerados pela população em geral. Há imensos filmes onde surgem actores em <i>drag</i>. Embora a imagem no cinema seja normalmente pejorativa, o exemplo de <em>A Tua Cara Não me é Estranha</em> mostra como na televisão, em <em>prime time</em>, é perfeitamente possível colocar actores e cantores fazendo crossdressing que são universalmente aceites. Esta é actualmente a imagem principal do público: homens que se transvestem de mulheres são artistas de palco.</p>
<p>Em segunda linha existe a imagem da prostituição de rua (posso dizer que quando me comecei a vestir, ignorava por completo, na minha inocência, de que houvessem tantas!), que também chega aos <em>media</em>. Esta imagem é muito mais negativa, e também muito generalizada: homens que se vestem de mulheres servem só para sexo, seja a nível das ruas (grupo dois), seja a nível dos «encontros discretos» (grupo três). Aqui obviamente o público em geral faz uma enorme confusão entre fetichismo, orientação sexual, e transgenderismo.</p>
<p>E aqui termina, em geral, a ideia que as pessoas têm de nós. O grupo quatro só faz sentido ou a nível do Carnaval, ou a nível do sexo. A ideia de que um grupo de indivíduos que nasceram com o género masculino se vistam de mulheres e queiram ir tomar chá juntas e ficar à conversa (e mais nada do que conversa!) é totalmente alienígena para a esmagadora maioria da população; o público nem sequer tem conhecimento desta faceta da comunidade crossdresser. Mesmo «explicar» torna-se impossível: é demasiado «estranho». Mais depressa se entende o sado-masoquismo (uma forma muito mais <em>hard</em> de «desporto radical») ou outros comportamentos classificados infelizmente de «aberrantes» do que a actividade das crossdressers que se encontram para se divertir juntas como qualquer grupo de mulheres . E o grupo cinco, claro, desse nem se fala&#8230;</p>
<p>Ora olhando para este espectro, e conhecendo as limitações dos membros desta comunidade, há obviamente dificuldade em saber como agir. A aposta no activismo com grande exposição pública pessoal permite principalmente defender o direito à protecção e dignidade do grupo três, mas, claro, foi o que permitiu que a passagem do «mero» crossdressing à transição de género se tornasse legal e medicamente possível, de forma exemplar. No entanto requer justamente uma grande exposição pública sem recurso ao anonimato. Não é fácil. Entre as crossdressers, o normal é não quererem essa exposição pública; mas entre os indivíduos transgénero em transição, o que querem é viver a sua vida no género com o qual se identificam, e, quanto menos atrairem a atenção do público, melhor.</p>
<p>A promoção do transformismo enquanto forma de arte válida requer conhecimentos no meio — seja sendo-se dono de uma sala que permita este tipo de espectáculos, seja o conhecimento das agências de artistas, seja a direcção de programação de uma estação de televisão&#8230; ora parece-me que só o primeiro caso é que tem algumas possibilidades de funcionamento. No entanto hoje em dia há várias formas de promoção! Por exemplo, a Gabriela Dee (que me espero que perdoe por a estar sempre a referir como exemplo) podia perfeitamente ter um canal no YouTube e promover-se dessa forma, ou através de vídeos no Facebook, etc., e, se não tivesse capacidade técnica para o fazer, pedir ajuda dentro da comunidade. Isto acontece, em certa medida, lá fora. Digamos que é muito mais confortável a uma crossdresser pedir apoio, ou mesmo contratar serviços, a alguém que também seja crossdresser e que tenha os conhecimentos técnicos (ou outros) apropriados, do que expôr-se publicamente a terceiros para lhes contratar serviços.</p>
<p>Abrindo um parêntesis&#8230; a empresa <a href="http://www.amoena.pt/">Amoena</a>, que fabrica há um quarto de século das melhores próteses mamárias externas, desenhadas para mulheres que foram sujeitas a cirurgia para remover os seios por causa de cancro na mama, tem também <a href="http://amolux-world.com/">uma linha de próteses especificamente desenhadas para a comunidade transgénero</a>. Quando esta linha foi lançada, a casa-mãe enviou delegados para todas as suas filiais nos vários países do mundo para explicar este produto e o mercado a que se destina. Talvez de forma um pouco surpreendente para o público em geral, quem fez esta apresentação foi justamente uma crossdresser; o pequeno workshop terminou com uma visita a um bar <em>CD-friendly </em>ou sala de espectáculos de transformismo, onde o vendedor da Amoena encarregue de explicar o produto se vestiu de mulher a rigor, para alguma surpresa e espanto dos restantes colaboradores. Mas claro que depois todos compreenderam muito bem que esta é a solução que faz mais sentido: é evidente que uma crossdresser que trabalhe para a Amoena conhece muito melhor as necessidades do mercado — outras pessoas transgénero — do que alguém que «meramente leu sobre o assunto». Também, como é evidente, ajudou a desmistificar a imagem do crossdressing na mente dos colaboradores da Amoena — mostrou-se como são pessoas perfeitamente normais, equilibradas, divertidas, bem-dispostas, que gostam de se divertir como as outras, e que têm obviamente interesse em adquirir este tipo de produtos.</p>
<p>Aqui o meu ponto de vista é apenas explicar que faz muito mais sentido haver crossdressers a prestarem serviços a outras crossdressers (sempre que existir essa necessidade de prestação de serviços, claro), porque há um entendimento profundo das necessidades, e uma natural discrição e respeito pelo anonimato envolvido nesse processo. Assim, se a Gabriela quisesse montar um site Web, estaria de certeza muito mais à vontade para lidar com outras crossdressers que lhe fizessem o trabalho todo, do que «arriscar» a contratar uma empresa que, por maldade, resolvesse «gozar» com a situação, mandando fotografias para as redes sociais, dizendo coisas parvas como «olhem o tipo de clientes que nos aparecem por aqui!» etc.</p>
<p>Isto embora possa conduzir a um certo exclusivismo dentro de um <em>ghetto</em> (há também muita investigação falando neste «perigo»: pessoas transgénero que passam pela transição dentro de um círculo muito restrito de outras pessoas transgénero, que apoiam e encorajam a transição; sentindo-se segura apenas dentro desse círculo, a pessoa em transição acaba por nunca lidar com o «mundo real», pois teme as consequências; ficando-se depois na dúvida se a transição foi apenas uma decisão tomada por pressão de grupo, ou realmente desejada — já que a pessoa nunca mais sai do grupo), penso que, no entanto, numa primeira fase tem o efeito desejável de alargar o círculo de segurança, de anonimato, de confiança, etc. para outras áreas. Por exemplo, sinto-me muito mais segura quando vou lavar ou cortar as cabeleiras na Casa Princesa porque sei que eles servem bem a comunidade e apostam na discrição; não vão andar por aí a divulgar o meu nome e fotografia publicamente dizendo «olhem lá o tipo de pessoas que vem cá!». Este nível de confiança permite alargar a minha zona de conforto. Deixei de ter problemas em dizer que sou crossdresser quando sei que esse «segredo» vai ser mantido. Quando mando arranjar alguns vestidos ou sapatos, por exemplo, tenho de ter mais cuidado; se conhecesse alguma crossdresser, ou pessoa próxima da comunidade, que fizesse arranjos na roupa e/ou nos sapatos, sentir-me-ia muito mais motivada em procurá-la, em vez de ir ao sapateiro da esquina ou à loja de arranjos do centro comercial mais próximo.</p>
<p>O terceiro grupo também obviamente que necessita de alguma discrição, mas a verdade é que, hoje em dia, pode fazê-lo sem problemas via Internet. Já não é preciso meter anúncios envergonhados em jornais, «Cavalheiro procura menina transgénero para uma primeira experiência. Garante-se discrição.» o que requer exposição pública (dar o nº de contribuinte para se poder publicar o anúncio!). Hoje em dia, via Internet, nada disso é necessário, e quem anda à procura de sexo sabe onde o encontrar — qualquer rede social, mesmo as não especializadas, serve para isso. Há, no entanto, alguma oportunidade na criação de espaços online mais seguros, mais anónimos, que permitam melhorar o contacto entre pessoas que o querem fazer com discrição. No entanto, a ideia geral é que já há espaços destes suficientes. E, evidentemente, também há locais físicos para o mesmo tipo de contactos. Ou seja, existem pelo menos duas hipóteses viáveis — os espaços físicos e os espaços online — e, em último recurso, a abordagem à prostituição de pessoas transgénero na rua, em espaços que são muito conhecidos e de fácil acesso (com discrição) a quem esteja interessado.</p>
<p>Ou seja, não digo que não se possa fazer melhor, mas a verdade é que mesmo o anúncio do lançamento de um «site de contactos para sexo de âmbito nacional» pode até ser negativo. É legítimo perguntar, «Mas quem está por trás desse site? Quem são os seus promotores? Como sei que não vão divulgar os meus dados a pessoas que conheço, ou, pior, aos <em>media</em> nacionais?» Em compensação, a utilização de ferramentas internacionais alojadas «algures por aí» — seja o SmutVibes, seja o próprio Facebook&#8230; — dada a quantidade incrível de pessoas que os usam, garante ainda mais o anonimato. A probabilidade de um funcionário do Facebook estar a olhar para um anúncio de oferta de disponibilidade para encontros sexuais e/ou um <em>chat</em> erótico com vista a levar uma pessoa transgénero para a cama é francamente baixa, e torna-se nula se se imaginar que esse funcionário, na maior das probabilidades, não nos vai conhecer nem conhecerá os nossos amigos/familiares/colegas de emprego. O mero facto destes sites sociais serem gigantescos garante um certo grau de privacidade. Um site <em>novo</em>, criado em Portugal para portugueses, terá uma enorme desvantagem se quiser garantir o mesmo grau de privacidade, simplesmente porque as pessoas que se registam num site destes não saberá se os seus organizadores, numa fase inicial, não tenham interesses maliciosos a rever tudo o que se passa dentro dos seus sites&#8230; coisa que é possível de fazer facilmente (por mentes perversas&#8230;) que não tenha mais nada que fazer, enquanto o número de pessoas registadas for muito reduzido.</p>
<h3>Organização de actividades online e disponibilização de informação</h3>
<p>Chegamos então ao quarto (e quinto) grupo. Aqui as coisas complicam-se porque o «óptimo é inimigo do bom». Óptimo seria, claro está, uma Associação de Crossdressers, organização sem fins lucrativos, apartidária e independente, com financiamento próprio, e umas instalações num local discreto mas com acesso facilitado. Essa organização «ideal» teria espaços de lazer — como as antigas Sociedades Recreativas, espalhadas por todo o país! — com café/bar e área suficiente para um salão de festa, para os eventos especiais. Teria também pequenas lojas (ou pelo menos <em>uma</em> loja com vários fornecedores) com artigos especializados para o crossdressing e um pequeno gabinete de estética que no entanto também servisse para <em>workshops</em>. Teria gabinetes individuais para os membros se poderem arranjar em paz e sossego, com cacifos. Teria obviamente uma sala para serviços administrativos onde se fariam também algumas edições — talvez primeiro uma <em>newsletter</em>, depois mais tarde alguns livros de dicas e truques, e um catálogo de empresas <em>CD-friendly</em> e serviços de restauração que tolerassem bem a comunidade — e onde também podiam ser efectuadas reuniões com outras organizações semelhantes, com fornecedores, com donos de bares e restaurantes <em>CD-friendly</em>. Aqui e ali haveriam «recantos» para os membros poderem conversar em sossego e/ou terem acesso gratuito à Internet, nomeadamente a um Portal Transgénero ou Loja do Crossdresser, com informação institucional e centralizada, actualizado por um grupo de voluntárias.</p>
<p>Ter-se-ia não só um horário de actividades regulares, mas mais do que isso: um dos gabinetes seria regularmente visitado por um psicólogo da área, para fazer acompanhamento de eventuais membros em transição ou aconselhamento geral. Regularmente também seria colocado o espaço à disposição de sociólogos, antropólogos, e especialistas clínicos que quisessem fazer aqui os seus estudos, existindo também uma pequena biblioteca com subscrição de revistas da especialidade de outros países, sejam estas para a comunidade em si, sejam revistas científicas. Estariam disponíveis brochuras e pequenos livrinhos com temas como «Sou crossdresser, o que devo contar à minha mulher?» ou «Guia de transição». Mas também na área do lazer haveriam os tais <em>workshops</em> de estética, fomentados por empresas associadas, que trariam especialistas em maquilhagem, estética, cabeleireiro, moda, etc., colocando assim o seu conhecimento à disposição dos seus membros.</p>
<p>No espaço — e divulgado também através de <em>newsletters</em> e da Internet — seria divulgada informação sobre as empresas parceiras da Associação: actividades, descontos para os membros, ou mesmo uma bolsa de emprego: alguns bares e restaurantes associados, já habituados à comunidade, poderiam eventualmente fornecer estágios e postos de trabalho, temporários ou definitivos, a membros da comunidade. Seriam efectuados protocolos com entidades congéneres noutros países, agindo a Associação também como «agência de viagem» para pessoas transgénero que quisessem visitar outros países, ou, inversamente, estabelecendo contactos com hotéis e locais de lazer <em>CD-friendly</em> para turistas transgénero de visita ao nosso país.<em><br />
</em></p>
<p>E finalmente, com o tempo, haveria acção social: um local de apoio às mais carenciadas; uma distribuição de comida, medicamentos, preservativos etc. para aquelas que infelizmente não têm outro remédio senão manter-se na rua.</p>
<p>Dir-me-ão que tal ideia é completamente absurda e utópica, para além de custar um dinheirão! Bom, sim e não. Na realidade, conheço algumas sociedades recreativas que não são mais do que isto — obtiveram o espaço gratuitamente da câmara municipal onde estão sediadas, e realmente têm este tipo de coisas, apesar de terem um âmbito muito restrito de actuação. Só para dar três exemplos em Lisboa: os Alunos de Apolo (danças de salão), o Ateneu Comercial de Lisboa (desporto), a JF Marvila (servindo apenas a comunidade local), a antiga Sociedade Musical União Paredense (música filarmónica, danças e festas). Mas há muitas mais; serão milhares no país todo.</p>
<p>Geralmente funcionam com pouco mais de uma dúzia de pessoas, mas por vezes nem isso. E servem entre uma centena a poucas centenas de associados, geralmente com interesses muito restritos. Ou seja: não estamos a falar de mega-organizações para dezenas ou centenas de milhares de associados (tipo Automóvel Clube de Portugal!), mas sim entidades pequenas, servindo comunidades muito mais pequenas e de âmbito ainda mais restrito que o nosso.</p>
<p>E este tipo de coisas existe em todo o mundo, com mais ou menos organização ou dimensão.</p>
<p>Só cá é que não, o que é ainda por cima curioso, porque temos uma fortíssima tradição associativa!</p>
<p>Bom! Mas claro que tenho consciência de que isto não «constrói» do dia para a noite. Além disso, uma coisa é uma pessoa dizer que gosta de danças de salão e não se importar de dizer aos amigos e familiares que trabalha (nem que seja como voluntária) nos Alunos de Apolo, mesmo que seja gozada. Outra coisa é estar disposta a dar o seu tempo a uma Associação de <em>Crossdressers</em>, o que implica um muito maior conforto com a sua situação e muito mais coragem para aceitar a exposição pública. E com um risco acrescido: uma sociedade recreativa ou desportiva provavelmente não está sujeita a uma invasão de <em>skinheads</em> ou de fundamentalistas religiosos dispostos a agressão violenta e destruição do espaço e seu conteúdo. Uma Associação de Crossdressers, mesmo que discreta, será um alvo destes grupos — logo, também seria preciso salvaguardar a integridade física dos membros e visitantes através de seguranças contratados&#8230;<em><br />
</em></p>
<p>Por outras palavras: uma coisa destas é obviamente <em>possível</em> — prova disso é que existem por todo o mundo fora — mas será pouco <em>provável</em> que aconteça nos nossos tempos de vida.</p>
<p>Em compensação, temos a possibilidade, ainda que incipiente de momento, de fazer algo de parecido, mas muito mais seguro: mover a associação para o espaço virtual.</p>
<p>Ora é certo que se «perde» uma capacidade fundamental: o convívio num espaço seguro e discreto. Mas pode-se fazer tudo o resto, inclusive o estabelecimento de acordos com outras entidades que disponibilizem o seu espaço para o convívio. Por outras palavras: claro que seria muito melhor ter um salão de festas <em>próprio</em>, mas não é mau ter-se um <em>acordo</em> com um bar, restaurante, discoteca ou mesmo hotel (há muitos hotéis <em>gay-friendly</em> em Portugal) que disponibilize regularmente o seu espaço para a comunidade se juntar.</p>
<p>Aliás, é precisamente isso que já fazem muitas crossdressers portuguesas, com um sucesso que só posso classificar de crescente: por muito que se lamentem, a verdade é que cada vez há mais gente a organizar coisas, cada vez há mais espaços disponíveis, e cada vez há mais eventos, jantares e saídas. Pelo menos comparado com o pouco que se fazia há 15 anos atrás!</p>
<p>O problema talvez é que algumas destas organizadoras desanimam-se ao fim de algum tempo. «Puxar a carroça» sozinha é difícil, e gera-se uma certa expectativa: quem já disponibilizou o seu tempo e sacrificou o seu anonimato, saindo da zona de conforto para organizar coisas e as anunciar pelos forums de crossdressers na Internet, está depois naturalmente à espera de que «as coisas aconteçam», ou seja, que haja muita participação regular. Isso, infelizmente, não acontece (pelas razões que já referi). E isso significa que estas organizadoras natas se questionam se valeu a pena o esforço. Normalmente ao fim de algum tempo constatam que não, porque, por mais actividades que se anunciem, o número de participantes é sempre baixo.</p>
<p>É evidente que não faço a menor ideia da experiência que estas pessoas têm de participação voluntária em regime de associativismo. Tudo o que posso contribuir nesta fase é dar a minha própria experiência. Ao longo das últimas décadas, participei nos mais diversos tipos de organizações deste tipo — desde o desporto, à dança de salão, às artes marciais portuguesas, passando pela literatura (mais ou menos «séria»), pela música (grupos corais), pelos jogos de tabuleiro, e até pela religião&#8230; nalguns casos fui meramente «utente», noutros casos membra da direcção ou mesmo presidente, noutros ainda simplesmente uma voluntária, contribuindo com o meu tempo e/ou os meus conhecimentos para o bem da comunidade servida pela associação.</p>
<p>E posso dizer que, por mais diversas que sejam as actividades e o âmbito destas organizações, no fundo não são muito diferentes umas das outras. Há realmente uma noção de «massa crítica», mas antes desta ser atingida, é preciso muito esforço para se «puxar a carroça» sozinha. Numa das associações em que participei, por exemplo, e que tinha também cerca de uma centena de associados, dos quais apenas uma dúzia era regular, a direcção nunca durava mais de 1-2 anos. Sabia-se antecipadamente que se ia «queimar» com o esforço monumental de «carregar a associação às costas» durante este período. E qual era o resultado? Lembro-me que haviam umas sessões de visionamento de filmes com debates, amplamente anunciadas e divulgadas, e foi raro ter mais do que nove ou dez pessoas na sala — o normal eram ser apenas 4 ou 5. Isso não impediu que se continuasse a insistir, semana após semana, a anunciar o programa, a fazer divulgação nos jornais da região, e coisas assim. Mas o número de pessoas que vinham às actividades era sempre mais ou menos o mesmo. Noutra associação, com cerca de duzentas pessoas, num apartamento no Saldanha com nove (!) salas, foram muito raros os dias em que visse vinte pessoas ao mesmo tempo no espaço. Por vezes acontecia, mas era raro. Dia após dia estavam «sempre os mesmos» — três, quatro, cinco pessoas — que pertenciam essencialmente à direcção (a associação funcionava em horário laboral e pós-laboral, sete dias por semana, aberta vinte horas por dia aos fins de semana). É certo que nos fins de semana aparecia mais gente para as actividades; e durante as férias ainda mais. Mas isso não impedia que houvesse uma estrutura e um conjunto de «monitores» para as actividades que tomavam o compromisso, em certos dias e a certas horas, de abrir as portas e organizar as actividades anunciadas, quer houvesse gente, quer não — passei lá muitas e muitas horas sozinha, à espera que aparecesse alguém para além de mim. Mas também houve muitos e muitos dias com a «casa cheia» com 30 ou 40 pessoas (seria impossível albergar todos os associados em simultâneo!), em funcionamento praticamente <em>non-stop</em> desde o final da tarde de 6ª feira até ao domingo à noite; o comércio local (cafés e tascas) adorava-nos porque garantíamos sempre algumas pessoas a consumir comida e bebida às horas mais impróprias (mas que lhes compensava manter as portas abertas), mesmo depois de se ter aberto um mini-bar na associação.</p>
<p>Noutra das associações havia imensas parcerias durante eventos especiais: haviam senhas para os sócios poderem comer nos restaurantes da zona a preços mais simpáticos; haviam descontos em certas lojas; haviam feiras de trocas de artigos em segunda mão; e nestas alturas de maior actividade apareciam muito mais pessoas. Talvez cinquenta ou sessenta, muitos dos quais nem sequer eram membros (e nem todos se tornavam depois membros). Mas depois durante o resto do ano, embora houvessem actividades semanais, estas tinham pouca frequência. O importante era não desistir e não desencorajar!</p>
<p>Nestas associações todas por que passei, todas elas «existiram» durante vários anos seguidos, com mais ou menos participação, com períodos mais difíceis (em que só se pensava era desistir e fechar as portas), com mais dificuldades financeiras, e assim por diante. Isto foi na fase em que a Internet ainda não tinha muito peso — portanto, já lá vão uns aninhos! — e acabaram quando, por uma razão ou outra, se ficou sem as instalações originais. O espaço, nessa altura, era tudo o que contava. Mas depois disso também participei em organizações deste tipo com forte presença na &#8216;net para complementar o espaço físico, e não são muito diferentes.</p>
<p>A última em que estou actualmente a participar tem cerca de seis anos no local onde está de momento, um pacato bairro na periferia de Lisboa. Fui lá parar mais ou menos por acaso há uns cinco anos. Para além das mais variadas actividades regulares ao longo da semana, também tem seminários e <em>workshops</em> ocasionais — há anos em que há 1 ou 2 por mês, outros anos em que só há uns 3 ou 4 por ano. Tem duas salas modestas. Embora estejam contabilizadas cerca de uma centena de «amigos da associação» (pessoas que, a dada altura, fizeram uma pequena contribuição financeira para ajudar a associação, sem no entanto serem sócios), são raras as actividades em que apareçam mais de 5 ou 6 pessoas. Aos fins de semana, talvez apareçam uma dúzia. Uma actividade quinzenal já chegou a ter, uma vez, 19 pessoas. Os <em>workhops</em> podem ter mais pessoas; um deles, gratuito, chegou a ter quase 50 pessoas, e contaram-me que, antes dos meus tempos, fez-se uma vez uma palestra num restaurante grande que aparentemente teve cerca de duas centenas de participantes (como em tudo neste país, o que mete comida ao barulho atrai mais gente). As Festas de Natal geralmente têm duas dúzias de pessoas. Mas ironicamente, há uns 4 anos atrás, houve um dos oradores (estrangeiro) que, ao ver a audiência numa das salas, «profetizou» que ao fim de uns anos aquele espaço iria ser pequeno demais. Como nos rimos na altura! É que nesses tempos, as actividades nunca tinham mais de meia dúzia de pessoas. A verdade é que ao final de uns 3 anos passaram a ter uma média de uma dúzia de pessoas, e agora interrogamo-nos se realmente o «profeta» não tinha razão. Talvez daqui por mais 5 ou 10 anos passem a aparecer, em média, duas dúzias de pessoas. Ou, pelo contrário, pode voltar só a aparecer meia dúzia&#8230;</p>
<p>Lembro-me perfeitamente, há dois anos atrás, no início do Outono, estar atrasada para uma das actividades a meio da semana, que raramente contava com mais de 3 ou 4 pessoas. Eis que, da rua, olhando pela janela, vejo a sala completamente cheia! Estavam talvez umas 18 pessoas no total, e nem havia lugar para sentar para todos! Perguntei-me a mim mesma o que raio se teria passado — teria saído uma notícia no jornal ou coisa parecida? Já estava com vergonha de ter chegado atrasada&#8230; e muito contente por ver tanta gente. «Agora sim, isto vai começar a andar a sério!» pensei para com os meus botões.</p>
<p>Mas na sessão seguinte só apareceram uma dúzia de pessoas. Assim se manteve (não sempre as mesmas) durante umas semanas; depois voltou-se à meia dúzia «do costume». E assim tem sido até hoje: vão sempre aparecendo pessoas novas, mas, com o tempo, são poucas as que se tornam participantes «regulares». Mas  algumas ficam. O número, em média, vai aumentando: mas muito, muito, muito devagarinho&#8230;</p>
<p>Ora tudo isto para explicar que, do meu ponto de vista, não vejo nenhuma razão «mágica» para que nas actividades para crossdressers as coisas não sejam idênticas. É possível que hajam «eventos especiais« que atraiam, inesperadamente, algumas dúzias de participantes — um Carnaval, um Dia da Crossdresser ou coisa parecida, um Primeiro Encontro das Crossdressers Portuguesas. De repente parece que «isto agora é que vai arrancar a sério!» e surgem, de facto, muitas participantes. Mas depois volta-se à mesma rotina, sempre aos mesmos rostos, sempre ao mesmo número reduzido de pessoas.<i><br />
</i></p>
<p>Isso é normal, para o número de crossdressers que conseguimos atingir com a nossa divulgação via &#8216;net.</p>
<p>Qualquer pessoa que tenha um pouco de experiência com associativismo a esta escala sabe que assim é. Volta e meia, irão aparecer pessoas novas. Algumas até aparecerão mais do que uma vez. Outras aparecerão ocasionalmente, só em ocasiões muito especiais. Mas aquelas que «puxam pela carroça» são as que aparecem sempre, com ou sem dificuldades.</p>
<p>O problema, claro está, é quando se «fartam» de estarem sempre a puxar a carroça. Têm a expectativa — razoável de compreender! — que o seu esforço em prol de toda a comunidade seja reconhecido, nem que seja meramente por aparecerem às actividades. Mas se ninguém aparecer, assumem que é por falta de respeito para com quem teve tanto trabalho com a organização, e, sendo assim, desistem.</p>
<p>Ora isto é bastante triste e desanimador, porque na realidade as coisas são um pouco mais complexas do que isso. Nem sempre é por desrespeito ou desinteresse que as pessoas não aparecem às actividades; aliás, na minha experiência, essas duas razões estão no fundo da escala.</p>
<p>A razão principal é uma de prioridade: dado que o nosso tempo é limitado, e condicionado por muitas pessoas e muitas coisas (ou pelo menos assim o pensamos), o que é mais importante para nós?</p>
<p>Crossdressing é uma actividade que é, essencialmente, individual, mas tem também uma componente social. Não é bem como jogar ténis, que não se pode fazer sozinho — é preciso um parceiro para o ténis. Por outro lado, a vertente social do crossdressing não é tolerada publicamente: significa isto que, para a maioria das crossdressers, especialmente as que não querem, não podem, ou nem sequer consideram a transição, a vertente social do crossdressing (quando não a individual!) tem de ser feita no maior dos secretismos, juntando-se a outras pessoas, também elas rodeadas do mesmo secretismo. A actividade social decorre em espaços reservados, discretos, e onde a maioria espera não ser reconhecida por ninguém. Tudo isto complica desnecessariamente as coisas!</p>
<p>Se acho piada a canto litúrgico, posso juntar-me a um coro de igreja, mas também posso cantar em casa. Mesmo que todos os meus amigos gozem comigo por cantar num coro (já houve tempos em que passei por isso!), a verdade é que cantar num coro é uma actividade tolerada socialmente. Não é tão «tolerada» como assistir a um jogo do Benfica, mas, para além do gozo, não há verdadeiramente nada mais a opôr a quem goste, de facto, de cantar em grupo. Não é preciso «secretismo» para se inscrever num coro amador. Agora a participação regular nesta actividade depende imenso da motivação e da prioridade que se lhe dá. Quão importante é para a minha vida ir todas as semanas cantar nos ensaios, mesmo quando esteja frio, quando esteja doente, quando haja um jogo do Benfica na TV ou outra forma de distracção mais apelativa? Quando mudar de emprego, e o novo emprego conflituar, em termos de horários, com os ensaios, que vou fazer? O que é mais importante — o emprego, a família, os amigos, as outras formas de distracção; ou cantar no coro?</p>
<p>Para quem nada seja mais importante do que cantar no coro — se estiver, pois, no topo das prioridades! — a resposta é óbvia: organizamos toda a nossa vida para estarmos sempre presentes nos ensaios, e tomamos o compromisso pessoal, sem ninguém nos obrigar a isso, de nunca faltar, mesmo que nos custe muito. Fazemos isso para todas as coisas que consideramos verdadeiramente importantes na nossa vida.</p>
<p>Mas por vezes isso não chega. Por vezes a nossa vida está de tal forma condicionada que não conseguimos, mesmo que queiramos, assistir a um ensaio. Se nessa situação a organização — o maestro, por exemplo — achar que não vale a pena o esforço de marcar os ensaios se depois as pessoas que se dizem «interessadas» não aparecem, então para quê continuar?</p>
<p>Ora as organizações que têm actividades regulares têm organizadores que não pensam assim. Por exemplo, no caso do coro, o maestro poderá considerar que não há nada de mais importante na sua vida, pelo menos a nível de lazer, do que cantar. Então marca os ensaios, quer apareça alguém, quer não. Se não aparecer ninguém — porque está frio e dá um jogo na TV — não faz mal: ensaia sozinho ao piano. E volta a marcar para a semana seguinte. Se realmente há muitos conflitos de horários, marca várias sessões semanais — porque para ele, maestro, nada há de mais importante do que cantar, e nada lhe dá mais prazer do que isso. Ter o «pretexto» de reservar uma hora para um ensaio é um prazer: significa que, no pior dos casos, poderá ficar a cantar nesse espaço, mesmo que seja sozinho, sem ninguém o incomodar. E talvez ao flexibilizar o horário apareçam mais uma ou duas pessoas que pensem como ele. Forma-se um «núcleo duro» do coro, que está sempre presente, quer apareça mais ninguém, quer não. Isto é a base; é com esta base com que se trabalha; é com esta base que se conta. Se aparecer mais gente, melhor. Se essas pessoas que aparecerem forem mais ou menos regulares, é excelente — um coro maior pode cantar peças diferentes e progressivamente mais complicadas. Mas se forem só dois ou três, não faz mal — há também sempre forma de aproveitar o tempo com peças adequadas a um grupo mais reduzido! Que se irão divertir imensamente, só porque partilham o prazer de cantar em conjunto.</p>
<p>Ora é isso que, nesta fase, a comunidade portuguesa de crossdressers precisa: de pessoas com forte auto-confiança, para as quais a actividade de crossdressing social seja mais importante do que qualquer outro «condicionamento» de tempo, seja qual for, e que, meramente pelo prazer de organizar actividades, não desistam facilmente de as fazer. Com a regularidade das actividades, e o reconhecimento de que «há sempre algumas pessoas com quem contar», forma-se um «núcleo duro» que aparece sempre às actividades, aconteça o que acontecer — nem mesmo o encerramento de um espaço as irá demover de continuar a encontrar soluções para que se possam reunir um grupo de amigas apenas com o pretexto de se divertirem juntas <em>en femme</em>.</p>
<p>Este «núcleo duro» é o pilar da comunidade, os alicerces sobre os quais, no futuro, se poderá construir algo mais. No entanto, é muito mais difícil «montar» esta estrutura para uma actividade socialmente não tolerável como é o crossdressing do que criar um grupo coral ou uma banda filarmónica ou um grupo de estudo de poesia do século XVIII. Requer, pois, pessoas com um nível de persistência, de paciência, de auto-confiança, de diligência, e de uma «teimosia positiva» — a capacidade de não desistir perante as adversidades — que mantenha um conjunto de actividades regulares. Se estas forem continuamente anunciadas, mesmo que sejam a um grupo restrito de pessoas, isto já mostra que «algo está a mexer».</p>
<p>Hoje em dia é raro aparecer-me pela frente uma «nova» crossdresser portuguesa; dantes, como haviam poucas que estavam em perfis públicos, isso acontecia com mais frequência. Muitas vezes perguntam-me onde há mais informação em português — antes de haver o Espartilho e o CEP, e depois do CCP fechar, não havia nada. E depois, claro, perguntam: «Há algum espaço onde possamos encontrar meninas como nós?»</p>
<p>Há uns anos atrás, tinha de lamentar imenso e dizer que não havia nada. Que sabia que existiam alguns shows de transformismo onde apareciam algumas crossdressers, e que provavelmente se poderia ir a um bar gay (mas também não sei qual!) para encontrar lá alguém da comunidade. Mas, na verdade, não lhe sabia responder — ignorava onde e quando se encontravam as pessoas da comunidade, e o melhor que podia oferecer era «manter o contacto».</p>
<p>Hoje em dia, claro, é tudo muito mais fácil. Claro que não existe ainda uma Associação de Crossdressers, mas existem grupos de crossdressers que organizam actividades, mais ou menos regulares, e que as anunciam publicamente. Há os dois foruns onde se podem inscrever, e pelo menos estarem em contacto com outras crossdressers e pessoas transgénero, e ficarem informadas das actividades. Por muito pouco que possa parecer, é uma diferença do dia para a noite! Houve mesmo recentemente no Espartilho um pequeno «conflito de datas», facilmente resolvido, quando duas pessoas resolveram organizar mais ou menos a mesma actividade — um jantar seguido de visita a um estabelecimento nocturno <em>gay-friendly</em> com um intervalo de poucos dias. Quando isto acontece é bom sinal: quer dizer que já há tanta gente a organizar actividades que, por vezes, as datas sobrepõem-se! Isto também faz com que os anúncios sejam feitos atempadamente; e, com tempo, quem está inscrito nos forums pode fazer chegar a informação a outras pessoas que não está nos forums, combinar a ida em conjunto com outras crossdressers que morem próximo (evitando ir em tantos carros e beneficiando do conforto, apoio, e segurança adicional de ir com outra pessoa), etc. Este tipo de coisas já acontece, e se não é todas as semanas, é quase!</p>
<p>Mas para continuar a acontecer é preciso que ocorram duas coisas.</p>
<p>Uma, mais difícil, é que «apareça mais gente». Como infelizmente o principal critério do sucesso destas actividades é o número de participantes, quanto menos gente aparecer, maior será o despontamento, o que fará com que algumas desistam de aparecer na actividade seguinte («para tão pouca gente não vale a pena sair de casa&#8230;»). Ora não se pode «obrigar» a que apareçam mais pessoas. Elas aparecerão naturalmente, quando as condições e circunstâncias forem as correctas, e, na maior parte dos casos, não temos a capacidade de controlar estas condições e circunstâncias.</p>
<p>A outra também é difícil mas não tanto. Como disse, uma das capacidades fundamentais das organizadoras deste tipo de eventos é a sua auto-confiança, que se pretende inabalável. Pelas mais diversas razões podem ter esta auto-confiança desenvolvida — por exemplo, por já sairem, sozinhas e acompanhadas, há tantos anos ou décadas, que não tenham qualquer problema em fazê-lo, várias vezes por semana — e ter também muita disponibilidade — porque ou vivem sós, ou com um(a) companheiro(a) que não é meramente «tolerante» mas activamente «apoiante» da sua actividade de crossdressing ou mesmo do processo de transição. E, finalmente, talvez tenham experiência — seja profissional, seja amadora em regime de voluntário para outras organizações — em organizar coisas, em estabelecer contactos, em coordenar actividades, em saber promovê-las, em fazer chegar a informação a um grande número de pessoas, etc. Ou seja, devido a qualidades pessoais, profissionais, e de ambiente (a sua situação pessoal/familiar encorajar activamente o crossdressing ou a transição), estas pessoas têm a capacidade de ajudar toda a comunidade, mantendo um calendário de actividades, eventos, jantares, saídas, etc. para as quais estão dispostas a «dar a cara» (enquanto organizadoras) e a promovê-las. Toda a comunidade beneficia, mesmo que o número de participantes seja reduzido; o mero facto de se saber que há gente a organizar actividades mais ou menos regulares é já incrivelmente benéfico, comparado com o que acontecia há poucos anos atrás — em que até podiam haver algumas actividades, mas ninguém sabia quando, como e onde, porque essa informação não circulava.</p>
<p>O maior problema aqui é o desencorajamento. É o criar de expectativas que depois são goradas. É o pensar que, pelo mero facto de se estar a colocar à disposição da comunidade, de forma altruísta, esta comunidade irá «responder em peso», eternamente grata. Quando isso não acontece, é legítimo perguntar se vale a pena continuar o esforço!</p>
<p>A minha resposta é: «sim, por favor continuem». Mas apenas alerto que esse desencorajamento e frustração advém apenas do excesso de expectativas. É importante compreenderem que há incontáveis razões para as pessoas não aparecerem; e «má vontade» ou «desinteresse» nem sequer está no <em>top ten</em> dessas razões. Normalmente a razão principal tem a ver com prioridades — o que é mais importante. E no caso do crossdressing há muitas coisas «mais importantes». Por exemplo, quem viva em família, tem de se sujeitar às «regras de casa» — e isto admitindo que haja tolerância relativamente ao crossdressing, e, em especial, às saídas. São na realidade bastantes raros os casos de casais em que a esposa é meramente tolerante, mas não entusiástica, e que deixe o marido crossdresser sair à vontade para onde quiser, vestido d mulher — tem a ver com questões psicológicas complicadas (mas estudadas). Já no caso de casais em que a esposa fica verdadeiramente entusiasmada e fascinada com o marido crossdresser as coisas podem ser completamente diferentes. Ou seja, para a maioria das crossdressers numa relação, mesmo uma relação de tolerância e compreensão, a prioridade será sempre «manter um bom ambiente familiar, sujeito a regras», e essa prioridade sobrepõe-se a todas as outras.</p>
<p>Mas mesmo no caso de quem viva sozinha podem haver outras prioridades: por exemplo, a prioridade de manter uma boa relação com os vizinhos, que podem levar muito a mal terem uma «aberração» a morar no mesmo prédio ou bairro. E podemos, depois disto, pegar numa longa lista de razões. Coisas como «medo de ser descoberta» ou «vergonha de ser apanhada» normalmente até não estão imediatamente no topo da lista de prioridades, mas também lá aparecerão. Vou dar um exemplo típico: algumas meninas, no seu entusiasmo, podem publicar no seu Facebook imagens de uma saída com outras meninas (que podem ter sido extremamente cautelosas a sair para que ninguém saiba). Ora hoje em dia sabe-se lá onde é que o Facebook vai parar; a probabilidade de um amigo de amigo de amigo de amigo ver subitamente uma imagem de um colega de trabalho a divertir-se <em>en femme</em> num bar gay não é nula. Aliás, nos dias que correm, até pode ser muito elevada! Mesmo alguém que <em>não</em> use o Facebook, ou que o use de forma anónima, está sujeita a que <em>alguém</em> publique uma fotografia delas <em>en femme</em> para uma audiência sob a qual não se tem controlo. Podem nem sequer ser as outras meninas a fazê-lo; muitos dos bares têm os seus próprios sites e páginas na &#8216;net, os seus próprios fotógrafos&#8230; ou outros participantes no evento, que nem sequer sejam crossdressers nem tenham intenção de fotografar ninguém, podem «apanhar» alguém, por mero acaso, que fique no fundo da imagem que publicam para os amigos&#8230; e que seja imediatamente reconhecida em situações embaraçosas! Podem nem sequer publicar a foto no Facebook, mas mantê-la no telemóvel, e, um dia, entre amigos, mostrarem a foto que tiraram&#8230; e alguém reparar que conhecem uma das pessoas no fundo da imagem, apesar de estar vestida de forma surpreendente!</p>
<p>Ou seja, o controle e gestão do risco é também uma prioridade, pois o risco tem consequências. É evidente que isto se aplica a tudo na vida, e se morrermos de medo de arriscarmos o que quer que seja, passamos a vida na cama em depressão&#8230; o que não é funcional. Tudo na nossa vida tem sempre risco, até atravessar a rua na passadeira. É mais provável que nos caia um meteorito na cabeça do que sermos «expostas» numa festa de crossdressers.</p>
<p>Mas a nossa mente não funciona assim: normalmente temos mais medo de situações que não controlamos. É por isso que as pessoas têm medo de voar de avião, mesmo que um avião seja milhares de vezes mais seguro do que um automóvel — mas, num automóvel, tem-se a ilusão de que, por se estar ao volante, tem-se mais «controlo». Não é verdade, mas pensamos que sim.</p>
<p>Seja como for, não pretendo listar aqui todas as prioridades, todas as desculpas, todas as justificações, porque são inúmeras. Pretendo apenas concluir com dois pontos:</p>
<ol>
<li>Não é verdade que as pessoas não apareçam às actividades por desinteresse ou qualquer forma de «conflito» com os organizadores. Pura e simplesmente têm prioridades que têm de gerir, de acordo com limitações, reais ou imaginárias, que são diferentes para cada pessoa. Isso condiciona-as a limitarem a sua actividade de crossdressing que pode impedir a sua presença, mesmo que queiram aparecer!</li>
<li>Quanto mais expectativas se gerar em torno do número de pessoas que vão aparecer numa actividade, maior será o desapontamento, a frustração, e o desencorajamento.</li>
</ol>
<p>Não se pode «combater» o ponto 1, excepto com compreensão e paciência. Quanto ao ponto dois, é mais fácil: basta não gerar expectativas. Tem de se aprender que o «sucesso» da iniciativa não se mede pelo número de pessoas que comparecem; pelo contrário, o próprio facto de uma organizadora ter conseguido combinar um evento, coordenar esforços com o espaço onde este irá decorrer, e anunciá-lo da melhor forma que conseguir, é já um sucesso por si só. Conseguir fazer o mesmo de forma regular é um sucesso incrivelmente maior!</p>
<h3>Conclusão: optimismo moderado, sem expectativas</h3>
<p>Se estivéssemos todas à espera de que a tal utópica Associação de Crossdressers fosse criada primeiro, para depois começar a anunciar actividades e a publicar informação sobre o assunto, então nunca mais iria acontecer absolutamente nada. Ficaríamos todas à espera do D. Sebastião numa manhã de nevoeiro.</p>
<p>Pelo contrário, as várias pessoas que já organizam eventos, jantares, saídas; que coligem informação sobre o assunto e a publicam online; que criaram canais de distribuição de informação às interessadas — fizeram já isto tudo sem associação, sem instituição, sem apoio do Estado ou de outras entidades, sem mais nada para além de entusiasmo e determinação de dizer: «Mesmo que mais ninguém faça nada a este respeito, eu vou fazer!»</p>
<p>Estas pessoas são especiais.</p>
<p>Não só são extremamente raras — pelo seu altruismo, e pela sua capacidade de colocarem a sua vontade em prática — como devem ser vistas por nós com o maior dos respeitos. Se realmente «sonharmos» com uma mega-organização que permita, um dia, que crossdressers se reunam, sem medo, em locais perfeitamente seguros&#8230; então é graças às pessoas que estão <em>neste momento</em> a organizar coisas, sem que lhes tenha sido pedido nada, e sem pedirem nada em troca, que esta visão um dia pode vir a ser possível: são estas pessoas os alicerces que, um dia, criarão uma comunidade sólida de crossdressers em Portugal.</p>
<p>Mesmo que a visão seja completamente diferente — por exemplo, em vez de um espaço público, mas secreto e isolado da sociedade, eu prefereria uma rede de espaços <em>CD-friendly</em> (desde lojas a restaurantes e cafés com esplanada!) que pudessem ser visitados sem discriminação e sem que me «olhassem de lado» — esta vai ser construida também a partir das pessoas que estão neste momento empenhadas em organizar seja o que for para a comunidade, independentemente do seu alcance e número de participantes. É graças à sua auto-confiança e determinação que estamos já hoje numa situação profundamente melhor do que a que estávamos há relativamente poucos anos atrás.</p>
<p>E deveríamos, no mínimo, estar gratas por as termos como pilares da nossa comunidade.</p>
<p>Sem nenhuma ordem em especial&#8230; obrigada, Gabriela, Patrícia, Susaninha, Daniela, Valéria, Vanessa, e todas as outras cujos nomes não me recordo ou que nem sequer conheço, que estão a lançar as bases para que, um dia, a comunidade transgénero em Portugal possa ter um nível de organização, de divulgação, de actividades, de contactos, de apoios, etc. tal como em qualquer outro país.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://feminina.eu/pt-pt/2012/12/17/as-dificuldades-de-manter-uma-comunidade-activa/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>2</slash:comments>
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">659</post-id>	</item>
		<item>
		<title>As comunidades e as armadilhas</title>
		<link>https://feminina.eu/pt-pt/2012/04/09/as-comunidades-e-as-armadilhas/</link>
					<comments>https://feminina.eu/pt-pt/2012/04/09/as-comunidades-e-as-armadilhas/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sandra M. Lopes]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Apr 2012 01:05:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Identidade de género]]></category>
		<category><![CDATA[Mundo online]]></category>
		<category><![CDATA[comunidades]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://feminina.eu/?p=450</guid>

					<description><![CDATA[Para nós que sofremos de alguma forma de disforia de género, por vezes é difícil gerir a nossa identidade online. O problema é que se revelarmos demasiado de nós próprias, e formos demasiado «abertas», com a popularidade dos sites sociais — como o Facebook, por exemplo — é altamente provável que sejamos «apanhadas». Para muitas de [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Para nós que sofremos de alguma forma de disforia de género, por vezes é difícil gerir a nossa identidade online. O problema é que se revelarmos demasiado de nós próprias, e formos demasiado «abertas», com a popularidade dos <em>sites</em> sociais — como o Facebook, por exemplo — é altamente provável que sejamos «apanhadas». Para muitas de nós, isto não é uma opção.</p>
<p>Uma pequena busca na Internet mostrará que, para praticamente todo o tipo de interesses, há vastíssimos grupos de pessoas que se associam de alguma forma. Desde coleccionadores de selos a fãs de <em>surf</em>, há todo o tipo de associações, grupos de interesse, e <em>sites</em> de todos os tipos para apoiar estas comunidades. Na esmagadora maioria dos casos, por muito «estranhos» que sejam os interesses, isso não impede, de todo, que as pessoas se juntem em torno de algo que gostem — tanto fisicamente ou nas discussões <em>online</em>. Através da facilidade com que nos ligamos a outras pessoas com os mesmos interesses no mundo dos <em>sites</em> sociais, encontramos facilmente outras pessoas e locais onde partilhar os nossos gostos com outras pessoas. Ninguém acha «estranho» que, no meio da selva africana, existam clubes de fãs do Benfica. Ou que no Nepal se juntem interessados em colecções de caricas. Tudo isso é normal e aceitável. Mesmo que algum amigo nos pergunte «mas tu, com a tua idade, ainda te interessas por caricas??» podemos apenas encolher os ombros e sorrir. Porque é que coleccionar caricas há-de ser pior do que ficar em casa a ver os <em>Ídolos</em>? Todos temos direito às nossas «manias», desde que não prejudiquem ninguém&#8230;</p>
<p>Quando se entra no complexo mundo da disforia de género, tudo é infinitamente mais complicado. Na esmagadora maioria dos países democráticos, já não existem Leis de Moral e Costumes, e qualquer pessoa pode muito bem vestir-se como quiser. Nesses mesmos países também é frequente haver «pontos de encontro» onde pessoas que partilham o gosto do <em>crossdressing</em> se podem juntar. Há grupos de apoio, normalmente com psiquiatras e psicólogos especializados na área, que estão prontos a ajudar para quem queira esse apoio — seja para lidar com eventuais depressões por se sentirem ostracizados, seja para ajudar na transição.<span id="more-450"></span></p>
<p><a href="https://feminina.eu/wp-content/uploads/2012/04/Photo-on-2012-03-27-at-22-14.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignright size-thumbnail wp-image-464" title="Photo on 2012-03-27 at 22-14" src="https://feminina.eu/wp-content/uploads/2012/04/Photo-on-2012-03-27-at-22-14-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a>O problema é que em países como Portugal a disforia de género não é «bem encarada». Claro que começam a haver sinais de mudança. A legislação, por exemplo, que era das mais intolerantes e opressivas do mundo democrático, mudou 180º. Hoje em dia, mudar de nome é um mero procedimento burocrático, e não é dos mais complicados, e nem requer cirurgia para mudança de sexo. Por sua fez, a cirurgia de reatribuição sexual deixou de ser um processo complicado, a realizar fora do país às escondidas. É pago pelo Serviço Nacional de Saúde. Não sendo «perfeito» é bem melhor do que existe em muitos outros países. Casais do mesmo sexo, seja qual for, podem legalmente «juntar os trapinhos» sem problema. Ainda há algumas limitações quanto à adopção de crianças, e acredito que possam existir entraves na Justiça relativamente ao <a href="http://serpai.no.sapo.pt/tipos_de_guarda.htm">poder paternal e à guarda paternal</a> de crianças se um dos cônjuges legalmente mudar de sexo (e especialmente se isso conduzir a divórcio), mas se compararmos com a situação há 10, 15 ou 20 anos atrás, está bem melhor!</p>
<p>Isso não quer dizer que subitamente todas as pessoas com disforia de género tenham vindo para a rua, abrir restaurantes e bares e clubes e livrarias e associações (como, por exemplo, em Madrid&#8230;). Antes pelo contrário. A disforia de género pode estar bem defendida (pode-se sempre fazer mais e melhor!) em termos jurídicos e médicos, mas continua a não ser aceite em termos sociais, com uma notável excepção: os comerciantes (especialmente <em>as</em> comerciantes) não fazem qualquer discriminação — um cliente é um cliente, independentemente do seu género e do produto ou serviço que quiser adquirir.</p>
<p style="text-align: left;">Também não quer dizer que Portugal seja o pior país do mundo para se ter o «azar» de se sofrer de disforia de género: há sítios bem piores! Mas também há sítios melhores. O principal problema que os académicos que estudam este tipo de coisas enfrentam é que <em>é muito difícil, se não impossível, saber quem sofre de disforia de género porque estes não se identificam publicamente</em>.</p>
<p style="text-align: left;">Olhemos para a Internet em geral. Tudo cresceu! Se há 15 anos atrás já haviam milhares de pessoas nos forums de discussão do Sporting e do Benfica, hoje são milhões — e não se limitam aos forums oficiais, porque é fácil criar um não-oficial e juntar-se à discussão. Se há 15 anos atrás talvez só se encontrasse uma página ou outra na &#8216;net sobre coleccionismo de caricas, e talvez só de alguém em Lisboa, uma pesquisa hoje no Google dá mais de um milhão de resultados! (Estava a brincar há bocadinho sobre os coleccionadores de caricas no Nepal, mas não é que até há <em>mesmo</em> <a href="http://colnect.com/en/bottlecaps/list/country/150-Nepal">uma página de caricas do Nepal</a>?!?)</p>
<p style="text-align: left;">Para quem queira investigar qualquer área do conhecimento humano, a Internet parece ser uma fonte inesgotável de informação. Mesmo que não encontremos <em>exactamente</em> o que queiramos, pelo menos vamos encontrar algo ou alguém que nos possa indicar onde procurar. Isto acontece praticamente com tudo!</p>
<p style="text-align: left;">Menos na área da disforia de género.</p>
<p style="text-align: left;">Há mais ou menos 15 anos atrás, lembro-me de ter feito as primeiras pesquisas na Internet sobre o assunto. Um dos <em>sites</em> mais antigos, e que continha preciosa informação sobre o assunto, assim como indicações sobre como se juntar a grupos de apoio, era promovido pela Tri-Ess, uma organização americana que depois tinha <em>links</em> para <a href="http://www.tri-ess.org/brdapprvdresrc.html">todos os grupos que conseguiam encontrar</a>, com moradas e contacto. Isto era antes de aparecerem os motores de busca na Internet, pelo que muitas vezes só por «sorte» é que se descobria uma fonte preciosa de informação como esta. Se não me falha a memória, foi mais ou menos por acaso que a descobri. Um amigo meu tinha recentemente instalado <a href="http://www.nifty.org/">uma cópia de um <em>site</em> de histórias eróticas</a> — nessa altura, a Internet era ainda tão lenta que era frequente fazerem-se cópias locais para que as pessoas em Portugal pudessem ter acesso mais rápido — e através disso encontrei alguns grupos de discussão na USENET (uma espécie de mega-forums de discussão <em>online</em>, distribuídos por todo o mundo) que falavam de assuntos ligados à identidade de género, ao <em>crossdressing</em>, ao transgenderismo e à transexualidade. Era assim que se «pesquisava» na &#8216;net antes de existirem motores de busca.</p>
<p style="text-align: left;">Ao fim de muitas leituras desses grupos cheguei a encontrar alguém que referia a existência de um <em>site</em> para crossdressers brasileiras. E, nesse <em>site</em>, havia um <em>link</em> para um <em>site</em> muito mais modesto, onde se encontravam algumas crossdressers portuguesas. Era o <strong>Crossdressing Club Portugal</strong> (CCP), e infelizmente já não se encontra <em>online</em> há muitos anos. Mas ainda consegui descobrir uma lista de associadas da altura (<em>emails</em> cortados para preservar a privacidade):</p>
<p><a href="https://feminina.eu/wp-content/uploads/2012/02/Lista-de-Associadas-do-CCP.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-medium wp-image-452" title="Lista-de-Associadas-do-CCP" src="https://feminina.eu/wp-content/uploads/2012/02/Lista-de-Associadas-do-CCP-172x300.jpg" alt="" width="172" height="300" /></a></p>
<p>Alguns nomes serão conhecidos <img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f642.png" alt="🙂" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /> e continuam activas por essa &#8216;net fora.</p>
<p style="text-align: left;">Também já na altura, para se juntar ao CCP, era preciso que as potenciais associadas se apresentassem e que  justificassem porque queriam aderir. Pretendia-se eliminar desta forma apenas quem estava interessado em experiências sexuais com <em>crossdressers</em> e evitar que o CCP se tornasse num <em>site</em> de encontros (para isso já havia o <a href="http://adultfriendfinder.com/">AdultFriendFinder</a>, a primeira rede social de encontros, que apareceu em 1996).</p>
<p style="text-align: left;">Eis a minha «candidatura» na altura:<br />
<a href="https://feminina.eu/wp-content/uploads/2012/02/CCP-Sandra-M.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-453 aligncenter" title="CCP - Sandra M. Lopes" src="https://feminina.eu/wp-content/uploads/2012/02/CCP-Sandra-M-208x300.jpg" alt="" width="208" height="300" srcset="https://feminina.eu/wp-content/uploads/2012/02/CCP-Sandra-M-208x300.jpg 208w, https://feminina.eu/wp-content/uploads/2012/02/CCP-Sandra-M-711x1024.jpg 711w, https://feminina.eu/wp-content/uploads/2012/02/CCP-Sandra-M.jpg 1024w" sizes="auto, (max-width: 208px) 100vw, 208px" /></a></p>
<p style="text-align: left;">Também as associadas eram fortemente encorajadas a criarem os seus próprios <em>sites</em> (ainda tenho um <em>backup</em> do <em>site</em> referido na imagem acima, com as fotos originais publicadas na altura, mas esse <em>site</em> já desapareceu há muito da &#8216;net), mas penso que não era «obrigatório», porque, tal como hoje em dia, muitas tinham receio de ser «descobertas».</p>
<p style="text-align: left;">Não havia mais nada <em>online</em> na altura. É certo que as primeiras organizações LGBT em Portugal começavam a aparecer na &#8216;net, e algumas começavam mesmo a aceitar o «T» no seu nome. Nessa altura, a força «revolucionária» vinha essencialmente da <a href="http://jobernardo.no.sapo.pt/">Jó Bernardo</a> e do seu grupo de amigas mais próximas, que era praticamente o «núcleo» em torno no qual se organizava toda a comunidade transexual e de disforia de género em Portugal. Muitas (incluindo a Jó!) continuam fortemente activistas, a promover publicamente os direitos da comunidade. Mas no CCP não se pensava em activismo, pensava-se mais na partilha de informação e de conhecimentos, e, claro, em encontrar locais onde as <em>crossdressers</em> portuguesas pudessem estar um tempinho juntas sem serem incomodadas. Já nessa altura era na zona do Príncipe Real e Bairro Alto, em Lisboa, que haviam esses pequenos locais onde a comunidade «T» podia estar à vontade.</p>
<p style="text-align: left;">Quinze anos mais tarde, o que temos?&#8230; <em>Online</em> continua a haver muito pouco. A Jó e as suas amigas continuam com os seus <em>sites</em> activistas, promovendo os direitos daqueles que são ostracizados e discriminados pela sua disforia de género — como a <a href="http://transfofa.blogspot.pt/">Transfofa</a> e a <a href="http://laradreams.blogspot.pt/">Lara Crespo</a>. Há (felizmente) muitas mais, refiro apenas estes casos porque são pessoas que há mais de uma década que mantém uma presença <em>online</em> como referência para todas nós, e não cessam os seus esforços.</p>
<p style="text-align: left;">Mas ser-se activista requer exposição pública. Não é algo que esteja ao alcance de todas. E é justamente este o maior problema da comunidade de <em>crossdressers</em>, seja em Portugal, seja no resto do mundo: regra geral, não queremos ser reconhecidas. Queremos, sim, trocar informações, dicas, algum consolo, passar algum tempo juntas — mas não mais do que isso, porque «isso» implicaria revelar publicamente muito mais do que estamos disponíveis para fazer. Quinze anos depois do CCP, existem dois <em>sites</em> activos: o forum de discussão <a href="http://espartilho.forumeiros.com/">Espartilho</a>, coordenado pela Vanessa Blue, e o <a href="http://crossdressersemportugal.socialparody.com/">Crossdressers em Portugal 3.0</a>, actualmente coordenado pela Valéria Dark. Há alguma sobreposição de participantes (inscritas em ambos), mas o que me mais me surpreendeu é que o número total de membros não é muito superior ao dos do CCP!</p>
<p style="text-align: left;">Ora isto reflecte bastante bem o problema destas comunidades: mantém-se «escondidas». Deliberadamente. É certo que há mais actividades do que dantes: existem mais bares LGBT, ou pelo menos <em>gay-friendly</em> que não sejam <em>crossdresser-unfriendly</em>, assim como alguns restaurantes que não têm problemas em aceitarem marcações para pessoas com disforia de identidade de género. São poucos mas a comunidade tem marcado muitos mais encontros e festas e tem assistido a mais espectáculos — pelo menos, comparando com o que se fazia em 1995-1997. Mas o número de participantes <em>online</em> não aumentou muito!</p>
<p style="text-align: left;">Os académicos que estudam estes casos têm justamente um enorme problema a tentar estimar quantas pessoas com disforia de identidade de género existem — seja cá, seja no mundo todo. Os estudos são feitos por amostra e estimativa; dependendo do estudo que se ler, há até quem afirme que 10-15% da população masculina já vestiu roupas de mulher, pelo menos uma vez na vida, de forma deliberada e sentindo prazer. Há quem diga que é um «hábito» regular <a href="http://crossdresserswife.com/index.php/2009/02/20/11-crossdressing-facts/">de cerca de 1% da população masculina</a>, mas é muito difícil confirmar estes valores, porque quem tem esse «hábito regular» recusa-se a dar entrevistas, por mais confidenciais que sejam: sabe-se lá se um amigo ou conhecido não os «apanham» a responder à entrevista&#8230; Com a recente legislação em vigor que facilita o processo de transição, conhecem-se pelo menos os casos de quem consulta o Serviço Nacional de Saúde para lidar com a disforia de género. Talvez seja um caso em cada 100.000 habitantes (MtF ou FtM), mais ou menos por ano — é difícil de dizer, porque há muitos casos «antigos» que só surgem agora que a legislação é mais tolerante, e daí os números poderem parecer elevados. Por exemplo, no Reino Unido, o número de homens que por ano se sujeitam a operações de aumento dos seios é cerca de 20 a 50 (depende do ano) — um número bem abaixo do que seria de esperar para a população britânica. (Mas claro que nem todos os transexuais MtF desejam aumentar os seios; muitas ficam satisfeitas com os resultados das hormonas.)</p>
<p style="text-align: left;">O que conta aqui é realmente a existência de um vasto número de indivíduos que pura e simplesmente não aparece nas estatísticas, porque se recusa a «revelar-se». E isto é bem compreensível! Não é exactamente a mesma coisa que assumir que se é do Benfica numa família de sportinguistas! Se já é mesmo muito complicado no nosso país assumir-se como homossexual — que começam a ser bastante bem tolerados por uma maioria da população (embora ferozmente perseguidos por uma minoria!) — a «tolerância» para com os indíviduos com disforia de identidade de género é perto de nula.</p>
<p style="text-align: left;">Digo «perto de nula» porque, embora a legislação portuguesa os proteja e proíba a sua discriminação, de forma bem clara e inequívoca, a sociedade não aceita essa legislação. Vamos dar um exemplo simples. Se um homem se assumir como homossexual, mesmo que publicamente, desde que não esteja propriamente a «atacar» os colegas masculinos no local do trabalho, pode exercer a sua profissão livremente. Talvez não o aceitem como Reitor da Universidade Católica, mas, de resto, não terá dificuldades em manter um emprego. Claro que se lhe der na cabeça começar a assediar sexualmente os colegas&#8230; isso é diferente! O assédio sexual, seja qual for a orientação sexual, é um crime punido por lei, e justa causa para despedimento. Mas a esmagadora maioria dos homossexuais não estará a pensar em revelar-se no emprego para andar aí à «caça» de um namorado&#8230; quer apenas ter um emprego, mais nada, e comportar-se-á de forma adequada para o manter.</p>
<p style="text-align: left;">Ao contrário do que a maioria da população portuguesa julga, assumir-se como homossexual não implica uma mudança de comportamento e conduta, nem sequer de vestuário. Há concerteza um grupo mais radical que acha que se deve identificar com uma «cultura <em>gay</em>» — e não há mal nenhum nisso! — mas provavelmente nem serão o maior grupo. E mesmo que o sejam! Comparado com muitas culturas alternativas que conheço, a cultura <em>gay</em> estereotipada (porque é principalmente estereótipo e não realidade) é até relativamente <em>soft</em> e praticamente passa despercebida&#8230; e é perfeitamente tolerada no meio artístico, nos centros de estética, e até entre <em>marketeers</em>, publicitários, e agências criativas.</p>
<p style="text-align: left;">Já um indivíduo com disforia de género tem um problema <em>grave</em>. Nenhuma instituição neste país permite que um indivíduo de sexo identificado legalmente como masculino entre no seu local de emprego com roupa claramente feminina. Pura e simplesmente está fora de questão. Nem sequer num cabeleireiro! Assim sendo, quem queira manter o seu sexo identificado legalmente como masculino mas deseje vestir-se no dia-a-dia como mulher, não tem outra hipótese senão assumir uma profissão na área do espectáculo do transformismo, ou, infelizmente, na área do sexo.</p>
<p style="text-align: left;">Mas mesmo alguém que faça a transição (legal) para o sexo oposto terá sérios problemas. Aqui devemos excluir os casos mais extremos que são considerados casos de sucesso: são indivíduos cuja atribuição de sexo à nascença eram dúbios, e que, por «moda» até aos anos 80 do século passado, eram «forçosamente» classificados (e posteriormente educados) como masculinos. Hoje em dia pretendem a transição. Em muitos destes casos — conhecidos por <em>intersexuais</em> — apresentam características vincadamente femininas, e uma boa terapia hormonal resolver-lhes-á a transição de forma suave e perfeitamente indistinguível da maioria das mulheres. Outros casos existem de indivíduos que tecnicamente não são intersexuais, mas que apresentam uma constituição física andrógina ou já vagamente efeminada, e que com pouca dificuldade podem assumir o papel feminino. Para estes — que são a excepção das excepções — há uma esperança: mudando de cidade, para um sítio que nunca o/a tenham conhecido/a anteriormente, a transição pode ser eficaz e sem levantar quaisquer problemas. Qualquer pessoa contrataria a Filipa Gonçalves em qualquer sítio do mundo.</p>
<p><iframe loading="lazy" width="480" height="360" src="http://www.youtube.com/embed/OcOcMejfyu8" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p style="text-align: left;">Para a esmagadora maioria infelizmente não há alternativa: o desejo de se vestir como mulher é algo que não passa despercebido, e, como tal, não é aceite em nenhum posto de trabalho. Mais ainda: a <em>suspeita</em> desse desejo (mesmo que conhecido pela família mais próxima e eventualmente pelo círculo de amigos) pode ser suficiente para a exclusão do posto de trabalho. E, a não ser que não precise de trabalhar para sobreviver, a opção da «revelação» pura e simplesmente não está disponível para a maioria das <em>crossdressers</em> portuguesas.</p>
<p style="text-align: left;">Mas mesmo noutros países não é fácil. A diferença — e daí haverem muitos mais grupos em certos países — é que existe uma comunidade muito mais alargada. Ou seja, ao invés de existir apenas meia dúzia de bares e restaurantes «T»-<em>friendly</em>, há enormes estruturas de apoio para toda a comunidade. Há lojas em Madrid só para <em>crossdressers</em>. Isto permite, por sua vez, a criação de postos de trabalho para quem não se importe de viver apenas no círculo da comunidade — mas pelo menos existem esses postos de trabalho. Por cá evidentemente que organizações como a ILGA Portugal têm a capacidade de contratar <em>crossdressers</em> para o seu quadro… mas é pouco provável que necessitem de mais gente. Até porque estas organizações nasceram quase todas para defender os direitos dos homossexuais e bisexuais, e só tardiamente se confrontaram com a necessidade de incorporar também o grupo «T» — transgénero — nas suas fileiras, já com a estrutura toda montada. Mesmo os núcleos LGBT dos partidos políticos mais fortemente empenhados em defender os direitos das pessoas transgénero não têm, nos seus grupos parlamentares, membros transgénero, mas apenas LGB. Há até <a href="http://rumosnovos-ghc.pt.vu/">movimentos homossexuais católicos</a> mas não têm elementos transgénero.</p>
<p style="text-align: left;">Assim sendo, não é de admirar que as comunidades transgénero em Portugal sejam, essencialmente, <em>secretas</em>&#8230; no sentido de serem o menos públicas possíveis. Os poucos membros raramente mostram o rosto (com evidentemente muitas saudáveis excepções) e tentam evitar ao máximo ser reconhecidos. Nesta época em que tudo aparece no Google e/ou no Facebook, a exposição pública é muito facilitada, e isto é um factor ainda maior para manter a disforia de género o mais «escondida» possível. Seja para encontrar apoio, seja para saír à noite, os indivíduos com disforia de género vão pensar milhões de vezes antes de darem um pequeno passo que permita que sejam «revelados», porque uma vez que o sejam, não é possível voltar atrás. Que aconteceria se finalmente tivéssemos coragem para falar com um psicólogo na área, e por coincidência, encontrássemos um conhecido na sala de espera (para outra consulta) mesmo no momento da entrada para o gabinete?&#8230; ou que o psicólogo, apesar de não lhe reconhecermos o nome, na realidade é o vizinho do 5º andar? Todo esse tipo de coisas é terrivelmente assustador de enfrentar!</p>
<p style="text-align: left;">Em conclusão, as comunidades de indivíduos com disforia de identidade de género aparentemente não crescem, nem mesmo na Internet, que há muito que deixou de ser «completamente anónima», e onde cada mensagem publicada, cada foto partilhada, aumenta exponencialmente o risco de reconhecimento e consequente ostracismo. Mas isto infelizmente tem o agravamento de mostrar que, se estas comunidades não crescem em lado nenhum, não há necessidade de as «defender» ou de encontrar locais onde sejam bem acolhidas. Por outras palavras: se em quinze anos não se criou um verdadeiro grupo de apoio, com sede física algures, estritamente para lidar com indivíduos com disforia de género — sejam <em>crossdressers</em>, transformistas, travestis, transgénero, transsexuais, ou o nome que se queiram dar a si mesmos — então a probabilidade que isso aconteça <em>agora</em> é muito baixa, porque aparentemente o número de indivíduos é o mesmo&#8230; e já na altura eram demasiado poucos para não valer a pena.</p>
<p style="text-align: left;">Para mim só há uma «luz ao fundo do túnel», que já referi anteriormente. É que, ao contrário do que se passava há quinze anos atrás, os <em>comerciantes</em> não têm qualquer problema com as comunidades de indivíduos transgénero. Nestes forums e grupos de discussão só abundam relatos de como mesmo as <em>crossdressers</em> incapazes de passarem despercebidas (por serem demasiado masculinas, como é o meu caso) não têm qualquer problema em serem atendidas em todo o tipo de lojas, cabeleireiros, centros de estética, sapatarias&#8230; Todas temos tido excelentes experiências. No meu caso posso mesmo dizer que nunca fui sequer «vítima» de um olhar mais estranho ou de um comentário «foleiro». Mesmo quando tentava passar mais despercebida, como uma vez a comprar maquilhagem e artigos de beleza no Jumbo das Amoreiras, no meio de vários outros artigos, a empregada apenas sorriu, abanou a cabeça e disse: «Tem piada que me recordei de ter visto outro dia um programa na TV a dizer que haviam muitos homens que compravam maquilhagem para si nos supermercados&#8230;» mas nem sequer foi num tom de crítica. Foi no tom de quem sabe que isso acontece diariamente por este país fora mas que ainda não lhe tinha acontecido.</p>
<p style="text-align: left;">Se houver futuro para as organizações de indivíduos com disforia de género a ultrapassar a barreira da discriminação, será com o apoio do comércio. Isso acho que é positivo!</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://feminina.eu/pt-pt/2012/04/09/as-comunidades-e-as-armadilhas/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>4</slash:comments>
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">450</post-id>	</item>
		<item>
		<title>Os limites no MSN</title>
		<link>https://feminina.eu/pt-pt/2011/10/14/os-limites-no-msn/</link>
					<comments>https://feminina.eu/pt-pt/2011/10/14/os-limites-no-msn/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sandra M. Lopes]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 13 Oct 2011 23:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo online]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://feminina.eu/1970/01/01/os-limites-no-msn/</guid>

					<description><![CDATA[Não sei porque é que tanta gente insiste em querer que eu os acrescente no MSN. Eu raramente estou lá ligada e a webcam funciona pessimamente no MSN — além disso, só dá para estar uma pessoa de cada vez. Prefiro muito mais usar o UStream ou, quando me quero rir um bocadinho, o Cam4. [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Não sei porque é que tanta gente insiste em querer que eu os acrescente no MSN. Eu raramente estou lá ligada e a webcam funciona pessimamente no MSN — além disso, só dá para estar uma pessoa de cada vez. Prefiro muito mais usar o <a href="/" target="_blank">UStream</a> ou, quando me quero rir um bocadinho, o <a href="http://pt.netlog.com/go/out/url=-aHR0cDovL3d3dy5jYW00LmNvbS9zYW5kcmFsb3Blcw__" target="_blank">Cam4</a>.</p>
<p>Seja como for, o que acontece é que acabo por acrescentar toda a gente que me pede o MSN&#8230; e depois atinjo o limite máximo: 600 pessoas! Isso significa que já não dá para mais, e tenho de apagar os contactos que no fundo só me queriam &#8220;coleccionar&#8221; mas que não tinham qualquer interesse em falar comigo para além de duas ou três frases sem nexo e fora de contexto (porque provavelmente já se tinham esquecido de mim quando fizeram o convite&#8230;</p>
<p>Por isso, a partir de agora, só vou acrescentar outras CDs ou TSs, e as raras mulheres que têm de facto curiosidade genuína em falar comigo. Os homens &#8220;confundidos&#8221; ou aqueles que andam apenas à procura de sexo podem esquecer-me para sempre — não só não estou interessada (só gosto de mulheres) como sou casada, e ao contrário do que está na moda neste século, eu levo o meu compromisso de casamento a sério, e tenho alguma dificuldade em compreender para que é que se tomam compromissos se não se tem a menor intenção de os cumprir&#8230; mais vale para isso não os tomar, não é?</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://feminina.eu/pt-pt/2011/10/14/os-limites-no-msn/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>2</slash:comments>
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">28</post-id>	</item>
		<item>
		<title>Ainda há quem ligue à Netiqueta??</title>
		<link>https://feminina.eu/pt-pt/2010/11/02/ainda-ha-quem-ligue-a-netiqueta/</link>
					<comments>https://feminina.eu/pt-pt/2010/11/02/ainda-ha-quem-ligue-a-netiqueta/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sandra M. Lopes]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Nov 2010 01:47:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo online]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://feminina.eu/1970/01/01/ainda-ha-quem-ligue-a-netiqueta/</guid>

					<description><![CDATA[Eu sei que sou &#8220;velhota&#8221; aqui na &#8216;net, e isso faz com que por vezes assuma comportamentos online que fazem muita confusão na cabecinha de muita gente que me manda mensagens, pois estão habituados a formas de comportamento diferentes. Passo a explicar então que não pretendo de alguma forma ofender ninguém ou mostrar-me antipática ou [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><a href="https://feminina.eu/wp-content/uploads/1970/01/condescendente.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-medium wp-image-68" title="condescendente" src="https://feminina.eu/wp-content/uploads/1970/01/condescendente-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" srcset="https://feminina.eu/wp-content/uploads/1970/01/condescendente-300x225.jpg 300w, https://feminina.eu/wp-content/uploads/1970/01/condescendente.jpg 540w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px" /></a>Eu sei que sou &#8220;velhota&#8221; aqui na &#8216;net, e isso faz com que por vezes assuma comportamentos online que fazem muita confusão na cabecinha de muita gente que me manda mensagens, pois estão habituados a formas de comportamento diferentes.</p>
<p>Passo a explicar então que não pretendo de alguma forma ofender ninguém ou mostrar-me antipática ou distante. O meu comportamento online segue apenas umas regras que existiam literalmente no século passado (uma lista incompleta e não muito exacta está na <a href="http://pt.netlog.com/go/out/url=-aHR0cDovL3B0Lndpa2lwZWRpYS5vcmcvd2lraS9OZXRpcXVldGE_" target="_blank">Wikipedia portuguesa</a>; a referência, para quem saiba inglês, é a norma da Internet <a href="http://pt.netlog.com/go/out/url=-aHR0cDovL3Rvb2xzLmlldGYub3JnL2h0bWwvcmZjMTg1NQ__" target="_blank">RFC 1855</a>) conhecidas por &#8220;netiqueta&#8221;, contracção verbal de &#8220;etiqueta na net&#8221;. Eram um conjunto de regras de bom senso que todos os utilizadores da Internet deveriam seguir, sob pena de serem banidos dos serviços. A maior parte das regras estava já em utilização corrente vinte anos antes, mas só em Outubro de 1995 é que se tornaram numa norma.</p>
<p>Por essa altura levava-se isto muito a sério. A Internet é um recurso partilhado (actualmente por dois biliões de pessoas) com uma vastidão imensa de culturas e educação completamente distintas; não é de todo óbvio que todos nos comportemos da mesma maneira. Daí, na altura, ser importante encontrar um conjunto mínimo de regras com que todas as pessoas pudessem concordar de forma a que se mantivesse a interacção entre elas de forma polida e agradável. Afinal de contas, a Internet, como maior ferramenta de comunicação online alguma vez criada, era suposto ser benéfica e positiva para todos. E isto só se consegue se todos se respeitarem mutuamente.</p>
<p>Vou apenas citar alguns exemplos do ponto 4.1.2 das regras de utilização da Internet, em tradução livre, pois são dos mais importantes são para mim:</p>
<p><strong>Não assuma que as pessoas que não conhece têm o menor interesse em falar consigo. Se se sentir motivado a enviar mensagens privadas a pessoas que não conhece, então aceite de boa vontade o facto de que estas possam estar ocupadas ou que não tenham interesse em falar consigo.</strong></p>
<p>Esta é uma daquelas regras que foram completamente distorcidas. Hoje em dia, assume-se que todas as pessoas que estão ligadas online fazem-no apenas para fornecer entreternimento gratuito para o nosso prazer pessoal. Logo, se não respondem aos nossos pedidos de conversa, ou se não nos aceitam imediatemente como amigos nos sites sociais, é porque são mal-educados!</p>
<p>É incrível para mim ver como isto deu uma volta de 180º e agora é usado o sentido oposto ao do senso comum. Na vida real, a maior parte de nós também não mete conversa com estranhos na rua e insulta-os se não nos responderem; no entanto, imensa gente assume este tipo de comportamento online como se fosse a coisa mais natural do mundo!</p>
<p>Pessoalmente não me importo nada que me contactem de forma esporádica e aleatória; nunca se sabe se não se conhece assim um futuro grande amigo! Por isso normalmente respondo sempre. Só não aturo é quem ache que eu tenho &#8220;a obrigação&#8221; de responder, e de o fazer instantanea e constantemente. Para além de três empregos e dos meus estudos, quando estou online, estou com dezenas de pessoas em simultâneo, essas sim, amigos sinceros, ou conhecidos, ou colegas de trabalho, e todos têm prioridade na minha atenção. É para salvaguardar o direito de cada um de nós a responder apenas às pessoas que queremos que esta regra foi imposta.</p>
<p><strong>Não chateie os outros utilizadores insistindo para que lhe forneçam informações pessoais como o seu género, idade, ou localização. Depois de ter estabelecido uma boa relação com outro utilizador, essas questões são mais apropriadas, mas grande parte das pessoas hesita em revelar esse tipo de informação a completos desconhecidos.</strong></p>
<p>Há gente que infelizmente tem tão pouco talento para conversar, e que como só tem um objectivo na vida (ir para a cama com quem contactam), que só sabem mesmo pedir informações pessoais. Há uma arte de fazer conversa. Mas infelizmente as mamãs já não ensinam isto às criancinhas (até porque elas próprias se calhar já não o sabem). Acho esta regra um pouco dura de seguir, porque nem toda a gente tem, de facto, a capacidade de saber fazer perguntas interessantes a outra pessoa. Perguntar-lhe por dados pessoais (&#8220;És casada? Onde moras? Quantos anos tens?&#8221;) é um facilitismo.</p>
<p>Para simplificar a vida a essas pessoas, convencionou-se que todos estes sites sociais teriam <em>perfis de utilizador</em>. Estabelecem um equilíbrio natural entre o que as pessoas estão dispostas a falar de si próprias, e aquilo que não é permitido perguntar-lhes. É uma cortesia fornecer-lhes a informação mais completa que não se importam de revelar: poupa trabalho a ambas as partes!</p>
<p>Ironicamente, hoje em dia, ninguém se importa de passar uma hora ou duas a insistir que lhe digam pormenores sobre a vida pessoal de alguém que acabaram de encontrar na &#8216;net, mas não têm paciência de perder 10 minutos a ler o seu perfil&#8230;</p>
<p>Seja como for, não existe a obrigatoriedade de ter um perfil, ou de o ler previamente antes de contactar alguém pela primeira vez. Só é obrigatório respeitar a quantidade de informação pessoal que as pessoas estão dispostas a revelar sobre si próprias.</p>
<p><strong>Se um utilizador usar um &#8220;nickname&#8221; ou pseudónimo, respeite o desejo de privacidade desse utilizador. Mesmo que seja um amigo íntimo desse utilizador, é mais cortês utilizar o seu &#8220;nickname&#8221; em conversas públicas na Internet. Não utilize o seu nome real sem permissão.</strong></p>
<p>Esta regra prende-se com a anterior e também tem a ver com a privacidade. Não, o meu BI não mostra &#8220;Sandra&#8221; no nome, e não tenciono mostrá-lo na webcam. A geração Facebook, onde as pessoas praticamente só lhes falta meter o PIN do Multibanco online, acabou completamente com esta regra, e essa é uma das muitas razões pela qual odeio o <a href="http://pt.netlog.com/go/out/url=-aHR0cDovL3B0Lndpa2lwZWRpYS5vcmcvd2lraS9NYXJrX1p1Y2tlcmJlcmc_" target="_blank">Mark Zuckerberg</a> (e todos sabem como é que ele criou o Facebook e para quê, não é verdade :-o. No entanto, lá porque esteja fora de moda manter uma certa privacidade na &#8216;net, isso não quer dizer que não se deva respeitar o desejo de privacidade de terceiros.</p>
<p>Só quem (como eu) já passou por situações desagradáveis devido a ter demasiada informação online (no meu caso, perseguiam-me para fazer chantagem e extorsão, sabendo quase sempre onde estava porque viam de onde me estava a ligar ao MSN com o meu nome real) é que dá real valor a esta regra antiga. Como felizmente são poucas as pessoas que alguma vez se preocuparam com isto, a regra caiu em desuso. No entanto, é irónico que acontece tanta escandaleira (e divórcios!) só porque as pessoas se esquecem que toda esta informação é pesquisável e facilmente acessível&#8230; e só depois de acontecer uma tragédia é que pensam duas vezes que se calhar um pouquinho mais de privacidade nunca fez mal a ninguém.</p>
<p>A privacidade é um direito fundamental, consagrado na Declaração Universal de Direitos Humanos, transposto para a Constituição Portuguesa. Podem dar a importância que quiserem a este direito, mas devem pelo menos respeitar a privacidade dos outros, mesmo que não liguem à vossa.</p>
<p>E pronto, ficam assim a saber porque sou antiquada e porque pareço, por vezes, &#8220;distante&#8221; ou &#8220;antipática&#8221;. Não é por nenhuma outra razão que esta: foi assim que me ensinaram as regras de utilização da Internet quando me liguei pela primeira vez, mesmo no final de 1991, e em que estas regras eram levadas a sério e respeitadas por todos. Como faziam sentido para mim — e ainda hoje continuam a fazer sentido! — continuo a segui-las com o maior rigor que consigo. Não me preocupa ser considerada &#8220;antiquada&#8221; ou &#8220;adepta de regras e comportamentos fora de moda&#8221;; não sigo regras arbitrárias, mas apenas aquilo que o senso comum me mostrou, durante quase duas décadas, ser a forma mais correcta de lidar com perfeitos estranhos na Internet, respeitando-os e conquistando assim também o respeito de muitos.</p>
<p>Acredito, no entanto, que muitas pessoas se comportam online sem qualquer intenção maliciosa ou ofensiva; apenas o fazem porque imitam comportamentos de outros que conheceram e acham que &#8220;não há mal nenhum&#8221;. Desconhecem que a Internet, como todos os espaços de interacção humanos, tem as suas regras e normas de conduta éticas, e é apenas por ignorância que não os seguem, não por maldade ou &#8220;rebeldia&#8221;. Ninguém &#8220;impôs&#8221; estas regras e normas; surgiram espontaneamente por terem sido adoptadas por uma enorme quantidade de pessoas ao longo de várias décadas, e porque as comunidades que as adoptaram tenderam a sair-se melhor e a terem mais participantes activos que se respeitavam mutuamente. Logo, ninguém é &#8220;obrigado&#8221;, hoje em dia, a segui-las. Mas podemos sempre aprendê-las, conhecê-las, e ver se fazem sentido para nós.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://feminina.eu/pt-pt/2010/11/02/ainda-ha-quem-ligue-a-netiqueta/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">33</post-id>	</item>
		<item>
		<title>O século XXI e as relações humanas</title>
		<link>https://feminina.eu/pt-pt/2009/11/02/o-seculo-xxi-e-as-relacoes-humanas/</link>
					<comments>https://feminina.eu/pt-pt/2009/11/02/o-seculo-xxi-e-as-relacoes-humanas/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sandra M. Lopes]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Nov 2009 01:05:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Identidade de género]]></category>
		<category><![CDATA[Mundo online]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://feminina.eu/1970/01/01/o-seculo-xxi-e-as-relacoes-humanas/</guid>

					<description><![CDATA[Dedico estes pensamentos aos poucos entre vocês que tiveram a paciência de ler o meu perfil ; que sabem que sou uma pessoa plenamente realizada na minha relação de 12 anos de pura felicidade com a minha cara-metade; que compreende as minhas fantasias e os meus fetiches, e que ou os partilha (e por isso [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Dedico estes pensamentos aos poucos entre vocês que tiveram a paciência de ler o <a href="http://pt.netlog.com/Sandra_M_Lopes/extra" target="_blank">meu perfil</a> ; que sabem que sou uma pessoa plenamente realizada na minha relação de 12 anos de pura felicidade com a minha cara-metade; que compreende as minhas fantasias e os meus fetiches, e que ou os partilha (e por isso se fez &#8220;amigo(a)&#8221; aqui no Netlog, ou que os acha divertidos sem partilhar dos mesmos gostos, o que pelo menos os aceita — sabendo que não estou aqui no Netlog (ou na outra meia centena de sites por essa Web fora) à &#8220;procura&#8221; de absolutamente nada, para além de gente simpática com quem conversar e trocar ideias.</p>
<p>Em 2000, a <a href="http://pt.netlog.com/go/out/url=-aHR0cDovL3d3dy5uYXRpb25tYXN0ZXIuY29tL2dyYXBoL3Blb19kaXZfcGVyXzEwMF9tYXItcGVvcGxlLWRpdm9yY2VzLXBlci0xMDAtbWFycmlhZ2Vz" target="_blank">percentagem de divórcios</a> entre os 20 países que mais divórcios têm no mundo rondava os 40% (Portugal tinha 30%). Desde então tenho a certeza que esta percentagem aumentou, e não é por uma questão de &#8220;perversidade&#8221;, de gostar de ver as coisas a correrem mal, mas porque vou observando a reacção das pessoas à minha volta, na vida real e também no mundo online (pessoas são pessoas!), e acredito que aquilo que era já verdade em 2000 ainda se torna cada vez mais verdade em 2009, a tendência para o que vou descrever já de seguida é a mesma&#8230;</p>
<p>Estava a assistir a uma conversa entre a minha sogra e a minha cunhada, duas pessoas com as quais passo umas horas agradáveis pelo todos os fins de semana. A minha sogra é divorciada (e mais feliz assim; até porque continua a dar-se bem com o ex, desde que deixou de ser &#8220;obrigada&#8221; a viver com ele <em>todos os dias</em>&#8230;). A minha cunhada, desde que largou o último namorado há uns 8 anos (penso eu) nunca mais &#8220;procurou&#8221; nenhum outro. Ambas (mas especialmente a minha cunhada!) comentavam sobre a total ausência de homens decentes que estivessem disponíveis, mas não num tom lamuriento, mais numa perspectiva destacada, não emocional, de uma constatação de um facto. Há mais mulheres que homens (um facto demográfico inegável), e os poucos homens disponíveis &#8220;revelam-se&#8221; homossexuais. Os restantes, numa palavra, &#8220;não prestam&#8221;. Não admirava, concluíam, que tantas mulheres encontrassem em vez disso parceiras do género feminino. Talvez nem sequer se &#8220;sentissem&#8221; lésbicas, no sentido mais corrente da palavra. Nem sequer o fariam por uma questão puramente sexual, mas mais por alguma necessidade intrínseca à espécie humana de quererem um(a) companheiro(a) para partilharem um lar e uma vida. Se não há homens &#8220;decentes&#8221; disponíveis, pelo menos podiam ambicionar a viverem com uma mulher. Mais uma vez, o objectivo não é prazeres loucos nocturnos e satisfação plena sexual: mas apenas a procura do companheirismo, que rompe a eterna solitude de uma casa vazia que não é um lar&#8230;</p>
<p>Assisti ao desenrolar da conversa com algum interesse, sem contribuir, mas também estava a reflectir sobre o que conheço de outras pessoas próximas de mim, ou das pessoas que não conheço mas cujos perfis leio nos vários sites da Internet. O que são esses tais &#8220;homens decentes&#8221; de que elas falavam, e que eram tão complicados de encontrar? À partida, pensaria, ingenuamente, de que a probabilidade de encontrar um ou outro tipo (disponível!) seria, regra geral, a mesma. Tal como <a href="http://pt.netlog.com/go/out/url=-aHR0cDovL2Z1dHVyZXBvc2l0aXZlLnN5bmVhcnRoLm5ldC8yMDAzLzA1LzE4Lw__" target="_blank">a estupidez humana é uniformemente distribuída</a>, parece-me que as restantes características (incluindo a simpatia!) deveriam seguir a mesma curva de probabilidades. Não faria sentido dizer que &#8220;todos os homens ou estão comprometidos, ou são homossexuais, ou não prestam&#8221; — pareceria redutor e muito estereotipado!</p>
<p>Mas depois analisei melhor. Olhei para os meus próprios sites, que salvo erro exibem fotos minhas desde 1999 — e uma década dá para fazer uma análise muito prolongada no tempo. Inicialmente, o primeiro site que coloquei no ar tinha o objectivo de partilhar uma fantasia comum, um fetiche, com outras pessoas com os mesmos gostos. E nos primeiros anos assim era: a Internet era ainda relativamente jovem, pouco apelativa fora de um círculo restrito de pessoas, mas era frequente congregar pessoas de todo o mundo com os mesmos gostos no mesmo site. Éramos, pois, pessoas bastante parecidas: tínhamos os mesmos gostos, e, logo, pensávamos da mesma forma, entendíamo-nos bem, e, regra geral, a Internet era o &#8220;nosso&#8221; local de convívio privilegiado, separados que estávamos geograficamente, sem possibilidade de alguma vez nos virmos a juntar.</p>
<p>Com o tempo, os sites sociais na Internet foram mudando de &#8220;estilo&#8221;. Mais e mais se tornaram em <em>dating sites</em> — locais onde o único propósito é encontrar um(a) parceiro(a), ocasional ou permanente, e essa é a única razão pelas quais as pessoas se inscrevem neles. Apercebi-me disso só relativamente recentemente, quando uma amiga minha (também divorciada), muito inteligente, muito culta, muito crente e, principalmente, muito decente, se inscreveu no hi5, e o único objectivo dela a fazê-lo foi justamente &#8220;procurar um parceiro&#8221;, já que &#8220;na vida real&#8221;, tal como a minha cunhada, isso parecia impossível. Não a critiquei, claro — uma em cada oito pessoas no mundo moderno conhece-se pela Internet e &#8220;isto&#8221; não é diferente de ir &#8220;engatar miúdas&#8221; a um bar, com a diferença que se conhece mais gente mais depressa e se pode fazer um processo de selecção rápido de um grande número de pessoas&#8230;</p>
<p>Alguns sites (e infelizmente o Netlog parece ser um desses) praticamente só existem por causa disso. Posso-vos dar o meu exemplo: das cerca de 300 pessoas que insistem ainda em &#8220;quererem ser meus amigos&#8221; no Netlog, 280 querem ir para a cama comigo, e esse foi o único objectivo de me contactarem. É mais de 90%! Não sei se 300 pessoas são uma amostra significativamente válida, mas é de certeza um bom indicador. Noutros sites, que são claramente anunciados como &#8220;dating sites&#8221;, claro que a percentagem é de 100%. Mas noutros sites em que me inscrevi mais recentemente, que não são anunciados como tal, essa percentagem anda também pelos 90-100%. (No passado foi isto que me fez abandonar o hi5, quando o nível de insultos atingiu um tal ponto que estava farta de aturar os putos que por lá andavam.)</p>
<p>Isto por si só não seria muito mau, seria como imaginar que vamos a uma discoteca em que 90% das pessoas que lá estão só vão para uma coisa: encontrar um(a) parceiro(a) para essa noite. Acredito que haja espaços assim! E não é por isso que os posso criticar, as pessoas fazem o que quiserem, com quem quiserem&#8230; Mas vamos agora ver a perspectiva de quem são esses 90%, e é aqui que a questão começa a ser interessante (ou talvez assustadora!).</p>
<p>É raríssimo não responder a quem me envie uma mensagem minimamente bem educada, mesmo que não o faça imediatamente; não tenho tempo para estar sempre no Netlog, e fascino-me com a quantidade de tempo disponível que tanta gente tem para estar &#8220;sempre online no engate&#8221;. Não é o meu caso, e peço antecipadamente desculpa a todos aqueles que acabam por esperar uns dias até eu responder; não o faço por má educação, mas apenas porque simplesmente não tenho assim tanto tempo disponível como vocês!</p>
<p>Mas quando o faço, é raro trocar mais de 2-3 mensagens com a mesma pessoa. Primeiro de tudo, muito mais de 90% das pessoas (todos homens) nunca lêem o meu perfil, nem lêem o meu blog. Mais de 80% nem sequer sabe que tenho aqui vídeos disponíveis. Ninguém olha para as &#8220;tags&#8221;. E mesmo as fotos, só vêem meia dúzia delas, provavelmente as primeiras e as últimas.</p>
<p>Baseado nisto, a abordagem dos homens é sempre a mesma (parece que todos andaram na mesma escola). Primeiro fazem um elogio pouco sofisticado, mas não deixa de ser um elogio. Depois perguntam onde vivo (prova de que não leram o meu perfil) e pedem o MSN (assim têm a noção bizarra de que têm um &#8220;contacto mais directo&#8221; comigo, já que me podem ver na webcam ao vivo e a cores). Quase de certeza nas primeiras mensagens vão sugerir um encontro ou um café. Têm a arrogância de pensar que pelo mero facto de serem homens e me terem feito um elogio eu estarei imediatamente perdida de amores por eles e que terei uma compulsão irresistível em aceitar&#8230;</p>
<p>Geralmente dou o meu endereço MSN a quem mo pede, na vã esperança de que algumas das pessoas que me acrescentem sejam realmente pessoas interessantes, que saibam conversar, e que tenhamos de facto algum interesse comum. É uma ingenuidade da minha parte, eu sei. Aqui já nem é 90%, mas sim 99% dos casos em que realmente nada têm para dizer. Para já, irrita-me profundamente que nem se lembrem de mim. Aqui no Netlog é só pedinchar, pedinchar, pedinchar, mas quando estão no MSN já nem sabem quem sou, ou porque pediram o meu contacto. Porquê? Porque como andam a &#8220;coleccionar amigas&#8221;, e só é homem quem tem pelo menos umas 500, duas para cada noite do ano, é evidente que já não se lembram de nenhuma. No entanto, claro, esperam que <em>eu</em> me lembre deles imediatamente, com uma memória <em>perfeita</em>, e que esteja entusiasmadíssima por os conhecer!</p>
<p>O passo seguinte, provavelmente depois do &#8220;olá&#8221; e &#8220;onde moras&#8221; (como se não estivesse no me perfil&#8230;), é, obviamente, ligar a webcam. Há uns anos atrás ainda havia algum &#8220;Jogo de flirt&#8221; neste passo: voltava o tradicional elogio, umas gracinhas sem piada nenhuma, depois, provavelmente com a webcam aberta com mais umas 5 ou 10 ou 20 em simultâneo, escolhiam a que lhes parecia melhor dessa noite, e descartavam o resto. Por vezes, quando só me tinham a mim, então a conversa desenrolava-se de molde a confirmarem que a pessoa que viam na webcam era a mesma das fotos (duh!), e uma vez estabelecido isso, passava-se ao tradicional &#8220;baixa a web&#8221; (que levei um ano a perceber que estavam a falar da web<em>CAM</em>, mas tudo bem), e, se e aceitasse, mais uma voltinha (para confirmar que não estavam a ver um filme, claro), e depois, pronto, é na base do show de strip erótico&#8230; e se eu aceitasse (coisa que não faço), seria o convite para passar a noite em casa deles.</p>
<p>Hoje em dia, nem sequer existem esses passos todos. Eles não têm tempo. É mesmo, &#8220;olá, onde moras, já não me lembro de ti, estou com um tesão, queres ver? mostra as mamas/levanta a saia, dá-me o teu número&#8221;. E pronto, se não responder que sim a tudo em 5 picossegundos, passam à menina seguinte, pois alguma haverá &#8220;disponível&#8221;&#8230;</p>
<p>Se pensam que estou a exagerar&#8230; bem gostaria de dizer que estou. Talvez o mais frustrante é ver que <em>todos são assim</em>. Os mais simpáticos a início ainda são os magrebinos; são um pouco mais tímidos a início, pouco habituados às libertinagens ocidentais, mas logo que lhes façamos um sorriso, derretem-se todos, e falam de casamento (que obviamente não tencionam consumar, mas é o habitual para a cultura deles, presumo eu). Ao contrário dos tugas, que desistem depressa (&#8220;há mais meninas na &#8216;net&#8230;&#8221;), os magrebinos tendem a agarrar-se que nem lapas quando uma &#8220;ocidental&#8221; lhes dá atenção. De resto não há grande diferença entre pessoas, especialmente da geração entre os 25-50 anos.</p>
<p>A partir dos 50 anos já se apanham algumas pessoas mais bem educadas, mas não aqui no Netlog. Encontro-os noutros lados, mas são pessoas <em>que pelo menos lêem o meu perfil</em> e não me contactam &#8220;por acaso&#8221;.</p>
<p>Já resmunguei muitas vezes por causa disto, é verdade; mas se calhar nunca me perguntei verdadeiramente a sério sobre o &#8220;porquê&#8221;. É evidente que há uma concepção de que quem anda à procura de parceiro/a sexual para &#8220;curar o tesão&#8221;, está na net. É mais &#8220;limpo&#8221; e mais seguro, não é preciso ir primeiro à procura nas discotecas e bares, em que se consegue, no mínimo, &#8220;meter conversa&#8221; com uma meia dúzia por noite. Na &#8216;net podem meter conversa com dezenas durante uma noite toda, escolher as que estão disponíveis, e <em>depois</em> ir para um bar/café/discoteca/cama com elas. É mais cómodo. Ainda poderíamos achar que seria um bom método para seleccionar qualidade de entre tanta quantidade, mas nem é sequer o caso: o único critério é mesmo disponibilidade. &#8220;Querida, estás disponível&#8230;?&#8221; Se sim, óptimo, continua-se a conversa. Senão, apaga-se do MSN, e vão-se buscar mais contactos. É indiferente quem são, ou como são. O que importa é estarem disponíveis.</p>
<p>Até aqui tudo bem, os últimos anos online têm sido bastante monótonos ao ver que <em>todos</em> são assim, daí agora fazer-lhes a pergunta se estou a falar com um <em>chat bot</em>, pois têm todos o mesmo <em>modus operandi</em>, usando praticamente as mesmas palavras e sequência de conversa (mas eles nem sabem o que é um <em>chat bot</em>, tal como não sabem o que quer dizer &#8220;crossdresser&#8221;). Se é que se pode chamar mesmo de &#8220;conversa&#8221;. Não há realmente grande esforço: o objectivo mesmo é que a menina escolhida para a noite se dispa ali e agora &#8220;para aproveitar o tesão&#8221;. Se levar muito tempo (ou seja, mais de minuto e meio), passa-se à seguinte antes que o tesão se vá e se tenha de esperar pelo próximo. Ao fim de algumas dezenas, presumo eu, hão-de encontrar uma menina que lhes mostre as mamas e pronto, já podem masturbar-se à vontade, ou, nas palavras deles, &#8220;aproveitar o tesão antes de ir dormir descansados&#8221;. Ao fim de umas centenas, alguma, quiçá mais desesperada por alguma companhia, pode ser que até lhes ceda o telemóvel e que se encontre com eles.</p>
<p>Seria triste se não fosse realmente uma tragicomédia. Mas a minha pergunta era sempre &#8220;porquê?&#8221;</p>
<p>Foi talvez a conversa entre a minha cunhada e a minha sogra que me despertou para a realidade. Estamos, mais do que nunca, no auge de uma era de hedonismo que atinge proporções inacreditáveis. Não sou, obviamente, uma puritana, nem tenho sequer qualquer pretensão de ser moralista. No entanto, choca-me a noção de que as pessoas em geral — e para mim, 90% das pessoas é claramente &#8220;em geral&#8221;! — só tenham uma única coisa em mente: a satisfação pessoal dos seus desejos (neste caso, sexuais) a todo o custo. E não só é a satisfação pessoal que está em jogo — todos queremos isso — mas a satisfação pessoal <em>imediata</em>. Este hedonismo é já tão predominante nas mentes das pessoas que por aí andam por este Netlog fora que é confrangedor ver que há como que uma cegueira a tudo o resto. Vejo gente a passar horas e horas online com esse único objectivo em mente: alguém que os satisfaça, e já, sem colocar perguntas complicadas, sem sequer pensar duas vezes, depressa, rapidamente, sem confusões. Nem é a objectificação da pessoa que está do outro lado da webcam; é a auto-objectificação que me assusta! Eles definem-se apenas pela necessidade de quererem gratificação imediata. Nunca sei quais são os seus interesses, de que gostam e de que não gostam, do que fazem, do tempo que passam com amigos ou familiares. Tudo isso é secundário, irrelevante. Tudo o que conta é: quantas é que consigo que me mostrem as mamas (ou o rabinho) esta noite? Será que alguma delas quer ir para a cama comigo e aproveitar o meu tesão? E assumem, imediatamente, excluindo qualquer alternativa que elas querem exactamente o mesmo.</p>
<p>É a isto que estão reduzidas as relações humanas neste século XXI. Eles procuram parceiros sexuais para o imediatismo da sua gratificação pessoal, e mais nada lhes interessa. Não querem saber do que elas gostam, o que elas querem, ou sequer o que pensam. Talvez há 10, 20 anos ainda procurassem ser educados e faziam alguma conversa: não quer dizer que não pensassem da mesma forma (&#8220;esta gaja é uma seca, a tanga que lhe tenho de dar para que ela se abra um bocadinho, mas tudo bem, cá vamos e logo se verá&#8221;), mas pelo menos <em>fingiam</em> que não era assim. Esse &#8220;fingimento&#8221; ainda lhes permitia, pelo menos, conhecer quem estava do outro lado. E se a relação durasse um pouco mais antes da inevitável separação, pelo menos tinham uma vaga ideia com quem tinham passado uns anos.</p>
<p>Mas hoje em dia?&#8230; Não há qualquer &#8220;pretensão&#8221;. Há apenas um objectivo, bem claro, nu e cru: eu tenho um tesão, eu quero gratificação imediata, dá-ma já ou passo para a seguinte. E quando deixares de me conseguir gratificar, não faz mal, onde te arranjei posso arranjar mais umas dezenas. Não há pruridos: são já poucos que perguntam se sou casada, se tenho filhos ou família. Não interessa. O que interessa é: estou disponível ou não?</p>
<p>Nos raros casos em que este tipo de conversa acabe numa &#8220;relação&#8221; que dure mais do que uma noite (o que é provável, mas também há mulheres para tudo&#8230;), qual é a consequência? É inevitável que a capacidade de gratificação termina ao fim de um certo tempo. A &#8220;paixão&#8221; (leia-se: &#8220;o aproveitamento do tesão&#8221;) não dura para sempre, e é impossível ser-se ingénuo ao ponto de acreditar no contrário. Inevitavelmente acaba — há sempre melhor algures, e na net é tão fácil de descobrir. Por isso, descarta-se a relação logo que se encontra outra coisa (nem uso já a palavra &#8220;pessoa&#8221;!&#8230;) mais interessante. Para alguns, dura uns dias ou semanas; para outros meses; mas é raro durar anos. É natural: ao fim de uns anos, na realidade, estamos a viver com estranhos, estranhos esses que nem sequer consideramos como seres humanos, mas apenas meros objectos que auxiliam na auto-gratificação e mais nada. Tudo o resto são &#8220;coisas que aturamos&#8221; (ao mesmo nível de pagar impostos e a conta da luz), mas é mais ou menos ao nível de &#8220;incómodos&#8221; que existem nesta vida de sofrimento para que possamos gozar os momentos de prazer, que duram meros instantes.</p>
<p>Mas na época pré-Internet se calhar &#8220;aturávamos&#8221; melhor estes &#8220;incómodos&#8221; porque havia pouca opção. Há um limite de amigos(as) que conseguimos conhecer na nossa atarefada vida do quotidiano laboral e familiar. Como disse, não é passando as noites na ronda dos bares e discotecas, qual Santana Lopes, que vamos conseguir reunir um número suficiente de &#8220;disponíveis&#8221; para satisfazerem os nossos impulsos hedonistas. Assim, havia um certo equilíbrio: &#8220;aturávamos&#8221; uma relação porque sair dela e começar com outra levava algum tempo.</p>
<p>A Internet mudou tudo isso. Agora eles podem estar a falar com vinte &#8220;potenciais&#8221; ao mesmo tempo no espaço entre um tesão e outro. E no dia seguinte, há mais vinte <em>diferentes</em>, e depois, outras vinte, e mais cinquenta, e cem, e mil. Talvez não saibam, mas a espécie humana, devido à evolução enquanto espécie gregária, tem um limite de pessoas com as quais consegue manter uma relação de afecto e proximidade — cerca de 150 pessoas. Tudo para além desse número é registado pelo nosso cérebro como meros &#8220;estereótipos&#8221;. Este número não é fixo, ou seja, podemos &#8220;empurrar&#8221; pessoas para fora desta esfera de &#8220;amigos&#8221; e incorporar novas pessoas. No entanto, tratamos todas as pessoas fora deste grupo como meros objectos, sem personalidade.</p>
<p>No dia a dia, não conseguimos &#8220;encher&#8221; esta esfera pessoal de relacionamentos muito depressa: 150, que é o tamanho de uma &#8220;tribo&#8221; ou &#8220;clã&#8221;, ou nas épocas recentes, &#8220;aldeia&#8221; ou &#8220;bairro&#8221;, é algo que leva algum tempo a criar. Podemos com facilidade pensar nos nossos tempos de liceu ou universidade, em que poderíamos ter grupos de 20-30 amigos regulares e próximos de nós, mais outros tantos familiares, mais se calhar uns 20 da turma de artes marciais ou do ginásio, e outros tantos colegas de trabalho, e assim por diante.</p>
<p>Mas quando chegamos à &#8216;net, tudo muda! Apenas olhando para fotos no Netlog, clicamos numa centena de pessoas por dia sem pestanejar, e no dia seguinte mais outra centena, e mais outra, e assim por diante. Amigos meus regozijam-se de terem &#8220;5000 pessoas a segui-las no Twitter/Facebook&#8221;. 5000&#8230; pessoas? Ou meramente &#8220;coisas&#8221;? É que é impossível lembrarmo-nos dos nomes de 5000 pessoas, quanto mais de verdadeiramente as <em>conhecer</em>, de saber quem são, e de estabelecer relações e elos fortes com elas&#8230;</p>
<p>Não sou contra a Internet, antes pelo contrário. A Internet fez-me encontrar imensas pessoas com as quais tenho muito em comum, e que seria de todo impossível encontrar de outra forma. Fez-me partilhar gostos e conversas interessantes durante horas com imensas pessoas. Fez-me estabelecer laços de amizade com dezenas e dezenas de bons amigos e amigas, com os quais me mantenho em contacto, muitas vezes diariamente.</p>
<p>Só não me fez relacionar-me com 5 ou 10 mil &#8220;coisas&#8221; que descarto na primeira oportunidade que tenho. Mas tenho consciência de que não sou realmente uma habitante deste Século do Hedonismo, que me assusta.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://feminina.eu/pt-pt/2009/11/02/o-seculo-xxi-e-as-relacoes-humanas/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>8</slash:comments>
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">38</post-id>	</item>
		<item>
		<title>Fetiches e incompreensão&#8230;</title>
		<link>https://feminina.eu/pt-pt/2009/02/03/fetiches-e-incompreensao/</link>
					<comments>https://feminina.eu/pt-pt/2009/02/03/fetiches-e-incompreensao/#comments</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sandra M. Lopes]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Feb 2009 16:12:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Identidade de género]]></category>
		<category><![CDATA[Mundo online]]></category>
		<category><![CDATA[Relações]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://feminina.eu/1970/01/01/fetiches-e-incompreensao/</guid>

					<description><![CDATA[Devo confessar que estou pouco habituada às comunidades online portuguesas (ou frequentadas intensamente por portugueses, como é caso do Netlog). E a razão é simples: parece que estão &#8220;congeladas&#8221; no tempo e ainda não saíram de 1995/6, altura em que tudo o que estava online era essencialmente pornografia e/ou websites para encontros. Bom, tudo, tudo, [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Devo confessar que estou pouco habituada às comunidades online portuguesas (ou frequentadas intensamente por portugueses, como é caso do Netlog). E a razão é simples: parece que estão &#8220;congeladas&#8221; no tempo e ainda não saíram de 1995/6, altura em que tudo o que estava online era essencialmente pornografia e/ou websites para encontros.</p>
<p>Bom, tudo, tudo, não era&#8230; mas era muito <img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f642.png" alt="🙂" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /> Ainda hoje em dia, cerca de 20% de toda a Web é dedicada àquilo que os anglo-saxónicos chamam de &#8220;conteúdo adulto&#8221;. Um em cada cinco sites. É ainda muitíssimo, mas já estamos habituados&#8230; e não nos parece tanto.</p>
<p>No fim de semana passado, estava num dos meus sites de webcam chat favoritos, e que tem uma sala para pornografia (claro!) para além de muitas &#8220;meninas&#8221; que estão disponíveis para todo o tipo de shows a um preço módico de US$2/minuto. Mas&#8230; a parte interessante desse site nem é isso. Nas salas &#8220;normais&#8221; estivémos várias horas a discutir história, religião e política. Horas e horas a fim — com um americano condenado a estar preso em casa uns meses (os tais da pulseirinha), uma tocadora de violoncelo montenegrina que vivia na Alemanha, dois holandeses, uma residente da Estónia, um inglês&#8230; e uma portuguesa solitária, eu <img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f642.png" alt="🙂" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /> Ocasionalmente apareciam mais pessoas, claro, e ficavam uns minutos à conversa, a trocar opiniões, a discutir pontos de vista, a dar a sua visão pessoal da sua cultura — aprendi que a bolsa de mercados de acções foi uma invenção holandesa, e explicámos ao tal americano em prisão domiciliária que a cidade de Nova Iorque outrora se chamava Nova Amsterdão e que foi vendida pelos holandeses aos ingleses, que depois lhe mudaram o nome — mas que até ao final do século XVIII ainda havia uma vasta colónia holandesa no estado de Nova Iorque.</p>
<p>Provavelmente a maioria das pessoas que por aqui andam, portuguesíssimos de gema, ficariam chocados: &#8220;então há gente na Internet que perde tempo nessas coisas?? Afinal de contas, a Internet é só para sexo e contactos sexuais, para quê perder tempo a falar de história??&#8221;</p>
<p>É verdade, eu perco o meu tempo nesse tipo de conversas. E &#8220;perco&#8221; <em>todo</em> o meu tempo nisso. Porquê? Porque a noção da &#8220;Internet só para sexo&#8221; tinha piada lá por 1997 quando apareceram as primeiras webcams, mas sinceramente, ao fim de dez ou doze anos, a &#8220;novidade&#8221; esgotou-se para mim. Já não tenho paciência.</p>
<p>No entanto, aqui no Netlog vejo-me infelizmente confrontada com essa visão arcaica das comunidades online todos os dias. Todos os dias lá aparecem uns totós que clicam no meu perfil, nem leêm nada, olham para a minha fotografia, e lá mandam uma mensagem a dizer: &#8220;olá, és muito gira! Como te chamas? Onde moras? Que idade tens?&#8221; Como se não estivesse lá tudo no perfil, em detalhe minucioso&#8230; só falta fotocópia do BI e o Google Maps com indicações. E também em detalhe ainda mais minucioso explico que vivo com a minha cara-metade há 11 anos, em mútua felicidade, e que tencionamos continuar assim por muitas e muitas décadas. E que, obviamente, não tenho o menor interesse em conhecer ninguém ou ir tomar cafezinhos ou planear jantaradas. Tenho o meu círculo de amigos e familiares para isso; e somos todos suficientemente inteligentes para <em>saber ler um perfil até ao fim</em>. Se digo claramente que não estou interessada, para que é que insistem?</p>
<p>A verdade é que as pessoas que vejo por aqui são todas de dois tipos, com raríssimas excepções (talvez uma em cem&#8230;): ou uns egoistas profundos (que só pensam em si próprios, e nem lhes passa pela cabeça de que as pessoas possam <em>não</em> querer estar com eles — se <em>eles</em> querem, nós temos de querer também), ou uns coitados frustrados lamuriosos e choramingas, que olham para estas comunidades online como o último refúgio para tentarem desesperadamente encontrar alguém como eles. Muitas vezes até encontram: há muitos desesperados.</p>
<p>Os egoístas ignoro-os, pois é a única forma de o fazer. São os &#8220;coleccionistas de amigos online&#8221;. Entre duas bejecas e no meio do jogo do Benfica, gabam-se aos amigos de que têm mais de 500 &#8220;gajas boas&#8221; no perfil como &#8220;amigas&#8221;. Enfim. É mais uma forma de gabarolice, como qualquer outra. Provavelmente nem conseguem ter uma conversa inteligente por mais de cinco minutos com qualquer uma dessas 500 &#8220;gajas boas&#8221;. Mas nem querem. Para quê? Só estão aqui para uma coisa: sexo fácil e rápido, e em quantidade, com o maior número de &#8220;gajas boas&#8221; possíveis. Algumas delas infelizmente estarão desesperadas o suficiente para aceitarem os convites.</p>
<p>Pelos desgraçadinhos apenas posso manifestar a minha compaixão e ter pena deles. Posso encorajá-los, claro, mas se os encorajo demasiado, já sei que se vão agarrar a mim qual tábua de salvação no meio de um naufrágio. São pessoas normalmente muito frágeis, com o ego muito magoado, e que precisam de apoio e carinho, não indiferença. Mas são também relativamente poucos aqui: provavelmente perceberam que a esmagadora maioria só tem um mega-ego e uma líbido sexual de um adolescente que acabou de entrar na sua primeira sex shop (independentemente da idade, claro), e, sendo tímidos, acabam por se afastar.</p>
<p>Curiosamente, dentro destes tipos há efectivamente muitas pessoas cultas e inteligentes (especialmente no grupo dos tímidos). Lembro-me sempre da história de uma amiga minha, mais velha que eu, e divorciada há muito tempo. É uma pessoa extremamente simpática, muito culta, muito bem disposta, capaz de falar sobre qualquer assunto durante horas, e capaz de se interessar por qualquer coisa que lhe digam sem se aborrecer — marca de inteligência e educação. Há uns anos que anda um pouco frustrada por não conseguir encontrar o seu Príncipe Perfeito (por mais que nós, amigas dela, lhe digamos que essa ficção não existe). Em desespero, recorreu às comunidades online, e o perfil dela anda por aí espalhado em quase todo o lado. Porquê? Porque na mente dela — como na mente de tanta gente que por aqui vejo — em crise de desespero para encontrar um companheiro, as comunidades online são &#8220;o último recurso&#8221;.</p>
<p>Ora se eu não estou minimamente interessada em arranjar &#8220;companheiros&#8221;, parceiros sexuais (ocasionais ou permanentes), ou mesmo &#8220;amigos&#8221; para tomar &#8220;um cafezinho&#8221;, então porque é que ainda aqui estou??</p>
<p>Quando as comunidades online começaram a aparecer um pouco por todo o lado, mesmo antes de existir uma Internet pública e acessível, havia uma coisa fabulosa que elas permitiam: a possibilidade de encontrar pessoas com os mesmos interesses e as mesmas ideias, sem ter de andar centenas ou milhares de quilómetros para as encontrar. Em vez de olharmos à nossa volta em busca dessas pessoas, podíamos conversar com elas via os sistemas online. Todos nós temos os nossos gostos pessoais — assim como os nossos fetiches — e nem sempre é fácil encontrar pessoas que os partilham. A Internet torna isso muito mais fácil, daí eu ter o cuidado de colocar os &#8220;tags&#8221; correspondentes. Quem partilhar os mesmos gostos que eu vai decerto encontrar-me aqui com facilidade. E o mesmo se aplica às pesquisas que possa fazer com outros membros do Netlog.</p>
<p>Para além de partilha de gostos, há sempre essa tal pessoa em cem que pode não partilhar os mesmos gostos, mas que é alguém inteligente, culto, educado, e com abertura de espírito suficiente para pelo menos ter interesse em conversar comigo sobre os meus gostos, os meus desejos, e as minhas fantasias — seja porque quer aprender mais, seja porque está curioso(a) sobre o assunto, seja porque simplesmente é alguém agradável e simpático, para quem qualquer coisa serve de pretexto para uma conversa inteligente. É por isso que aturo as centenas de pedidos diários para tomar um cafezinho, ou para ligar a webcam no MSN ou Yahoo, que acabam, em 99% das vezes, comigo a dizer que não estou minimamente interessada. São mesmo muito poucos os que têm efectivamente interesse em mim ou nos meus gostos e desejos. Esses 99% só querem uma coisa: sexo, e acrescentar-me à lista de &#8220;conquistas&#8221; pessoais.</p>
<p>Mantenho-me no Netlog, apesar de tudo, porque sei que haverá uma minúscula parte dos utilizadores nesta comunidade que provavelmente apreciam o meu tipo de fetiches e que gosta de ver imagens/vídeos deles&#8230; embora também saiba que esteja a atrair todo o tipo de pessoas que está a interpretar mal essas fotos e vídeos&#8230; é um dilema terrível.</p>
<p>É por isso que não acrescento muitos amigos. Para além de uma ou outra pessoa que efectivamente foi extraordinariamente simpático(a) comigo, quase todos os outros representam pessoas que conheço de outras andanças ou que vim a conhecer aqui no Netlog porque partilham gostos e interesses comigo.</p>
<p>Às 200 e tal pessoas que aguardam ansiosamente por que eu as aprove como &#8220;amigas&#8221;&#8230; esqueçam&#8230; não partilham absolutamente nada em comum comigo, e como já referi várias vezes, não ando aqui a fazer &#8220;colecções&#8221; de pessoas que não me dizem nada. Responderei sempre simpaticamente às vossas mensagens, claro está, mas ficaremos por aí, ok? Procurem pessoas com os vossos gostos, não coleccionem amigos apenas porque gostaram de uma fotografia&#8230;</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://feminina.eu/pt-pt/2009/02/03/fetiches-e-incompreensao/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>2</slash:comments>
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">42</post-id>	</item>
		<item>
		<title>Da fantasia à sinceridade total?</title>
		<link>https://feminina.eu/pt-pt/2008/07/07/da-fantasia-%c3%a0-sinceridade-total/</link>
					<comments>https://feminina.eu/pt-pt/2008/07/07/da-fantasia-%c3%a0-sinceridade-total/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sandra M. Lopes]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 07 Jul 2008 16:17:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mundo online]]></category>
		<category><![CDATA[webchat]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://feminina.eu/?p=284</guid>

					<description><![CDATA[Quando andava nisto de webchats e assim há uns 15 anos atrás (sim, porque já existiam na altura, havia era muito pouca gente neles&#8230;), a noção de que os chats serviam apenas para o engate era uma novidade. As pessoas não pensavam nessas coisas; aliás, era uma maralha de putos imberbes que pouco ou nada [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Quando andava nisto de webchats e assim há uns 15 anos atrás (sim, porque já existiam na altura, havia era muito pouca gente neles&#8230;), a noção de que os chats serviam apenas para o engate era uma novidade. As pessoas não pensavam nessas coisas; aliás, era uma maralha de putos imberbes que pouco ou nada tinham que fazer e que viam os chats como opção à TV. Ao menos estavam a comunicar com outras pessoas em vez de ficarem agarrados à consola, à TV, ou a outra coisa assim.</p>
<p>Nessa altura, inventavam-se histórias. Havia aquela regra antiga da Internet que não se perguntava nunca, jamais, em caso algum, quem é que as pessoas eram e o que faziam. Eram bons velhos tempos, de privacidade e anonimato, que sempre foram confortáveis para mim. Ninguém estava à espera de que enviássemos fotos, filmes, ou coisas assim. Nem sequer tínhamos páginas Web. Apenas conversávamos. Contávamos histórias uns aos outros. Algumas eram reais, outras eram fantasia; não interessava, tínhamos aprendido logo de início em &#8220;nunca confiar no que se lê na Internet&#8221;. E eu certamente não &#8220;confiava&#8221; em que dizia que eu era lindíssima ou inteligentíssima ou que o sonho deles era passar uma noite comigo. Fazia parte do &#8220;jogo&#8221;. Às vezes aconteciam coisas engraçadas; na maior parte das vezes sorríamos, não levávamos a sério, e estávamos prontos para a próxima vez.</p>
<p>Hoje em dia, a &#8220;Web social&#8221; mudou isso tudo. Curiosamente, há uns anitos, os jornalistas só falam de sexo na Internet, e os defensores da Internet insistiam que não, que isso era generalizar, que era apenas um grupo pequeno que estava interessado nisso, mas que a esmagadora maioria das pessoas andava mas é interessada noutras coisas bem mais importantes. E agora pergunto-me a mim mesma se no fundo não tinham razão.</p>
<p>Todos os sites que em que me tenho inscrito partem do mesmo pressuposto: as pessoas que estão lá colocam imagens e vídeos porque andam à procura de alguém. Não interessa se são virgens e procuram a &#8220;primeira vez&#8221;; se são solteiros e querem deixar de o ser; se são divorciados e sofrem porque perderam o conforto da vida a dois; se são casados e procuram algo fora do casamento; se têm fetiches e querem companheiros para o fetiche. A &#8220;Web social&#8221;, especialmente a que tem imagens e vídeos, é um espaço de encontros, onde as pessoas que participam nela &#8220;vendem o seu peixe&#8221; qual mercado de escravos do século XVI e colocam-se, visíveis para todos, no seu pedestal, &#8220;concorrendo&#8221; para atrairem o maior número de contactos potenciais possíveis. E depois faz-se uma selecção dos que gostamos mais, e vamos à procura deles. Se falhar, há sempre mais sites, mais pessoas disponíveis. Procurar um parceiro sexual na Net é fácil. Andam por aí todos desesperados.</p>
<p>Há uma vertente da &#8220;Web social&#8221; — a que não tem fotos nem vídeos!&#8230; — que não é assim. São os blogs, os foruns, os sites de informação (sobre todo o tipo de informação). Mas é pena que assim seja. O Netlog também tem blogs (estou a escrever num!) mas ninguém os lê. Quem cá anda pelos vistos quer apenas contactos para parceiros sexuais. E andam desesperados!&#8230;</p>
<p>Assim, mudei um pouco a minha atitude. Em vez de &#8220;contar histórias&#8221;, resolvi também meter as minhas fotos, e links para os meus interesses, os meus fetiches, e as minhas fantasias. E explicar que não ando à procura de ninguém para partilhar o meu leito — já estou comprometida e muito feliz, obrigada! — mas apenas de gente interessante com quem conversar. Felizmente ainda os há um pouco por todo o lado, mesmo que sejam pouquinhos.</p>
<p>A política da &#8220;sinceridade total&#8221; tem uma vantagem e uma desvantagem. A vantagem, claro está, é que as pessoas lêem tudo o que querem saber sobre uma pessoa e desaparecem num instante; farão o seu juízo baseado no que leram. Se estão à procura de sexo com alguém descompremetido (ou que não se importa de dar facadinhas no matrimónio&#8230;), e no perfil eu disser logo claramente que não estou minimamente disponível para isso, vão ser eliminadas imediatamente pessoas que só estão interessadas em sexo e mais nada. Óptimo! A desvantagem, claro está, é que essas mesmas pessoas poderão ser na realidade interessantíssimas, mas que farão o seu pré-juízo e nem sequer me contactam, logo nunca terei oportunidade para as conhecer e conversar com elas — independentemente de não ter interesse em dormir com elas.</p>
<p>É um dilema. Prefiro, para já, optar pela estratégia de explicar tudo logo bem explicadinho no início, com links e informação adicional, para não haver surpresas. Tenho feito isso um pouco por todo o lado onde me inscrevo. Agora, claro está, de nada me serve esta verborreia toda se as pessoas depois nunca lêem nada e se ficam pelas imagens e vídeos&#8230;</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://feminina.eu/pt-pt/2008/07/07/da-fantasia-%c3%a0-sinceridade-total/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">284</post-id>	</item>
	</channel>
</rss>
